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Dia da Poesia


texto Antonio da Cunha Penna
penna@silvaepenna.com.br 3875-3567

"Tem dias que a gente se
sente/como quempartiu ou morreu”

(Chico B. de Hollanda)

Era como me sentia naquela segunda-feira. Não sei... não me pergunte porquê. É raro acontecer; a melancolia tomar conta de mim. Não vinha da cor cinza que se fazia no céu nem da síndrome de segunda-feira. Talvez acúmulo de fatos a empoeirar a alma a ponto de se poder nela escrever: estou triste!

Era um 14 de março, dia dedicado à poesia. Ao correr os olhos pela Folha Ilustrada, pulei os quadrinhos, de Angeli a Jim Davis, todos dispostos a me descontrair. Fui direto ao horóscopo – apesar de não acreditar, não consigo deixar de lê-lo. “Leão: Excelente dia para lutar por seus ideais e pela estabilidade deles! Pessoas estarão mais sensíveis a suas idéias (...) Capriche na aparência e lembre-se: os holofotes estarão sobre você”. Conjecturei: Dona Bárbara Abramo vai errar de novo!

Por quê aquele peso nas costas? Aquela tristeza como um cão sem dono a me espreitar numa segunda-feira banal que se dizia dedicada poesia.



Já cedo ao me vestir peguei as roupas sem me preocupar com estética. Os sapatos?, cacei o par mais surrado da sapataria. Velhos, não muito limpos, mas era os que melhor calçava. Queria conforto para os pés, para a alma... Mesmo que já tivesse lido o horóscopo do dia, que preconizava: “capriche na aparência e lembre-se: os holofotes estarão sobre você”, não o obedeceria.
Uma semana antes havia recebido um gentil convite de uma escola particular para falar com a garotada sobre o Dia da Poesia. Não costumo recusar convites quando se trata de difundir cultura. A semana passou e aquele era o dia. Surpreendia-me aborrecido, sem pique nenhum para novidades.

Às 17 horas, lá estava eu diante de um bando de crianças de três a seis anos. Deus do céu! Para mim, falar de poesia para adultos já não seria fácil, imagine para petizes recém saídos das fraldas.

O evento que duraria apenas meia hora começava. Pequenos grupos se sucediam no palco recitando poesias infantis. Para minha surpresa e deleite, a última falava de mim. É claro que o nó que durante aquele dia em alguns momentos se fizera sentir mais uma vez subiu-me garganta acima. Por falha biológica ou de alma, pouco choro. Foram tão poucas vezes que chorei, da adolescência para cá; quase que dá para me lembrar de todas. Fico no máximo de olhos umedecidos ou com um desavisado nó que surge não sei de onde geralmente em momentos prosaicos onde a espontaneidade e/ou a originalidade dão o tom.

Aquelas crianças espontâneas e engraçadinhas me devolviam a alegria. Quando cheguei uma delas falou no ouvido da outra: - “Olha lá o poeta! – Aquele é que é o poeta?” Apesar do peso do título, foi bom ouvir aquilo.

Comecei dizendo que todo mundo nasce poeta; que estava diante de um bando de poetinhas e seria bom que seus pais e professores anotassem as frases poéticas que as crianças dizem no dia-a-dia. Daria um livro.

Uma garotinha linda e inteligente me interrompia de quando em quando demonstrando entender o que eu estava dizendo. Disse também que escrevia poesias. Outra me perguntou se eu tinha filha. Respondi que sim. – Como ela se chama?, retrucou. Ao lhe responder: Larissa, seus olhinhos brilharam e de meio a um sustinho completou: - Eu também!!!

Um garotinho veio até a mim e falou no meu ouvido: - Depois eu vou com meu pai comer sanduíche!

O auge da apresentação foi quando declamamos (eu lendo e a platéia de cor) três poeminhas infantis de Vinícius: “O Pato, O Peru e A Casa”; aquela que de “muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada”. A garotinha poeta interrompeu-me mais uma vez para explicar que a casa do poema era “imaginária”, uma vez que não tinha teto e não tinha nada.

É como tentei dizer a eles: - Todo mundo nasce poeta e a vida, com o tempo, vai nos despoetizando. O mundo é carente de humor e poesia. Sempre os carrego comigo. Haverá dias de se ficar triste? Perenemente triste? Fujo desse sentimento qual água nascente foge da fonte; fuga que liga o início ao fim/Fuga sem sair do lugar/Fujo por inteiro preso ao ponto de partida/Nascendo, morrendo, sem meio de me alcançar...

A minha performance chegara ao fim e ainda não tinha lido nadica de poesia minha. Era preciso. Fora anunciado como um poeta local que falaria de poesia no Dia da Poesia. O sinal soou enquanto eu ainda bradava um trecho de um poema meu. Perda de tempo. A poesia pura e verdadeira estava ali na minha frente. Vinha daquelas carinhas engraçadas e bonitinhas.

Um garotinho conhecido meu disse a um dos coleguinhas que ambos gostávamos de cinema e que ele é fã de John Wayne. Como recordação do evento, entregou-me um cartão autografado pela turma e uma caneta. Outro menininho pediu que me abaixasse e perguntou se podia dar-me um beijo. Outro ainda segredou-me que tem um CD com todos os meus poemas, confundindo-me - é claro - com Vinícius de Moraes. Tratei de ficar quieto. Bem cedo ele descobrirá quem é quem.

Já na rua uma mãe com sorriso franco e largo, destacou-se de outras de semblantes não tão amistosos. (Eu mal saia do turbilhão provocado pela crônica “Bicharedo”). Disse-me a bom tom que lê e gosta das minhas crônicas.

No carro, trechos de poesias que eu havia selecionado e por falta de tempo não lido, pululavam em minha cabeça: “Escutei um perfume de sol nas águas” (Manoel de Barros). “As mãos que dizem adeus são pássaros que vão morrendo lentamente”. “A coisa mais melancólica deste e do outro mundo é um cachorro sem pulgas” (Mário Quintana). Este último, então, caiu como bálsamo tranqüilo em minha alma.

 

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