Máquinas
tunadas
Patrick
Moraes
Castilho é apaixonado
pelo seu Fusca 84
Quem
nunca sonhou com um carrão como a Super Máquina (aquela
da série popular nos anos 80) ou com aquele De Loren do filme
De
Volta para o Futuro? Foi daí que nasceu a prática do
tuning, que nada mais é do que personalizar o carro para ele
ficar do seu ‘jeitão’, bem particular. A expressão
‘tuning’ vem do inglês tune que significa “afinar”,
como um instrumento musical. De fato a idéia do tuning é
a de proporcionar uma melhor “afinação”
entre o proprietário do veículo e o seu carro, deixando
o carro com a ‘cara do dono’.
O funcionário público Patrick Moraes Castilho,
35 anos, é um daqueles aficionados por tuning. “A paixão
me acompanha desde criança, e assim que tive um carro minha
intenção era tunar ele.
Acho que é coisa de brasileiro gostar tanto de carros”,
recorda o feliz proprietário de um Fusca 84 turbinado, com
rodas esportivas e painel personalizado.
Mas
ao contrário do que pode parecer, o Fusca de Patrick não
foi comprado com essa finalidade. “Quando comprei, pretendia
usar o carro para trabalhar, mas não resisti e coloquei uma
roda diferente. Não demorou muito para o carro estar todo personalizado.
Hoje, quando chove, eu me molho todo, mas não tiro o carro
da garagem”, conta. O passatempo preferido de Patrick é
freqüentar e expor seu Fusca nos encontros de carros antigos
modificados.
Apesar do aparente exagero no visual dos carros, a mais nova tendência
do tuning é mesmo o que eles chamam de “sobriedade”.
Na verdade trata-se do maior equilíbrio entre os investimentos
no desempenho do motor, na sonorização, e no acabamento
interno e externo do veículo.
“Antigamente muita gente colocava um som exagerado no carro,
digno de competição, mas não se preocupava com
acabamento ou motor. Outros gastavam um dinheirão em pára-choques
gigantescos, mas não investiam em acabamento interno. Hoje
fala-se muito em sobriedade, que seria um meio termo. O visual, o
som e o motor têm que estar integrados, em um mesmo nível
de personalização”, explica Patrick.
Wilton
Rener Leite, 39 anos, simplesmente venera o seu Mazda importado
com neóns por todos os lados. “Coloquei neón vermelho
nos pedais, azul no banco de trás e debaixo do piso. Pintei
todo o carro por baixo e coloquei tapetes de alumínio para
o efeito da luz ficar melhor, isso sem falar nas faixas pintadas na
lataria do carro”, relata.
Como
todo bom tuneiro, Wilton adora que fiquem olhando o seu carro. “Todo
mundo olha, não tem jeito. É parar o carro em algum
lugar que junta gente em volta para olhar”, admite.
Durante o dia o carrão já chama bastante a atenção,
mas é à noite que o Mazda fica parecendo uma nave espacial
com todas aquelas luzes azuis.
Samanta
Pereira,
Miss Indaiatuba-05,
ao lado do Kadett
tunado
O
Kadett ano 90 de Allan M. C. de Barros, 25, não
fica atrás. O carro – que figura a capa dessa edição
– é o primeiro em que Allan fez um tuning completo. “Antes
dele eu já preparei bastante carro para campeonato de som,
mas nunca tinha personalizado tanto assim um carro. Também
nunca tinha turbinado um carro”, recorda.
Allan começou a mexer no Kadett há três anos.
Gastou cerca de R$ 35 mil em um tuning completo, que incluiu pára-choques,
aerofólio, bancos, rodas, turbo, capô, painel, coluna
de instrumentos e som.
Isso sem falar em uma pintura especial para a qual ele pagou R$ 1.800.
“O pior foi quando eu tirei uns adesivos dele e a pintura descascou.
Aí eu desanimei, e tirei todo o equipamento de som. Isso já
faz quase um ano, e até agora não mandei pintar de novo.
Nesse ramo, pagar barato é ter que pagar duas vezes”,
analisa.
A expectativa de Allan – assim que ele se recompor da decepção
– é modificar ainda mais o Kadett. Ele pretende colocar
rodas maiores, e rebaixar ainda mais. Para isso vai ter que aumentar
o espaço dos pára-lamas, e instalar suspensão
a ar, que permite subir e descer o carro de acordo com as características
do terreno.
Tuning
um mercado em ascensão
O mercado do tuning brasileiro cresceu tanto que o segmento já
tem até um evento de grande porte, realizado na Bienal do Ibirapuera.
É o Salão de Tuning, organizado pela Fittipaldi Eventos
– do bi-campeão mundial de Fórmula 1 e campeão
das 100 milhas de Indianapolis, Emerson Fittipaldi – e pela
Megacycle. Este ano o evento reunirá mais de 100 empresas ligadas
ao setor e receberá visitantes de todo o País de 17
a 21 de maio.
No Brasil o maior crescimento do setor aconteceu com o lançamento
do filme Velozes e Furiosos, em 2001. “Na época a procura
cresceu muito. Todo mundo queria modificar o carro, colocar som, adaptar
pára-choques e tudo que tem direito”, recorda Rodrigo
Bara, o ‘Didi’, que há 14 anos trabalha com acabamento
e sonorização automotiva.
No início da década de 90 a família tinha uma
loja de sonorização em Indaiatuba, mas aos 12 anos Didi
perdeu o pai. Ele e a mãe não tiveram estrutura para
tocar a loja, e acabaram fechando. “Desde bem novo trabalhei
em outras lojas. Fui para Campinas, São Paulo e voltei para
Campinas. Abri a minha loja em sociedade, a Nihon, em Campinas. Desfiz
a sociedade, e agora estou em outra loja de Campinas, apesar de ainda
morar em Indaiatuba”, conta.
Ele conta que a maior parte das pessoas que levam o carro para “tunar”
faz o que o mercado chama de dub, isto é, colocam rodas esportivas
(que podem ir de 19 até 24 polegadas), sem alterar muito as
características originais, e colocam um som, que pode inclusive
ter DVD com uma tela LCD. Estas são as duas principais modificações
do tuning. Mas é claro que existem os mais agressivos que chegam,
inclusive, a abrir mão do porta-malas, e até do banco
traseiro, para dar lugar ao equipamento de som ou então a um
motor maior.
Acabamento
Antes as pessoas se contentavam com caixas de som mais ‘quadradas’.
Hoje o mercado está mais exigente. Todo mundo quer linhas arredondadas.
O acabamento é mais difícil, mas com certeza fica bem
mais profissional”, comenta Rodrigo Bara, ‘Didi’.
Segundo ele, as matérias primas mais usadas para essas caixas
de som são MDF, fibra de vidro e massa plástica.
Além
das caixas e dos alto-falantes, um bom equipamento de som depende
de um bom aparelho de CD, amplificadores, capacitores, baterias extras,
cabos de prata ou revestidos em ouro e até, em alguns casos,
processadores digitais de som. Quando o som é digital é
importante investir também em cabos de fibra ótica.
O som é testado em um medidor de RTA (Real Time Analyser),
que vai determinar o nível de fidelidade atingido. O resultado
ideal é quando cada faixa de freqüência é
ouvida com perfeição em seu respectivo auto-falante.
Isso mesmo. Não basta colocar um sob-woofer no porta-malas
para ter um som de qualidade. Para um resultado satisfatório
são necessários tweeters (agudos), falantes médios,
graves e sub-graves. “Eu evito usar falantes triaxiais (com
agudos médios e graves), que perdem muito em qualidade”,
reconhece o instalador.
Por
outro lado, para a maioria dos ‘tuneiros’ o que vale mesmo
é o SPL (Sound Pressure Level), que vai medir o volume do som
em decibéis. Nessa categoria – que se divide em som para
dentro ou para fora do veículo – o objetivo é
atingir o maior volume possível. Por isso não é
tão raro encontrar carros com 4 ou mais subwoofers no porta-malas.
Nos campeonatos de som automotivo há quem julgue até
mesmo a qualidade do acabamento no RTA, enquanto que no SPL os decibéis
podem chegar a 150, o equivalente a uma turbina de avião. Por
isso, para quem quer SPL, a primeira aquisição costuma
ser um aparelho de CD com controle remoto, para pilotar o som pelo
lado de fora do automóvel.
Além do som, o acabamento interno depende de como serão
revestidas as portas, o teto e o painel, que pode ser completamente
modificado. “Principalmente quem tem o motor mexido, com turbo
ou nitro, precisa dos mostradores de pressão no painel. Para
isso fazemos um painel totalmente personalizado. Cada peça
é única, uma vez que o trabalho é artesanal”,
explica.
Os
‘tuneiros’ também personalizam capôs, aerofolios,
espolios laterais e pára-choques. “Tem gente que faz
entrada de ar no capô, ou modifica para ele cobrir um pouco
os faróis, o que a gente chama de ‘bad boy’. Outros,
mais básicos, trocam só os pára-choques”,
conta ele. Já existem no mercado kits completos para modificação
externa, o que não dispensa a contratação de
um bom instalador.
“Por se tratar de um luxo, o tuning é caro. O pessoal
briga muito por preço, mas no nosso ramo a mão de obra
qualificada é tudo. Um painel mal instalado pode se soltar
e por em risco a integridade de quem está dentro do carro.
Não dá para arriscar”, avisa. Segundo ele, um
carro bem equipado deve custar em torno de R$ 40 mil em acabamento
externo e interno, isso sem falar na mecânica.