| Blague
de um bom amor
Por:
Josi Pieri
josipieri@hotmail.com
Bom não é apenas o que satisfaz as necessidades, bom é
o que nos leva às descobertas e mal não é somente
a dor, mal é também o desaparecimento de tal bom.
Os “experts” da arte de amar traduzem, comomentem, que amor
bom é aquele em que estão presentes numa relação,
pelo menos alguns elementos básicos tais como: preocupação
ativa com o relacionamento, respeito pela individualidade alheia, carinho,
cuidado, conhecimento, segurança, enfim, elencam uma série
de virtudes, e que de fato são, para definir o bom. Enganam-se
os sábios e entendidos ao não admitirem que bom é
o que faz mal ao coração, à saúde e a ordem.
Bom é o que causa prejuízo.
Quem já viveu um dramático amor que o diga. Os escolhidos
para a fatalidade do “acaso” sabem da consequência
de se provar um prato apimentado sob um calor de 40 graus e mais, desacompanhado
de bebida.
Vida leve, suave, onde tudo está sempre em seus devidos lugares,
não tem graça. Pode até ser que tenha mas, só
depois de se provar o que é atípico e violento - os movimentos
transitórios.
Amor bom é o que contradiz as teorias-avós, é o
que choca a imbecilidade da maioria. Esse amor chega inoportunamente
e ataca os mais desavisados. É como gripe forte. Os primeiros
sinais se manifestam e a vítima, sem saber o que está
acontecendo, não dá importância aos sintomas acreditando
estar imune ao vírus e aí, em ritmo dissoluto a infecção
se instala.
Alterações respiratórias, coração
acelerado, mãos frias, arrepios, dor no peito. Depois vem a dor
de cabeça acompanhada da voz afônica. O próximo
passo, olhos lacrimejando, a pele rubra e ardente, o corpo embraseado
evoca a libertação e chama, epa... desculpe-me, das chamas.
Aí não adiantam esforços para controlar os instintos,
não tem jeito não, o elixir é cama... A fase seguinte
é o desejo abrupto de se livrar das roupas encharcadas de suor,
delírio, obscurecimento dos sentidos, o que provoca grande confusão
no doente, ou seria efusão? Nesse estágio a instabilidade
toma conta do moribundo.
O sujeito fica tão vulnerável que a ansiedade toma conta
de seu corpo, se não estiver em sua própria cama o mal
é ainda pior, devaneio e lucidez se contrapõem e se não
bastasse todo o descompasso, o pico ainda está por vir. O infectado
já não sabe se levanta ou se o ideal é permanecer
deitado. O mal está insiste em permanecer. A boca seca ou de
tão molhada, porque não se pode engolir mais nada, faz
o coitado babar. O sangue ferve, a cabeça vibra e os orifícios
entopem, alguns têm até dor de barriga e difícil
é segurar os excrementos...
Paixões, ah... gripes são avassaladoras. Acontecem quando
se está desenvolvendo aquele grande projeto de vida, quando nada
pode dar errado. No momento em que o homem, ou a mulher, faz uso do
seu livre-arbítrio (?) e decide que só precisa de um pouco
mais de tempo pra resolver as questões pendentes.
Inexplicavelmente amor bom é amor que não dá certo
e como toda gripe tem curta duração, amor bom não
seria diferente.
É enigmático, enfeitiçante e acontece só
para destruir as formas sadias da vida.
Seria eu hipócrita se quisesse dizer de algo que não compreendo
– Os mistérios do amor.
Talvez ele seja mesmo paradoxal – “Um fogo que arde
sem se ver, / é ferida que dói e não se sente;
/ é um contentamento descontente; / é dor que desatina
sem doer.” (Camões)
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