BICHAREDO
texto Antonio da Cunha Penna
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Ando
cabreiro com a crescente mania de se ter bichos de estimação.
O que eles têm que eu não tenho?, não os bichos,
os bichófilos. Não nasci com queda ou sentimento de
posse para com esses nossos colegas de planeta. Pra não dizer
que não tive bichos, tive sim, uma lombriga que se mandou pelo
orifício devido quando eu tinha oito anos.
Aos
doze, tive alguns bichos-de-pé e aos dezesseis sofria de esquistossomose,
mesmo sem saber que bicho me causava aquilo. Acreditem, nenhum deles,
pedi para ter. Gosto e desgosto mesmo é de gente, apesar de
muitas vezes nos tratarmos como bichos.
Experimente ir até um zoológico e repare na mordomia
dos animais. Lá eles possuem espaço, instalações,
alimentação e o cuidado necessário a cada espécie.
Nada a lembrar nossas cadeias, verdadeiros depósitos de humanos.
Nas prisões de bichos, é comum se ver placas alertando:
não dê comida aos animais. Lembro-me de certa vez ter
visto um garotinho jogando uma banana para um chimpanzé. Para
surpresa geral, ele a devolveu, não em forma de gesto, fechando
um punho e batendo-o contra a outra mão, e sim, via área,
acertando bem na testa do coitadinho.
Fiquei penalizado e o consolei: – “Liga não garotinho!,
esses animais não passam de uns humanos!”
Não sei direito de onde me vem essa indiferença, provavelmente
do berço, quando minha irmã mais velha me ninava. Ela
conta que a canção que mais surtia efeito era aquele
verdadeiro hino intimidador que diz: – “Boi, boi, boi/boi
da cara preta/pega esse menino que tem medo de careta”. Tem
aquela outra: – “Dorme neném/que a Cuca vem pegar/Papai
foi pra roça/Mamãe no cafezar (pra rimar com pegar)”.
Essa tal de Cuca fundiu a minha por um bom tempo. Além de outras
canções assustadoras, como a do Lobo Mau, aquele que
pega as criancinhas pra fazer mingau, tem uma que de tão bobinha
fazia a gente dormir sim, mas de tédio: – “carneirinho,
carneirão-neirão-neirão/olha pro céu,
olha pro chão, pro chão, pro chão”. Tinha
uma outra que me deixava especialmente contente na parte em que dizia:
“atirei o pau no gato-to...”. Fica difícil desenvolver
sentimento ecológico, crescendo ouvindo músicas que
falam de bichinhos de modo tão pejorativo!
Na
cidade Poços de Caldas, existe um cemitério para cães,
com túmulos, epitáfio e tudo. “Aqui jaz Fifi.
A mais humana das cadelas” (Acho a frase ofensiva, do ponto
de vista dos cachorros). “Aqui jaz Napoleão. Valente,
nunca fugiu com o rabo entre as pernas.”
Tenho uma amiga que já está com cinco gatos. Se um já
é chato, dois um porre e três é demais, imagine
cinco. Isso já não é gostar de gato, é
uma gatocose; um alarmante quadro gatocótico que pede urgente
o auxílio de um psicogato. Ela alega que os dela são
especiais. São escovados todos os dias, fazem as unhas das
patas dianteiras e traseiras, usam perfume francês, se lambem
o dia inteiro, não pisam em terra, não sobem em telhado,
limpam os fiofós com papel higiênico perfumado, comem
comidas especiais; odeiam barata, besouro, lagartixa, sapo, passarinho.
Rato então?! Correm de medo deles. Parecem até que nem
são gatos. Para mim são uns fingidos. Não me
enganam, são gatos sim. Aposto que quando ela sai de casa eles
mijam na cama, fazem cocô e jogam pra baixo do tapete, suruba
em cima da mesa da cozinha, provam da comida que ela guardou pro jantar,
comem barata, lagartixa, passarinho, rolam por debaixo dos móveis,
soltam pêlos que ficam nas roupas até que a força
da gravidade ou o vento se encarreguem de fazê-los ir parar
nos alimentos. Sem contar o cheiro infestante.
Enfim,
são simplesmente gatos e fazem aquilo que o Criador os mandou
fazer: ser gatos. Os dela “são tão especiais”
que acho que nem miau fazem. Pena eu não poder declinar aqui
o nome dessa minha amiga, senão iria sugerir ao querido leitor
que a abordasse perguntando sobre os seus “fantásticos
bichanos”. Ela os descreve com tamanho detalhismo e cheios de
superlativos que por mais bronco que você seja, jamais pensará
estar se tratando de tatu ou porco-espinho. Você sempre vislumbrará
um “mitológico deus dos animais”; no fundo, no
fundo, um boboca de um gato mesmo.
Dia desses, minha empregada me contou que recolheu por uma noite uma
cadela em sua área de serviço, e pra surpresa geral
ao amanhecer lá estava ela com seis famintos filhotes. A primeira
providência foi ligar para esse pessoal que cuida de animais
abandonados. Responderam que poderiam ficar só com a cachorra.
Diante de sua situação de pânico, me ofereci para
recolher os cachorrinhos num saco e jogá-los piedosamente no
Rio Jundiaí. O olhar de indignação e ódio
que ela me lançou, faria de Hitler um querubim. Confesso que
tremi.
É
sério mesmo. Não abano o rabinho de alegria quando encontro
qualquer ser com mais de duas patas. Gosto mesmo é de gente,
apesar de mim, e de outros mais. Talvez seja esse sentimento que me
impede de ser um dos gênios da música. Tchaikovski, Scarlatti,
Vivaldi, Mozart, Hayden e Debussi gostavam de gato. Wagner, de papagaio.
Gounod adorava macaco, já Mahler, Beethoven e Chopin, ficavam
mais inspirados com a presença de um cachorro e o último
compôs uma valsa para o cão de sua amada (esquecendo-se
de fazer o mesmo para ela). Tom Jobim adorava passarinho. Por falar
em músicos e bichos, o bossanovista João Gilberto passa
dias e noites fechado em seu apartamento cantando por horas a mesma
música. É fácil constatar essa mania de repetição:
repete doze vezes o refrão em sua gravação do
samba “Isaura” (H. Martins e R. Roberti). Nos seis minutos
e meio da canção “Indiu”, de sua autoria,
repete essa enigmática palavra por cento e doze vezes (eu contei).
Dá até pra acreditar mesmo que seu gato tenha se jogado
do 15o andar depois de ouvir “O Pato” por mais de cem
patológicas vezes. Por muito menos, eu teria feito o mesmo.