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Por Maria Cecília Pigatto *
FAZENDO PLANOS 
É feriado. De carnaval. Anos atrás eu estaria fazendo planos. O que levar para a viagem? Levamos as bebidas ou compramos lá? Preciso de cremes, protetores solares, um biquíni novo, um chinelo, uma “sainha jeans”, uma canga. Ah, um chapéu também.
Quantos carros? Quem vai? Não posso esquecer de levar roupa de cama, toalha, band-aid, água oxigenada, cotonetes, pinça (sempre tem alguém com um estrepe), acetona, algodão, lixa de unha. Fora xampu, condicionador, creme para pentear, Aspirina, Sonrisal, Engov, Sorine. Será que levo edredons? E se fizer frio um dia? E o travesseiro: levo o meu ou uso o que tem lá? Não posso esquecer de colocar um rolo de papel higiênico no carro, caso precise na estrada.
E se não for viajar? O que vou fazer? Ah, tenho que pensar numa fantasia. Bem legal. Correr para o centro da cidade e perambular de loja em loja até encontrar. Comprar ingressos do clube. Ligar para o pessoal. Organizar um esquenta para antes da balada, etc., etc., etc.
Claro, tenho que ver com que roupa vou pular. Vou de calça? Ou de shorts? Bermuda, na verdade, pois não uso shorts há anos. De qualquer forma, seja de bermuda ou calça, preciso de uma nova, pois as que tenho não servem para pular o carnaval, tenho que ir comprar. Será que vamos fazer camiseta para irmos todos iguais? O que vamos escrever?
Enfim, mil coisas para pensar. Engraçado que até hoje ainda continuo fazendo planos. E neste feriado quero pular. Pular todos os meus compromissos. Quero viajar para minha própria casa. Quero acordar tarde. Almoçar tranquila sentada à mesa. Quero assistir desenhos de manhã. Ah... há quantos anos não faço isso!
Quero brincar com meu cachorro, caminhar no parque. Tá, esquece caminhar no parque. Quero vestir-me de atleta e puxar um ronco no sofá, como se tivesse acabado de chegar da academia. Quero assistir aos desfiles das escolas de samba pela TV. Quero varar a noite nos camarotes da Brahma, sem me preocupar em acordar cedo no dia seguinte.
Quero arrumar minha gaveta de bugigangas calmamente. Quero esparramá-las e sentar no chão, separar coisa por coisa. Quero sentar no sofá e cutucar minha unha encravada até sangrar. Quero por os pés de molho na bacia. Quero fazer todos os tratamentos de beleza a que tenho direito. Vou entupir meu cabelo de abacate, lambuzar-me de mel e sal grosso. Quero esfoliar meus pés com morangos. Quero virar uma máscara de pepinos ambulante. Quero espremer meus cravos no espelho, um a um.
Se fizer sol? Quero ser uma lagartixa. Quero me bronzear sem ter que esconder as minhas, “minhas” banhas das visitas. Se chover? Ah, se chover quero jantar pipoca e dormir de pijama. Quero ver todos os filmes que comprei. Quero pular o banho ou tomar banho de duas horas.
Quero passar a agenda de telefone a limpo. Há anos estou para fazer isso. Quero ter o prazer de abrir um livro, sentar no sofá e não ler um parágrafo sequer. Quero tirar um cochilo no meio da tarde. Vou fazer um bolo se tiver a fim e rabanadas também. E vou comê-los quentes até queimar a língua!
Quero, sem pressa, tomar café da manhã na minha casa, que nem gente. E não engolir um pão como faço todos os dias. Quero pregar o botão da minha camisa com calma. Quero parar em frente à geladeira e escolher o que vou comer.
Enfim, quero não fazer nada disso e não sentir culpa. Desde que não tenha nada pra fazer. E aí? Tá a fim?
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