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Construir sem trauma

Será possível?

Nunca mais vou mexer com construção na minha vida”. Certa-
mente você já ouviu – se é que já não disse – essa frase. Associar
construção a um pesadelo é uma idéia tão difundida que, às vezes, chega a dar a impressão de que a humanidade se divide em dois grandes grupos: o daqueles que ainda sonham com a construção da casa própria, e o daqueles que já o realizaram – e se arrependeram amargamente. Mas será mesmo que a construção tem que ser sempre uma experiência traumatizante?

No mercado quem dita as regras é o consumidor. E a indústria da construção sabe muito bem disso. De antenas ligadas a essa realidade, os antigos depósitos de materiais de construção se transformaram em complexas companhias especializadas em vender produtos e agenciar serviços. Os “pitacos” nem sempre confiáveis do balconista cederam lugar ao suporte técnico especializado; as banquetas poeirentas foram substituídas por aconchegantes poltronas; e os medíocres mostruários se tornaram em fantásticos show room. Tudo em nome do que chamam de “atendimento personalizado”.

“No nosso conceito aquela imagem do ‘depósito’ acabou. Hoje buscamos um ambiente o mais agradável possível e com a assessoria mais eficaz a fim de tornarmos a construção da casa própria em uma experiência agradável”, sentencia Rogério Proença, 37 anos, gerente da loja de Indaiatuba da rede Padovani Materiais de Construção. E ele garante: a valorização do sonho de quem constrói tem se tornado exatamente o foco principal da indústria da construção. “Em geral as pessoas constróem apenas uma casa em toda a sua vida. Este tem que ser um momento especial”, analisa. Pois é isso mesmo o que impulsiona a venda de produtos variados, principalmente se tratando de acabamentos. As opções para embelezar a casa exorbitam-se em uma gama cada vez maior de cores, formas e texturas.


Chamem o Zé!
Acontece que, além de explorar os diferentes estilos e desejos dos clientes, essa diversidade acaba atrelando uma série de outros “acessórios”. Para “assentar” um determinado tipo de piso, por exemplo, é necessário comprar um cimento especial. Para pintar sobre uma parede texturizada é necessário aplicar um gel colorido vendido separadamente. E por aí vai.

Foi-se o tempo em que se escolhia a marca do ladrilho de acordo com o bolso. Hoje é a marca quem te escolhe, de acordo com aquilo que você está disposto a pagar. E na maioria das vezes você se torna dependente dela, ao comprar os complementos para aquele primeiro produto. Resumindo: a tecnologia oferece centenas de soluções, e gera milhares de novas necessidades.

Para participar de todo esse avanço tecnológico o setor tem gerado também uma nova demanda de mão de obra especializada. Um pedreiro acostumado a assentar tijolos convencionais há 30 anos pode ficar completamente perdido diante de uma pilha de blocos estruturais. Nesse caso os longos anos de experiência não significam praticamente nada, pelo contrário, podem acabar atrasando a obra e desperdiçando o material (nada barato, por sinal).

A solução para esse problema foi, por muito tempo, um dos principais objetos de estudo dos fornecedores de materiais para construção, e acabou sendo o estopim para a mudança na antiquada figura do “depósito”. Aparentemente opção mais sólida encontrada pelo mercado veio através de parcerias entre fabricantes e lojistas. Em espaços fornecidos pela própria loja, o fornecedor ministra cursos e palestras específicos a cada lançamento. Esses cursos atualizam tanto os profissionais (pedreiros, eletricistas, encanadores, etc) quanto os atendentes da loja, dos quais, cada vez mais, vem sendo exigido conhecimento técnico do produto.

“Muitos consumidores ainda não estão atualizados a esse novo conceito, e ignoram nosso conhecimento tecnológico na área da construção. Tive uma cliente que comprou com a gente um material muito sofisticado. Era um piso em porcelanato que custava R$ 130 o metro quadrado (a maioria das opções em cerâmica não custa mais que 15% desse valor). Mas para compensar o que para ela era uma extravagância, ela não se importou com a nossa orientação e contratou um instalador que cobrava a bagatela de R$ 10 para assentar o piso. Lógico que ficou horroroso. Ela acabou tendo que trocar todo o material, gastando muito mais”, recorda o gerente da loja Irmãos de Genaro, Airton Aparecido da Silva, de 40 anos.

Foi para evitar essas e outras surpresas que a loja dele passou a oferecer nominalmente serviços que vão desde dicas de arquitetura até o acompanhamento da obra in loco. Tudo isso como cortesia, sem qualquer custo adicional para o cliente.

Isabel Fernanda Sombini, 28 anos, é a arquiteta da loja, e costuma ajudar os clientes a organizar as idéias quando o assunto é construção civil. “Quem já construiu alguma vez costuma ter alguma noção, mas a maioria das pessoas chega à loja com milhões de idéias, e nem sempre elas são viáveis. O principal desafio é de passar confiança ao cliente, para que ele tenha certeza de que eu sou uma profissional e sei do que estou falando. E estou aqui para ajudá-los a realizar o sonho, e não para mudar tudo”, analisa.

Um dos serviços mais comuns para Isabel é o de desenhar, através de um programa de computador, como vai ficar o assentamento do piso escolhido pelo cliente. Nesse “esquema” – que é aplicado diretamente em uma planta baixa da casa – o instalador tem uma noção exata do que fazer. Se o profissional for capacitado e seguir exatamente o desenho, não tem como o cliente ficar decepcionado.

Na mesma linha segue a loja Maitá Materiais para Construção. O dono da loja, Roberto Pereira da Silva, 39 anos, mantém um cadastro com dezenas de profissionais que recebem treinamento junto com os funcionários da loja. “O desperdício de material é um dos principais problemas enfrentados por quem constrói, e é perfeitamente controlável se o profissional estiver bem familiarizado com a aplicação do produto”, opina.

Ele conta que atendeu um cliente com um problema de infiltração na área da piscina. Bastava começarem a brincar na água para o vestiário logo abaixo ser inundado por uma verdadeira cachoeira que brotava do teto. “Ele já havia aplicado diversos produtos, e eu preferi chamar a assistência técnica do fornecedor antes de dar a minha opinião”, recorda. A solução encontrada foi uma manta asfáltica que acabou de vez com as goteiras.

No mesmo rumo está a loja Pais & Filhos Materiais para Construção, que começou como um simples depósito com a finalidade de abastecer as milhares de construções do Jardim Morada do Sol. Hoje, após 16 anos de funcionamento, a loja passa por uma reforma geral do prédio a fim de entrar cada vez mais em sintonia com o mercado. “Antes a gente se preocupava muito mais com o preço. Hoje podemos oferecer as melhores marcas do mercado, que são as que dão o melhor suporte para o consumidor. Quem não entrar nessa onda vai acabar ficando à margem na história”, analisa Silvio Bonfá, 36 anos, gerente da Pais & Filhos.


Uma “planta” na mão,
mil e uma idéias na cabeça...

Cena muito comum para quem trabalha com construção civil é a da família que deseja construir chegando a uma loja especializada com a planta da futura casa em mãos, mas sem a menor noção de por onde devem começar. O acesso fácil a revistas, programas
de televisão paga e até eventos como o Casa Cor enchem a cabeça com milhões de idéias. Se por um lado as sugestões permitem o contato com estilos diferentes, por outro as idéias muitas vezes se confundem, e podem acabar atrapalhando consideravelmente a execução da obra.

Então como é possível se organizar e precaver-se de transformar a casa em uma árvore-de-Natal-superfaturada? Não é fácil, mas seguir algumas dicas pode ser de grande valia. Aí seguem as sugestões apontadas pelos mesmos profissionais entrevistados para essa matéria.

1 Contratar um engenheiro ou arquiteto
    para acompanhar a obra

O que em princípio pode parecer um gasto desnecessário vai acabar fazendo muita falta no decorrer da construção. Cerca de 42% das decepções relacionadas à construção civil poderiam ser evitadas caso um profissional experiente estivesse na administração do projeto. Para conhecer a competência do profissional é sempre bom buscar indicações de quem já usufruiu desses serviços. Nem sempre um escritório bonito e bem decorado significa um profissional gabaritado (apesar desse ser o método de avaliação da maioria das pessoas que buscam esses serviços).

2 Buscar um pedreiro ou
     mestre-de-obra qualificado

Poucas pessoas se dão ao luxo de visitar uma obra edificada pelo pedreiro que estão contratando. É um erro muito comum confiar na experiência que ele afirma ter ao invés de confirmar as informações, e a verdade é que o desemprego gera muitos “pedreiros”, “encanadores” e “eletricistas” sem o menor preparo técnico para exercer a função. Para quem pretende contratar uma mão de obra é imprescindível levantar o histórico profissional de quem está sendo contratado, afinal de contas o pedreiro será seu “empregado” durante toda a realização da obra. A falta de cuidados na contratação desses profissionais muitas vezes é responsável por obras inacabadas, frágeis, e muito material desperdiçado.

3 Criar um vínculo com uma única
    loja de materiais de construção

Todo consumidor adora uma promoção, e quem está construindo não é diferente. Mas comprar o material “picado” em várias lojas para economizar nem sempre é um bom negócio. O risco é de que haja algum problema e nesse caso nenhuma das lojas se responsabilize pela assistência. O ideal é fazer o orçamento de todo o material pedido pelo pedreiro e optar pela loja que achar melhor. A partir daí toda compra deve ser feita no mesmo lugar, a fim de estabelecer um vínculo. Isso facilita o acesso até mesmo aos técnicos da empresa fabricante do produto, uma vez que as lojas recebem todo apoio de seus fornecedores.


Acessibilidade
É preciso pensar nisso

Um dos mais fortes princípios – em se tratando de arquitetura – é exatamente a personalização do ambiente. Além de bonita, uma casa também tem que ser prática e usual, ou seja, se adequar às necessidades do dia-dia de quem vai morar nela.

Ocorre que, a partir de uma certa idade, todo ser humano passa a apresentar dificuldades de locomoção. Seja em maior ou em menor nível, ela marcará presença na vida de praticamente todos os que alcançarem uma certa longevidade. Recentemente os prédios públicos e de acesso público têm sido forçados a promover o acesso igualitário a toda a população, isso por força de Lei. Surge aí um profissional que vem sendo cada vez mais solicitado: o arquiteto especializado em acessibilidade.

Geralmente os serviços desses profissionais são solicitados por entidades que cuidam de portadores de necessidades especiais, órgãos do governo, ou famílias com pessoas idosas e com dificuldades de locomoção.

“A começar pelas cores, o ambiente deve ser claro, com bastante iluminação natural. Paredes e teto brancos refletem melhor a luz artificial, favorecendo a visão e evitando acidentes”, explica a arquiteta Paula Figueredo, que há 14 anos trabalha com acessibilidade.

Vãos de portas precisam ter pelo menos 80 centímetros de vão útil, e o box para chuveiro não pode ser menor que 1,10m por 1,25m. Barras de apoio dentro do box ajudam muito, e são fáceis de encontrar em qualquer loja de materiais para construção. As mesmas barras servem de corrimão onde houverem degraus.

“As pessoas em cadeiras de rodas costumam encontrar bastante dificuldade para se locomover em prédios públicos, e às vezes a dificuldade se repete até mesmo dentro da própria casa”, analisa a arquiteta. Por isso é importante buscar uma orientação técnica para adequar o imóvel da melhor forma possível.

 

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