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BICHAREDO
texto Antonio da Cunha Penna
penna@silvaepenna.com.br 3875-3567

Ando cabreiro com a crescente mania de se ter bichos de estimação. O que eles têm que eu não tenho?, não os bichos, os bichófilos. Não nasci com queda ou sentimento de posse para com esses nossos colegas de planeta. Pra não dizer que não tive bichos, tive sim, uma lombriga que se mandou pelo orifício devido quando eu tinha oito anos.
Aos doze, tive alguns bichos-de-pé e aos dezesseis sofria de esquistossomose, mesmo sem saber que bicho me causava aquilo. Acreditem, nenhum deles, pedi para ter. Gosto e desgosto mesmo é de gente, apesar de muitas vezes nos tratarmos como bichos.
Experimente ir até um zoológico e repare na mordomia dos animais. Lá eles possuem espaço, instalações, alimentação e o cuidado necessário a cada espécie. Nada a lembrar nossas cadeias, verdadeiros depósitos de humanos. Nas prisões de bichos, é comum se ver placas alertando: não dê comida aos animais. Lembro-me de certa vez ter visto um garotinho jogando uma banana para um chimpanzé. Para surpresa geral, ele a devolveu, não em forma de gesto, fechando um punho e batendo-o contra a outra mão, e sim, via área, acertando bem na testa do coitadinho.
Fiquei penalizado e o consolei: – “Liga não garotinho!, esses animais não passam de uns humanos!”

Não sei direito de onde me vem essa indiferença, provavelmente do berço, quando minha irmã mais velha me ninava. Ela conta que a canção que mais surtia efeito era aquele verdadeiro hino intimidador que diz: – “Boi, boi, boi/boi da cara preta/pega esse menino que tem medo de careta”. Tem aquela outra: – “Dorme neném/que a Cuca vem pegar/Papai foi pra roça/Mamãe no cafezar (pra rimar com pegar)”. Essa tal de Cuca fundiu a minha por um bom tempo. Além de outras canções assustadoras, como a do Lobo Mau, aquele que pega as criancinhas pra fazer mingau, tem uma que de tão bobinha fazia a gente dormir sim, mas de tédio: – “carneirinho, carneirão-neirão-neirão/olha pro céu, olha pro chão, pro chão, pro chão”. Tinha uma outra que me deixava especialmente contente na parte em que dizia: “atirei o pau no gato-to...”. Fica difícil desenvolver sentimento ecológico, crescendo ouvindo músicas que falam de bichinhos de modo tão pejorativo!
Na cidade Poços de Caldas, existe um cemitério para cães, com túmulos, epitáfio e tudo. “Aqui jaz Fifi. A mais humana das cadelas” (Acho a frase ofensiva, do ponto de vista dos cachorros). “Aqui jaz Napoleão. Valente, nunca fugiu com o rabo entre as pernas.”
Tenho uma amiga que já está com cinco gatos. Se um já é chato, dois um porre e três é demais, imagine cinco. Isso já não é gostar de gato, é uma gatocose; um alarmante quadro gatocótico que pede urgente o auxílio de um psicogato. Ela alega que os dela são especiais. São escovados todos os dias, fazem as unhas das patas dianteiras e traseiras, usam perfume francês, se lambem o dia inteiro, não pisam em terra, não sobem em telhado, limpam os fiofós com papel higiênico perfumado, comem comidas especiais; odeiam barata, besouro, lagartixa, sapo, passarinho. Rato então?! Correm de medo deles. Parecem até que nem são gatos. Para mim são uns fingidos. Não me enganam, são gatos sim. Aposto que quando ela sai de casa eles mijam na cama, fazem cocô e jogam pra baixo do tapete, suruba em cima da mesa da cozinha, provam da comida que ela guardou pro jantar, comem barata, lagartixa, passarinho, rolam por debaixo dos móveis, soltam pêlos que ficam nas roupas até que a força da gravidade ou o vento se encarreguem de fazê-los ir parar nos alimentos. Sem contar o cheiro infestante.

Enfim, são simplesmente gatos e fazem aquilo que o Criador os mandou fazer: ser gatos. Os dela “são tão especiais” que acho que nem miau fazem. Pena eu não poder declinar aqui o nome dessa minha amiga, senão iria sugerir ao querido leitor que a abordasse perguntando sobre os seus “fantásticos bichanos”. Ela os descreve com tamanho detalhismo e cheios de superlativos que por mais bronco que você seja, jamais pensará estar se tratando de tatu ou porco-espinho. Você sempre vislumbrará um “mitológico deus dos animais”; no fundo, no fundo, um boboca de um gato mesmo.
Dia desses, minha empregada me contou que recolheu por uma noite uma cadela em sua área de serviço, e pra surpresa geral ao amanhecer lá estava ela com seis famintos filhotes. A primeira providência foi ligar para esse pessoal que cuida de animais abandonados. Responderam que poderiam ficar só com a cachorra. Diante de sua situação de pânico, me ofereci para recolher os cachorrinhos num saco e jogá-los piedosamente no Rio Jundiaí. O olhar de indignação e ódio que ela me lançou, faria de Hitler um querubim. Confesso que tremi.

É sério mesmo. Não abano o rabinho de alegria quando encontro qualquer ser com mais de duas patas. Gosto mesmo é de gente, apesar de mim, e de outros mais. Talvez seja esse sentimento que me impede de ser um dos gênios da música. Tchaikovski, Scarlatti, Vivaldi, Mozart, Hayden e Debussi gostavam de gato. Wagner, de papagaio. Gounod adorava macaco, já Mahler, Beethoven e Chopin, ficavam mais inspirados com a presença de um cachorro e o último compôs uma valsa para o cão de sua amada (esquecendo-se de fazer o mesmo para ela). Tom Jobim adorava passarinho. Por falar em músicos e bichos, o bossanovista João Gilberto passa dias e noites fechado em seu apartamento cantando por horas a mesma música. É fácil constatar essa mania de repetição: repete doze vezes o refrão em sua gravação do samba “Isaura” (H. Martins e R. Roberti). Nos seis minutos e meio da canção “Indiu”, de sua autoria, repete essa enigmática palavra por cento e doze vezes (eu contei). Dá até pra acreditar mesmo que seu gato tenha se jogado do 15o andar depois de ouvir “O Pato” por mais de cem patológicas vezes. Por muito menos, eu teria feito o mesmo.


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