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Ele dava os últimos retoques em sua coluna semanal. “Espera só um pouquinho. Senta aí que a gente já conversa”, orientou. Em seguida balbuciou “Control bê, para salvar, atl éfe quatro para fechar.

Agora sim, vamos lá”. Assim começou a entrevista
com José Luis da Silva Miranda, 58.



E apesar da intimidade demonstrada com as teclas de atalho do computador, se reconhece como alguém “desconfiado” quando o assunto é tecnologia. Ele é um dos três proprietários do jornal Tribuna de Indaiá, que segunda-feira, 17 de abril, completa 51 anos. Nada mais justo que inaugurar esta nova seção da
Revista da Tribuna
com uma das figuras mais
conhecidas do jornalismo em Indaiatuba.

Aguarde, na edição de 3 de junho, o próximo personagem que iremos deitar NO DIVÃ.

Em todos esses anos de jornalismo, qual a notícia que mais te impactou, aquela que chegou a emocionar mesmo?
Duas coisas mexeram comigo. A primeira foi quando, aos 14 anos, eu tive que escrever e montar no “componedor”, letra por letra, a notícia da morte do meu pai. Isso me marcou muito. A segunda foi quando o jornal completou 50 anos. Na festa de aniversário eu pude ver um “filminho” passando na minha mente. Toda a história e as lutas que enfrentamos ao longo de meio século. É “tempo pra burro”, e aconteceu muita coisa. As mudanças foram muitas, e tudo muito rápido.

E como é a sua adaptação para essas mudanças? Percebi que você estava usando as teclas de atalho do computador, e já ouvi falar de gente do Japão que lê sua coluna toda semana pela Internet.
Na verdade eu confesso que tenho um pouco de dificuldade nisso. Uso o computador para tudo, acredito na eficiência da Internet, mas vejo sempre com um pouco de desconfiança. Às vezes quando recebo um e-mail de alguém que lê a coluna no Japão ou em algum país da Europa dá vontade de pegar o telefone e ligar para ter certeza. É difícil de se adaptar. Tudo evoluiu de maneira muito radical, e eu estou procurando me enquadrar. Não fecho os olhos para isso.

E você chegou a fazer algum curso de informática?
Na verdade fui descobrindo sozinho, e muita coisa aprendi perguntando para o pessoal. A exigência é que te incentiva a aprender. Ou você se atualiza, ou então está morto.

E essas mudanças te assustam de alguma maneira?
Não exatamente. O que me assusta mesmo é a mudança de valores que veio na mesma época da mudança tecnológica. Não que uma coisa dependa da outra, mas aconteceu ao mesmo tempo. Me preocupo muito com essa geração, que está sendo bombardeada por valores bem diferentes daqueles que eu aprendi quando era criança. E isso está em todo lugar. Nos grandes meios de comunicação, na política, e na sociedade em geral. Não sei onde vamos parar.

A quais ‘valores’ você se refere?
Ah, é bastante coisa, meu caro. Eu vejo meninas de cinco anos de idade vestindo roupas insinuantes, iguais às de uma jovem de 18. Isso é uma agressão à infância. Também tem os professores que estão sendo humilhados pelos alunos. Quando criança, eu tinha medo da professora. Hoje são as professoras que têm medo dos alunos. Na saúde nem me fale. O governo do Rio de Janeiro gastou R$ 1 milhão para trazer os Rolling Stones de graça, enquanto os hospitais estão um caos, com um monte de gente morrendo. Aí você vê os presos que vivem às custas de nossos impostos se rebelarem, quebrar tudo na cadeia, e depois não serem responsabilizados. Cada um faz o que quer, e não responde por isso. Não sei onde vamos chegar.

Diante desse turbilhão, como é poder trabalhar em família?

É bom, mas também é complicado. Os ‘cabeças’ da família ainda se entendem muito bem, mas a geração mais nova está muito mudada. Isso é em função desses valores dos quais falei. Eles foram inculcados na cabeça deles pela sociedade. O importante é deixar o nosso legado.

E a família de vocês é conhecida pelo jornal, não é? A identidade é muito próxima, não é?
É sim, e isso me deixa muito feliz. Somos respeitados por isso, e a Tribuna é uma marca com muita credibilidade. Ouço com muita freqüência as pessoas dizerem que é o único jornal comprometido mesmo com a verdade, e isso se deve à nossa linha editorial, que não se dobra a interesses. Claro que temos amigos, mas isso não pode influir no resultado do jornal, que é comprometido com os leitores.

Até que ponto isso influencia na sua vida pessoal?
Totalmente. A minha identidade é “Zé Miranda da Tribuna”. Às vezes até sai alguma notícia que incomoda alguém e o incomodado vem reclamar comigo, como se fosse eu o responsável por ter escrito aquilo. As pessoas não têm a noção de que temos uma equipe de redação, com diversos redatores. Acham que sou sempre eu quem escreve as reportagens.

Como é ser chefe sendo bem humorado? Às vezes precisa pegar pesado?
Sinceramente até hoje não precisei ‘pegar pesado’. A gente impõe um respeito e o pessoal não passa do limite. Todo mundo aqui sabe que eu sou brincalhão, mas também sabe que trabalho é coisa séria. Às vezes até me cobram de ser mais sério, usar roupas mais caras. Mas eu sou assim mesmo, alegre 24 horas por dia, e não tem como mudar isso.

Para finalizar, você alcançou uma vitória recentemente. Como foi?
Pois é. Comecei a fumar aos 14 anos. Foram 44 anos de vício, e só agora me conscientizei do mal que fez à minha saúde. Então parei, já faz uns sete meses. As pessoas até estranham de não me ver mais com cigarro no bolso. Aí me perguntam o que aconteceu. Eu encho o peito e respondo: “Eu parei de fumar”. Para quem consumia 3 maços por dia, é uma vitória e tanto.

Mas como você fez para largar?
A primeira coisa é decidir. Aí eu fiquei sabendo de uns adesivos de nicotina que ajudam a adaptar o corpo à falta do cigarro. Conversei com meu médico (Dr. Chiaparine) que me aconselhou a usar esse medicamento. Eu usei por 15 dias, e aí não fumei mais. As pessoas não fazem idéia de como é boa a sensação. Eu ainda gosto do cigarro, mas optei por parar. Pesco nos dias de folga, ando no Parque Ecológico e bato uma bolinha uma vez por semana. Me sinto um vitorioso.

Agradecimento – Via Rattan – Fone 3834-3434

 

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