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Já é hora de ir
para a escolinha

Pais delegam a colégios a tarefa de formar cidadãos

É uma decisão difícil a escolha da escola para os filhos, principalmente para pais marinheiros de primeira viagem. O ingresso em estabelecimentos com ensino pedagógico começa cada vez mais cedo – em muitos casos, com apenas dois meses de vida.


Brincar e aprender
andam juntos na Eco Mundi

Como administrar essa via de mão dupla: a criança, que sai de casa para entrar num ambiente estranho e, no caso da mãe, ver seu pimpolho sendo entregue a terceiros? Será que meu filho vai sentir falta de mim? Vai chorar? Vai ser bem tratado? São perguntas que todas as mães fazem. Essa angústia maternal é a que dá mais trabalho, asseguram os diretores de escolas e pedagogos.
“A mãe muitas vezes não consegue cortar esse ‘cordão umbilical’ e por isso fica ansiosa”, explica Ercínia Cortassi Fangel, diretora do Recanto dos Baixinhos, que recebe “alunos” bebês. Já as crianças de hoje encaram a ida para o colégio como uma aventura a mais, uma brincadeira diferente, com amigos novos, ressaltam os coordenadores escolares. As mães ainda sentem uma espécie de culpa por voltar a trabalhar logo depois da licença-maternidade, mas sabem que um lugar com bons profissionais certamente é melhor do que deixar os filhos nas mãos de babás sem capacidade pedagógica, e que muitas vezes não são de confiança, como os noticiários de TV têm revelado. Além disso, há outro fator a ser levado em conta. “Os tempos mudaram, além dos pais trabalharem, também as avós estão trabalhando”, ressalta a psicopedagoga Leonides Curi.


Profissionais e bebês
no berçário do Objetivo


As mães passam por sentimentos diferentes – ao mesmo tempo em que temem “abandonar seu tesouro”, se frustram ao notar que os filhos nem olham para trás, abrindo os braços para esse mundo novo. “Fiquei chorando por dentro, achando que o Rafael não ia querer ficar na escola. Que nada, ele ficou feliz da vida ao se ver rodeado de coleguinhas”, conta Maria Aparecida Ferreira. O sentimento de culpa dos pais é levado a sério pelas escolas. “Como observamos esse conflito neles, passamos a disponibilizar psicólogos para amenizar a ansiedade, principalmente nas mães”, explica a educadora Loide Boldori, mantenedora do Colégio Objetivo de Indaiatuba. É consenso entre pedagogos e neurologistas que quanto mais cedo a criança for inserida em um ambiente educacional, mais tem a ganhar no futuro. As creches, que eram vistas como locais em que mães deixam seus filhos enquanto trabalham, são agora preciosas aliadas na educação inicial.

Benefícios As mães devem levar em consideração que o ingresso dos bebês nas escolas é salutar, sendo a socialização um atrativo a mais. “A criança aprende a dividir, a negociar, a ceder seu brinquedo para o colega e vice-versa”, ressalta Ercínia. Com tantos colegas, os bebês aprendem desde pequenos que devem respeitar o próximo – o choro de um pode acabar acordando os outros. E se meu filhinho chorar, perguntará alguma mãe aflita.
“Os bebês choram por desconforto: fralda molhada, fome ou sede. Quando o choro é por dor, nós sabemos distinguir”, assegura a enfermeira-padrão Adriana Monteiro Teixeira de Oliveira, responsável pelo berçário do Colégio Objetivo. Essa diferenciação no choro é detectada nos berçários escolares porque as profissionais que neles trabalharam, assim como as mães, têm o ouvido treinado. Além disso essas supervisoras executam tarefas antes feitas somente pelas mães ou avós, como a retirada de fraldas ou chupetas, ou o ensino do uso de talheres.


Crianças e brinquedos
pedagógicos no
Cata-Vento

Por falta de tempo, comodismo ou despreparo emocional, muitos pais deixam a serviço das escolas a formação dos futuros cidadãos. Noções de higiene, cidadania, preservação ambiental e respeito ao próximo são valorizadas nos colégios voltados a alunos da primeira infância (até os sete anos). Esses valores estão presentes nas escolas sérias, que têm consciência desse novo papel. Artes plásticas, teatro, plantio de horta, contato com animais - são algumas das atividades estimuladas já antes dos dois anos de idade. A meta é incutir na criança subsídios para um futuro cidadão. “Um indivíduo que desenvolve caminhos próprios de expressão é capaz de participar de modo mais efetivo do seu contexto sociocultural”, avalia a educadora Léia Perini, da Escola Cata-Vento.

Mercado novo A procura por colégios com berçários ou maternal 1 (até um ano e três meses) tem aumentado bastante de cinco anos para cá. E com isso, novas vagas de trabalho foram abertas. Antes, eram necessários professores e pedagogos. Hoje, um colégio infantil tem em sua folha de pagamento enfermeiras-padrão, fisioterapeutas, nutricionistas e psicólogas. “As escolas estão tendo que se reorganizar para essa nova realidade”, ressalta a psicopedagoga Maria Rosângela da Silva. Outra novidade é que as crianças passam mais horas no ambiente escolar. Em muitos casos, até 12 horas. Por isso é importante conferir o perfil da escola a ser freqüentada por crianças tão pequenas.
Funciona Anos de prática mostraram eficácia no ensino de idiomas na 1ª infância. Outra língua que não a materna é mais assimilada se isso for feito de forma natural. Por isso é que o que o Colégio Santana, de Salto, resolveu abrir turmas de Educação Infantil com aulas bilíngües. O inglês foi escolhido porque, mesmo que o Itamaraty tenha resolvido dispensar o domínio da língua, não há dúvidas de que povos diferentes se comunicam através do idioma e não por esperanto, que não “pegou”. “De fato, quem não fala inglês tem menos chances de subir na carreira profissional”, avalia Vânia Pitta de Mello Barreto, do Fisk.
É importante iniciar cedo a alimentação saudável. “Os filhos refletem o que vêem em casa. Se os pais tiverem alimentação pouco saudável, não adianta forçar a criança”, ensina a nutricionista Fabiana Wolf. Hoje, aquela máxima de que “bebê gordinho é bebê sadio”, está errada. Pesquisas comprovam que o excesso de peso na 1ª infância pode ser determinante para obesidade no adulto. Colégios infantis hoje costumam ter hortas, fazendo do contato com a natureza ponte para a alimentação saudável. As crianças adoram comer o que plantam, cultivam e colhem. E aprendem que as verduras são “até” gostosas. “Com atividades lúdicas e vendo os coleguinhas comerem, é mais fácil a criança aceitar e experimentar alimentos que não costuma comer em casa”, completa Léia Perini.
A educação infantil é um assunto sério, que precisa estar sempre sendo reciclado, com descobertas neurológicas ou psicológicas em constante adaptação por pedagogos. É na 1ª infância que a criança tem noção do abstrato, de seu lugar na sociedade e de que brincar e aprender podem ser a mesma coisa. Escolas de Indaiatuba são cientes de seu papel. Ou seja, cabe à elas o perfil de uma nova geração. De fazer um futuro sempre melhor.

E o afeto?
A psicologia moderna acompanha as necessidades dos novos tempos. Sabe que os pais, ou mais especificamente as mães, nem sempre podem abrir mão de um trabalho remunerado para se dedicar aos filhos. E em vez de deixar suas crianças nas mãos de babás (que podem até agredir bebês, como foi mostrado diversas vezes nos noticiários em TVs) preferem colocá-las em creches ou berçários escolares. “O afeto familiar é insubstituível”, assegura a psicóloga Rejane Cristina Bueno Silva, especializada em crianças. Nesses casos, ela recomenda que é preciso escolher criteriosamente a escola ou creche. A psicóloga lembra que muitas mães, que não trabalham fora, também não dão a atenção que a criança exige – não por serem negligentes, mas por terem que executar muitas tarefas ao mesmo tempo. Pesquisa feita recentemente mostrou um dado assustador. Foi pedido a crianças de diversas escolas para desenharem seus pais e seu lar. A maioria dos desenhos trazia estampada uma televisão. “É importante frisar que a TV passa seus próprios conceitos, podendo formar toda uma geração com determinados padrões, principalmente se princípios pouco éticos forem mostrados”, acrescenta.



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