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Crônica do Penna

texto e foto
Antonio da Cunha Penna
penna@silvaepenna.com.br 3875-3567

A igreja Matriz havia muito pedia alguns reparos. A paróquia empobrecida andava fazendo padre Eustáquio ver e rever o calendário das festas e dar ênfase às falas que precediam as coletas. Os três santos mais importantes haviam recebido uma pequena fenda logo abaixo de seus pedestais, com o aviso: “Espórtulas aqui”. Dito assim, passa-se uma imagem de mesquinhez por parte do vigário. Nada a ver. Era gente boa. Cumpria com dignidade o cargo. Ordenara-se já perto dos quarenta e Morro Alto era sua primeira paróquia.
Meses atrás comemorara vinte anos de ordenação. Festa singela, sem maiores estardalhaços, apesar do comparecimento do bispo.
Antes havia a matriz, a capela de Sant’ana na rua de cima e uma igrejinha presbiteriana na saída pra Cocais. Bem, tinha ainda um centro espírita e um terreiro lá pelas bandas do bairro Matão. Ultimamente já se podia contar mais três igrejas evangélicas na cidade. O tempo insistia em lavar a pintura, entupir calhas e trincar as paredes da matriz. Até o padroeiro São José vinha sofrendo uma descamação que começara na testa e já descia pela lateral do pescoço.

Pobre padre Eustáquio. Era tudo mais fácil quando o mundo inteiro parecia ser católico. Em Morro Alto, já não era mais toda solenidade que o chamava para prestigiar.
A Assembléia de Deus que começara num salão da rua do Comércio, acabara de se mudar para a antiga fábrica de manteiga; um salão imponente na praça de baixo, a uma quadra da Matriz.
O vigário andava triste. Os fiéis vinham percebendo isso. Algumas carolas andavam espalhando que ele estava doente. Estava não. Continuava o homem espigado e de magreza saudável que sempre fora. Os cabelos sim, vinham rareando no alto da cabeça. O prateado nas têmporas servia para aumentar ainda mais seu ar respeitável, e emoldurava agora o seu semblante simpático levemente dorido. Estava difícil disfarçar o tom menor de suas homilias. Sua capacidade em tomar providências diante dos momentos de crise vinham enfraquecendo.
Não gostava de lidar com dinheiro.
“— Luz e ar são bens de superfície. Para que mergulhar em regiões obscuras?”.
Intensidades como o primeiro amor, o dia de sua ordenação, a perda de sua irmã caçula quando ela mal completara quatro anos; essas e outras poucas sensações densas tinham se depurado com o tempo.
“— A vida em geral alimenta-se é de normalidades”.
A concretude dos objetos espalhados à sua frente pediam-lhe atitudes práticas, no entanto, havia o encantado das coisas: transfiguração, encarnação, transubstanciação, consagração, benção... sacramentos...
“— Posso ordenar que meus dedos se mexam dentro dos sapatos... Posso transformar uma rodelinha de trigo em Corpo de Cristo”.
“— Acreditar é preciso!”
Não precisava acreditar que uma hóstia avermelhada se punha lá fora, no horizonte, naquele momento. Isto sim, milagre indiscutível.
“— Por que de novo estes pensamentos, meu Deus?! Há uma trilha segura e batida entre o real e o hipotético. É ela que importa. Um dia esta igreja não estará mais aqui, nem a cidade lá fora, nem o mundo...”
“— O que fazer meu Deus?! Falar de dízimo agora? Os evangélicos passam o recado de maneira simples e direta; lidam muito melhor com isso!”
Cassiano, o sacristão, em suas conversas com o padre às vezes relembrava os “bons tempos” de Dom Silvestre, quando por ocasião da festa do padroeiro, os principais comerciantes e fazendeiros abarrotavam o salão paroquial com prendas para o leilão. O curralzinho improvisado atrás da igreja ficava cheio de novilhos. “— Bons tempos...”.
“—É uma coisa estranha...você dá os dez por cento para a igreja e fica como que ligado para ganhar mais. Animado, corre atrás do prejuízo. Assim, sem perceber, vai se melhorando de vida; a igreja também. Parece coisas de Capeta!, ou seria de Deus?” – argumentara o sacristão.
“—Nós católicos somos mal-acostumados; só damos espórtulas quando precisamos da Igreja”.
“—Seu Jorge, dono da loja grande de tecidos, parece que virou espírita. Seu Carlão, da fazenda Barro Branco, sumiu daqui. E o Garlete, Garlete não só alugou o salão pra Assembléia como entrou para ela. Parece provação”.
Pedaços da conversa que tivera com o sacristão se sucediam em fusões na sua mente.
Cassiano saíra. Antes, a pedido do padre, fora buscar a caixa onde se guardava o presépio. Peças antigas, de bom tamanho. Vinha gente de toda a redondeza para ver. Padre Eustáquio gostavan dele mesmo montar o presépio. Levava jeito.
O olhar do padre estava perdido no emaranhado do cipoal da coroa-de-cristo estilizada das estampas dos ladrilhos. Formavam uma passarela do pórtico ao altar.
A igreja nunca lhe parecera tão grande. No alto, o velho lustre central pairava magnífico como uma nave. Consta que fora presente de um barão-do-café, no início do século passado. Com seus pingentes empoeirados e imobilizados por teias-de-aranha, era o principal representante dos bons tempos de fartura.
Uma andorinha deu seu último vôo naquela tarde de volta ao ninho. Um zig-zag preciso de quem sabe o que faz, compreendendo o desvio do grande lustre. Finalizou a trajetória, um piu estridente pulverizando-se em eco no silêncio.
Lá fora, uma cidade alheia cerrava suas portas à rotina. No alto do coro, um velho órgão suspenso em sua mudez. Castiçais exauridos de luz exibiam suas raízes de cera. Só, na penumbra do santíssimo, a pequena chama a boiar sobre o óleo, lampejava seu fraco sinal de vida. Padre Eustáquio, prostrado no primeiro banco, curvou-se para frente. Diante dele, a imagem do Menino Jesus jazia sobre amareladas folhas de jornais.
Do altar, no lado esquerdo da nave, um São Benedito muito preto, olhava curioso com olhos muito brancos. Nos braços, seu menino-jesus.
À frente, o altar-mor. De seu nicho principal, o padroeiro São José contemplava absorto o grande vão da nave. Seu menino-jesus, de braços abertos, parecia prestes a se lançar das alturas. À direita, o terceiro altar ostentava a imagem de Santo Antônio também com seu menino.
“—Quantos meninos-jesus, meu Deus! Que artistas, anjos ou demônios esculpiram semblantes tão inocentes? Só mesmo sentimentos bons para transmitir tanta doçura!? Quanto ódio teria sido destilado para se chegar à beleza extasiante da Capela Sistina?”
“—Três meninos-jesus, um em cada altar: e você aqui à minha frente a me olhar com esses seus olhos frios. Se escapasses de minha mão agora, te partirias em mil pedaços. Terias à mostra tua alminha de gesso... Amanhã estarias enterrado no quintal da Casa Paroquial. Outro menino-jesus tomaria teu lugar, a nos lembrar que é Advento. Tempo de esperança. Que os cofres se abarrotem de dinheiro – que eu não perca mais fiéis – que novos apareçam, para que eu fique aqui até morrer, aceitando e perdoando a Deus pelos...”.
“—Perdão Senhor pela franqueza; ou melhor, pela fraqueza. Há momentos de não se saber o que dizer, o que fazer... Bobagem minha! Sei que estás comigo e que me mostrarás a saída”.
“—Não ouço os cupins, mas sei que estão por aí...”
“—Detesto quando me vêm esses pensamentos. Queria ser como esse menino-jesus, apenas poder olhar, sem respostas, sem perguntas. Braços abertos inutilmente”.
“—Malhada...a novilha Malhada. É!, isso mesmo. Você me lembra a Malhada! São esses seus olhos abovinados, iguais aos dela. Vaquinha bonita, esperta. Presente de papai quando fiz dez anos. Nunca esquecerei aquela cara a me olhar do fundo da valeta. Parecia esperar que eu fizesse alguma coisa. Aqueles olhos imensos, baços, vitrificados... Eu era pequeno. Descer e cerrar seus olhos, não podia... Entupiram a valeta. Ela ficou lá; olhos abertos, cheios de terra. O que pode um indefeso animal...?”.
“—Senhor, por que diante de ti o absurdo se dá com tamanha naturalidade?”
O relógio da torre deu seqüência a oito badaladas cansadas, findadas em meio ao som que irrompeu pelos alto-falantes da Assembléia de Deus.
Cada toque no sino içava aquele homem à chã realidade das coisas.
Seu olhar percorreu de novo o chapado desenho da coroa-de-cristo nos ladrilhos mais desgastados e que formavam uma trilha à mesa da comunhão.
Os espaços da igreja foram lhe ressurgindo de modo familiar.
“—Amanhã peço a Cassiano que ponha uma escada e limpe um a um os pingentes desse lustre. Voltarão a tilintar como antes ao sopro de qualquer brisa mais forte”.
Lá fora o rolo rotineiro da noite passava sobre a cidade. A novidade era o som bonito que saía pelos falantes da Assembléia.
“—Como tocam e cantam bem esses danados! Ainda esta semana vou para Cocais ver se encontro um organista para reativar o órgão. Cassiano precisa colocar velas novas nestes castiçais”.
“—Hora de ir para casa. Amanhã pulo cedo. Após a missa começo a montar esse presépio sem falta”.
O padre recolocou a imagem em meio os jornais, de modo que a pouca luz que chegava pela porta entreaberta, iluminava agora o palminho-de-rosto no fundo da caixa. Sob luz dividida, nada nele lembrava mais a novilha no fundo da vala – pelo contrário – parecia sorrir de modo travesso com o olho esquerdo ensaiando uma piscadela.


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