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Crônica do Penna


E L A


texto Antonio da Cunha Penna
penna@silvaepenna.com.br 3875-3567


Fui sua boca durante alguns meses. Através de mim se alimentou.

Já fui enxuta, uma tábua. Também ele era magrinho.
Chora-se de fome. Eu não. Ronco. Já ronquei algumas vezes. Há tempos nem sei mais o que é isso.

Quando jovem ele podia menos, comia e bebia menos; andava mais, a pé e de bicicleta. No trabalho, subia escadas, carregava peso. Isso me mantinha rija.

O tempo passou, a idade foi chegando e ele relaxou; quer dizer: não é que relaxou. A rigor, cuidar de mim nunca foi seu forte, sempre viveu como se eu não existisse.

Quando as circunstâncias o fizeram parar de andar a pé, de bicicleta, subir escadas, e para ajudar, aprendeu a gostar de cerveja, desisti.


Fui crescendo; a princípio, um pouquinho só. Às vezes ele olhava com desconfiança pelo espelho do banheiro enquanto me enxugava. Com o tempo nem ligou mais, como sempre fez e faz. Pensei cá com meu umbigo... quer saber?, fique na sua que eu tô no minha. Só assustei no dia em que me levou para um hospital. Caramba! Coisa chata; me abriram uma valeta do lado do umbigo só para extrair a vesícula. Já em casa, me enfeixaram como nos idos de 1945/46, quando ele ainda era um bebê.

Dias depois, tava amanhecendo, ele virou-se de mau jeito e ao mesmo tempo deu um espirro. Cara! Melou tudo! O tal de corte abriu-se e foi sangue pra todo lado. Me tiraram a faixa, me lavaram com chuveirinho. Lá fui eu de talho aberto botando as tripas pra fora, de volta ao hospital. Foi um “Deus nos acuda”; me costuraram de novo. Duas costuradas em menos de um mês... ficou parecido como quando fecham autópsia. É isso... Sou a única no mundo que foi autopsiada e continua viva.

Depois dessa, é claro que o cara não pode mais ser modelo, desfilar despreocupado sem camisa; me exibir na praia ou na piscina, sem constrangimento. Mas também, já passava dos quarenta quando isso aconteceu.

Quer saber? Piorou. Quando o cara bebe, abre a camisa e mostra essa minha cicatriz horrorosa só pra ver a cara das pessoas. É um exibicionista!, um tonto mesmo! Quer chamar a atenção nem que seja para o que ele tem de mais grotesco.

Gozado é que no começo essa cicatriz era mais saliente. Com o tempo a pele esticando, foi afundando. Ficou côncava. Parece uma valeta; o que é pior...uma vagina.

Antes, meu centro era o umbigo; como em toda barriga do mundo; e ainda é. Mas essa praga de cicatriz enorme, vertical, bem ao lado do umbigo, confunde; produz uma ilusão de ótica. Dado o seu tamanho, parece que o umbigo é quem está de lado, e ela é que é o centro.
Quando ele olha pra baixo para afivelar o cinto, baseia-se na cicatriz. Conclusão: a fivela fica assim, meio de lado.

Com essa e mais aquela, só sei que cresci, apareci e hoje estou na minha. Se ele vira uma esquina, sou eu quem aparece primeiro.
Gosto dele, nos damos bem. Ele na sua e eu na minha.
Quando lê, apoia o livro em mim. Sirvo de suporte pra copo, saquinho de pipoca, apoio para os braços.

Não anda no Parque, não sabe nadar, não malha e nem faz abdominais.

Nem liga se já estou quase saltando por cima do cinto.
Estou tão assumida, tão na minha, tão proeminente, tão protuberante... Acho que enfim me emancipei. Hoje não sou eu quem está nele, posso dizer que é ele que está em mim.
Estou em fase de crescimento. Ele não. Daqui pra frente só vai encolher.

Quando chegar o dia de ficar na posição mais plácida do mundo; deitado eternamente em berço (nada) esplêndido, coberto de cravos-de-defunto; só vai dar eu. Sobre mim suas mãos cruzadas.
Por favor. Cuidem para que nenhum botão da camisa fique desabotoado. Não quero que ele exiba, nem que seja pela última vez, a coisa horrorosa que é essa cicatriz.

 

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