É
FOGO
texto Antonio da Cunha Penna
penna@silvaepenna.com.br 3875-3567
Estava
eu na Rádio Jornal batendo papo com Zé Prado quando
fui convidado a entrar no estúdio para ouvir a novidade. Uma
voz soou gaiata, inibida, meio infantil, quase efeminada. Lembrou-me
um pouco a do falecido Zacarias, dos Trapalhões.
“Florentina, Florentina, Florentina de Jesus...”, o refrão
boboca repetido à exaustão dava vida à piada
musical. Achei engraçado. Sou brasileiro típico e gosto
de um escracho. O dono da voz?: Tiririca. Desse dia em diante essa
palavra sapeca ganhou novo significado para mim. Até então
era só uma ervadaninha conhecida pela capacidade de nascer
e se adaptar a qualquer solo. Quando não, também servia
para demonstrar a intensidade de uma raiva: “Fulano ficou tiririca
da vida com você!”. Agora, para mim, tiririca é
também nome de palhaço. Pelo que a mídia anda
mostrando de sua vida, ele tem mesmo algo em comum com a popular plantinha.
É resistente, de fácil adaptação e se
espalha com incrível rapidez.

A
palavra povo nem sempre me remete à palavra palhaço,
já o palhaço Tiririca me lembra povo. Palhaço,
tal qual surge em meu imaginário, é careca, com nariz
de bola, cara pintada e vestido com trajes largos e coloridos. Uma
figura bizarra, porém graciosa. Piolim, Torresmo e Carequinha
são bonitos, Tiririca, não; é feinho que dói.
Aparece em suas primeiras fotos trajando calça vermelha que
me remete à década de 1970, a mais brega do século.
Tenho uma fotografia tirada naquela época na qual estou vestido
do mesmo jeito.
Tiririca personifica o povão. Em sua boca faltam dentes. Seu
bigode, extremamente preto contrasta com uma peruca loira. Alguns
latin-lovers madurões são assim, pintam o bigode de
preto, e se esquecem dos cabelos brancos da cabeça.
Na primeira vez que vi Tiririca estranhei aquela peruca. Lembrou-me
a múmia da mãe de Norman Bates, o assassino do filme
“Psicose”. O terrorzinho que eu sentia quando olhava para
esse tipo ordinário de peruca diminuiu a partir daí.
Em tempos de vacas magras, Tiririca teve o seu circo queimado; forte,
ele renasceu.
Não se acaba com tiririca facilmente. Ela sempre renasce.
Se cuida, malandro! O sucesso te colocou numa “corda bamba”
muito alta. Mais alta a corda, maior o tombo. Tentativas de queimar
o seu circo de novo já estão acontecendo. Não
entendo o mecanismo que faz as pessoas agirem assim. Seria inveja
inconsciente? Roberto Carlos também sofreu esse tipo de perseguição
logo após o BUM do sucesso inicial. A música “Querem
acabar comigo”, dele e do Erasmo, fixou aquele momento. Tiririca
equivocadamente tenta fazer o mesmo em “Mamãe, ore por
mim”, faixa do seu novo CD. Soa deslocado, num disco em que
a gozação geral é a tônica. Exceção
feita, quem gosta de um escracho não deve deixar de ouvir seu
novo disco. É ótimo!
Na primeira faixa, “Pedreiro do Ceará”, ele conta
a estória de um menino que chega aos sete anos ainda sem nome,
e é “livremente coagido” pela mãe a optar
pelo nome de Zé. É hilária. Tiririca dá
um show de interpretação. Em “Amigo é pra
acudir o outro”, mostra um perfeito domínio rítmico,
bem na escola do mestre Jackson do Pandeiro. Se um dia Tiririca deixar
de ser palhaço, poderá seguir em frente como ótimo
cantor de forró. Em “Índia”, ele faz uma
releitura do clássico de Cascatinha e Inhana. Uma pérola
no mesmo estilo minimalista-pentelho de Florentina. Na quinta faixa
ataca de DJ. É o fino da irreverência. Nela, um Tiririca
cheio de charme e malícia nos mostra sua arte maior: falar,
falar e não dizer (quase) nada, assim como faz a maioria dos
políticos. O “Rap da Mulher Pequena” esculhamba
e nos faz esquecer de vez a chata “Mulher Pequena”, de
Roberto Carlos. Em “Eu Vou Comer você”, faz uma
nova versão da estória do Chapeuzinho Vermelho. Só
ouvindo mesmo! Puro deleite. A multidão de sambistas (leia-se
pagodeiros) que infesta o País deveria ouvir Tiririca em “O
Seguro Morreu de Velho” e aprender a arte de balançar.
Numa reinvenção do “Gago Apaixonado” (Noel
Rosa), o palhaço mostra seu molho não devendo nada ao
Zeca Pagodinho.
No momento, Tiririca é o meu palhaço predileto. Gosto
de sua cara de povão e do seu jeito boboca de falso ingênuo.
Vida longa a você, Tiririca!
Nesta
crônica escrevi o seu nome várias vezes. Em todos o lápis
enroscou. É difícil escrever Ti ri ri ca. A sucessão
de is intercalados de erres dificulta a fluência. O alívio
só chega no fim da palavra quando a letra “c” vira
um escorregador e deixa o lápis deslizar até a letra
“a”; certamente “a”, de alegria.
Cuidado, Tiririca! O sucesso pode ser perigoso. Tem sempre alguém
querendo “queimar o nosso circo”.
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Esta
crônica escrita em julho de 1997 estava inédita.
A Folha de São Paulo de 12 de dezembro de 2005 publicou que
“Sony e Tiririca são condenados por racismo a pagar R$
300 mil de indenização por danos morais a entidades
de combate a discrininação racial...”