Mulheres
no shopping
seu habitat natural
Algumas
verdades são universais e irrefutáveis. Macacos gostam
de
banana; crianças gostam de bolo de chocolate; e mulheres simples-
mente veneram cartões de crédito.
Será coincidência que o Dia Internacional da Mulher e o
Dia Internacional dos Direitos do Consumidor se situem no calendário
com apenas uma semana de distância? São exatos sete dias
– os mesmos que o Criador usou para estabelecer o mundo tal qual
o conhecemos – que separam as duas datas. Aparentemente tal proximidade
no calendário não foi proposital. Mas bem que poderia
ser. Afinal é praticamente impossível falar em consumo
sem lembrar do “sexo frágil”, e vice-versa.
Houve até mesmo um momento em que o presidente da República
se aproveitou dessa relação. Em fevereiro de 1986 José
Sarney convocou as donas de casa para garantir o “fim” da
inflação. Eram tempos de Plano Cruzado, e uma das cenas
mais hilárias de que me lembro é de Jô Soares imitando
uma dona de casa raivosa por causa do aumento do papel higiênico.
Vinte anos se passaram desde as “fiscais do Sarney”, como
eram chamadas aquelas bravas consumidoras (e põe brava nisso!).
Ao contrário daqueles dias, hoje o descontentamento com o preço
de um determinado produto não pode levar o vendedor ou o gerente
da loja direto para a prisão, mas nem por isso as mulheres se
tornaram mais condescendentes.
A
empresária Valentina Caran é um exemplo
da “pechincheira” profissional. Ela garante que não
compra absolutamente nada pelo preço anunciado. “Se a pechincha
não funcionar, eu vou embora e digo que vou comprar em outro
lugar. Mas geralmente quando eu viro as costas eles voltam atrás
e acabam me vendendo pelo preço que eu queria, ou algo próximo
a isso”, diz.
Ela é dona de uma das maiores redes de imobiliárias do
país em volume de vendas, e garante que a margem de lucro dos
lojistas, especialmente os que lidam com moda feminina, é muito
grande.
Apesar disso muitas vezes o vendedor não tem autonomia para mexer
no faturamento da loja e, para driblar essa dificuldade, Valentina quase
sempre entra na loja procurando pelo gerente. E não foram poucas
as vezes em que o gerente teve que ligar para o dono da loja, em pessoa,
para receber autorização e dar o desconto.
A pechincha deixa de ser uma nova linguagem, dominada profundamente
apenas pelas mulheres. Essa linguagem é capaz inclusive de romper
as barreiras do idioma. Isso aconteceu com Valentina quando esteve na
Síria e, mesmo sem conhecer uma palavra do árabe, voltou
para o Brasil com as malas cheias de presentes para os amigos. Lá
a pechincha era assinalada através de uma calculadora. O vendedor
digitava o preço do produto (em dólares) e ela revidava
com o que pretendia pagar. E o processo se estendia até entrarem
em um consenso.
Para ela as pessoas que trabalham pelo dinheiro costumam valorizar mais
suas conquistas. “No comércio você consegue diferenciar
facilmente a mulher que trabalha daquela que compra com o dinheiro do
marido. As que trabalham geralmente pedem desconto, enquanto que aquelas
que dependem do marido não valorizam tanto o dinheiro”,
opina ela.
Outra curiosidade detectada por Valentina do alto de sua experiência
como consumidora é a de que as pessoas de maior poder aquisitivo
têm vergonha de “chorar o preço” com aqueles
que compartilham do mesmo nível social. Por outro lado se sentem
bem mais à vontade em pechinchar com comerciantes mais “pobres”
que eles. “É uma besteira, mas a maior parte das pessoas
mais ricas gosta de aparentar despreocupação com os gastos
quando estão diante de pessoas do mesmo poder aquisitivo. É
uma competição meio tola. Quem entra nessa sempre sai
perdendo”, analisa.
Nem sempre a pechincha termina bem. Uma das histórias cômicas
contadas por Valentina é a de quando ela decidiu comprar uma
“capa vermelha linda” em uma loja da Rua Augusta, no Centro
de São Paulo. A capa custava R$ 150, e ela insistia em pagar
R$ 100. A negociação demorou. O vendedor insistia que
não poderia negociar a capa por menos de R$ 140, e ela se negava
a pagar mais que R$ 110. Finalmente, após quase uma hora de negociação,
chegaram ao consenso de R$ 130. Um meio termo.
“Eu estava voltando para o carro feliz por ter ‘economizado’
R$ 20 quando notei um papelzinho no pára-brisas do meu carro.
Era uma multa por estacionamento”, recorda às gargalhadas.
Nesse caso o desconto saiu muito mais caro para ela que para o vendedor.
“Mas eu aprendi – destaca – agora vou sempre comprar
com motorista. Aí ele sai para dar uma volta com o carro enquanto
eu fico na loja”.
Compulsão
Outra
característica geralmente atribuída às mulheres
é a da compra por impulso. “Quando saio para comprar um
sapato, geralmente compro no mínimo seis”, confessa Valentina.
O mesmo acontece com a também empresária Aychi
Shaker Ahmad do Couto, que, muitas vezes, evita as visitas
às lojas de sapatos e roupas para não acabar cedendo à
tentação de uma promoção. “Meu marido
tem paúra dessa palavra. Ele não pode nem ouvir falar
em promoção”, brinca a empresária, que é
casada com o médico ginecologista e vereador Túlio José
Thomaz do Couto.
O marido costuma ser, aliás, uma verdadeira pedra no sapato dessas
compradoras. O doutor Túlio já chegou até mesmo
a contar quantos pares de sapatos a esposa tem guardados. São
mais de cem. Em um clima descontraído, Aychi chega a confidenciar
algo que as mulheres fazem – segundo ela – com relativa
freqüência: comprar escondidas do marido.
“Tenho uma amiga que comprou uma porção de roupas
e o marido não podia nem sonhar que ela tinha comprado. Então
ela escondeu tudo no porta-malas do carro. Acontece que o carro acabou
sendo roubado, o seguro pagou pelo carro, mas as compras ela perdeu
mesmo”, recorda.
Acontece que quem compra por impulso acaba comprando o que não
precisa. Nem sempre aquilo que é bonito é também
“usável”. Por isso não são raros os
casos de roupas e sapatos que acabam se amontoando nos armários.
Aychi, por exemplo, exibe com orgulho as lindas botas jeans que ela
usou apenas uma vez. Durante uma festa em sua própria casa. “A
bota é maravilhosa, mas é muito alta. Tem que usar com
uma saia muito curta, aí eu não me sinto à vontade
em sair assim”, confessa.
As extravagâncias incluem ainda uma sandália Forum com
strass que a sua filha adolescente usou para ir à casa de uma
amiga (e tomou uma tremenda bronca) e três pares de tênis
do mesmo modelo e marca (mas justiça seja feita, eles são
de cores diferentes).
Por seu perfil psicológico, o grande segredo para vender roupas
e acessórios para mulheres é levá-las à
sensação de posse. O famoso “test-drive” costuma
dar mais certo com elas do que com eles, e as lojas mais elitizadas
da cidade já descobriram esse segredo.
Ao invés de convidar as clientes para vir até a loja conhecer
as novidades, elas preferem enviar algumas peças em domicílio.
No ambiente mais intimista e aconchegante a mulher se sente à
vontade para experimentar, e acaba fatalmente se apaixonando por alguma
coisa. Aí fica difícil não comprar, e a solução
é pensar em uma boa desculpa para quando o marido chegar.

Como
surgiram?
Dia Internacional da Mulher
(8 de março)
Nesse dia, no ano de 1857, as operárias têxteis de uma
fábrica de Nova York entraram em greve, ocupando a fábrica,
para reivindicarem a redução de um horário de mais
de 16 horas por dia para 10 horas. Estas operárias – que
recebiam menos de um terço do salário dos homens –
foram trancadas na fábrica. Um incêndio criminoso durante
o protesto resultou em uma das mais marcantes atrocidades da história:
130 delas morreram queimadas.
Dia
Internacional dos Direitos
do Consumidor
(15 de março)
A data marca o pronunciamento do presidente dos Estados Unidos, John
Kennedy, em 1962, quando se tornaram públicos os quatro direitos
fundamentais do consumidor, numa declaração ao Congresso
norte-americano.
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