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Por Tatiane Quadra
O
telespectador iga o aparelho na noite de domingo. O programa que
está passando mostra famosos competindo entre si, com o
auxílio de dançarinos profissionais. Os olhos brilham
com a apresentação das coreografias elaboradas de
bolero, tango, forró, samba de gafieira, entre outros.
O show desperta em muitos a vontade de dançar. Porém,
há quem não vá atrás do sonho por
acreditar que não foi moldado para esta arte. As desculpas
são diversas e os preconceitos também. Mas os verdadeiros
artistas da dança, garantem que não há limitação.
O primeiro passo é ter disposição para aprender.
Para o professor de dança de salão, Rodrigo de Oliveira,
dançar é reaprender a andar. Isso porque a prática
requer equilíbrio e coordenação de movimentos.
E realmente é difícil, assim como é para
uma criança aprender a andar sozinha ou de bicicleta. Mas,
apesar dos tombos, quando se aprende não se esquece mais.
“Não conseguir executar o movimento não significa
que a pessoa não é capaz”, argumenta. “O
bom professor recorre a diversas técnicas para ensinar
o aluno, ou a superar dificuldades.”
Outro ponto importante é que saber o que cada um espera
da dança. Diversão? Malhação? Perder
a timidez? Bem, pode ser tudo isso, com um bônus a mais:
fazer amigos e se descontrair. “Cerca de 80% dos alunos
buscam a dança pelo prazer. Outros 20% querem 'aparecer'
no salão de baile”, comenta. Outro item importante
é respeitar o ritmo de aprendizado de cada um. Cada um
tem seu tempo.
Há aqueles que se desanimam ao esbarrar na primeira aula
difícil, ou ao perceber que não vai sair ropodiando
no salão em apenas uma semana, causando “ohs”
de admiração. Alguns outros desistem por achar que
nunca dançarão como os famosos da telinha. “No
programa os participantes executam uma sequência de passos,
que decoraram com aulas intensas”, alega o professor. “E
isso não é necessáriamente dança,
mas sim a apresentação de uma coreografia de palco.
Se trocar qualquer coisa eles se perdem e o espetáculo
se quebra.”
De acordo com Oliveira, o segredo é se apaixonar pela dança.
“Dance para si e para seu parceiro”, enfatiza. Isso
porque, o diferencial da dança de salão das outras
modalidades é que para executá-la você precisa
de um parceiro. E cada um detém metade da dança.
Dançarino
de peso
Que
não há idade para dançar nós já
comprovamos. Mas será que é preciso ter cinturinha
fina e pernas torneadas para ser um bom bailarino? O biólogo
Rafael Antônio Santos, 23 anos, garante que não.
E é verdade. Dançar com “Tonhão”,
apelido pelo qual ele é conhecido, é uma delícia.
Na pista ele é mais leve que muitos magrinhos “duros”.
E conduz tão bem a parceira que qualquer mulher que nunca
fez uma aula acredita que sabe dançar.
Mas
ele conta que não foi sempre assim. Começou a praticar
depois que feriu o joelho em uma aula de luta. Um amigo o convidou
para assistir uma aula e ele topou, já que esta não
é uma atividade de muito impacto. “A primeira aula
foi horrível”, confessa. Ele ficou com vergonha porque
nunca tinha dançado e não tinha ritmo. “Eu
era um prego. Não conseguia fazer dois para lá e
dois para cá”, lembra. “Parecia que eu tinha
uma perna só. Mas persisti e a cada dia dava um passo a
mais.”
O maior empurrão foi quando assistiu um ensaio de uma companhia
de dança, cerca de dois meses depois. “Achei muito
bonito e decidi que era ali que queria chegar”, conta. “Então
passei a fazer mais aulas, nos níveis de iniciante e avançado
para pegar base e postura.” Na época o biólogo,
que mede 1m72, pesava 110 quilos. Atualmente, pouco mais de um
ano depois, pesa 95 quilos e já faz parte da companhia.
“Fui emagrecendo sem perceber, porque é uma atividade
leve”, explica. “Você sua porque está
fazendo movimentos, mas não sofre, porque é algo
muito animado.”
O excesso de peso nunca foi empecilho para a execução
dos passos. E assegura que não é o físico
do dançarino que deixa a coreografia bonita. “Cada
pessoa faz sua dança. Não há altura ou peso
que tire a beleza disso”, analisa. “Aliás,
são nas variações, seguindo a melodia, que
a dança de salão fica bonita.”
Atualmente, Tonhão tem a dança como meta profissional.
Ele já fez trabalhos de free dancer em bailes e apresentações,
mas pretende ainda dar aulas. “Por isso não se pode
parar na primeira barreira. Agora quero evoluir o quanto eu puder”,
revela. “A vergonha que tive passou quando vi que todos
na aula estavam na mesma situação que eu, pois se
soubessem não precisavam estar lá. Agora, se deixar,
danço até no meio da rua.” Para Tonhão,
a grande lição é de que ninguém pode
dizer que não pode dançar se nunca tentou.
Música
na pele
A dança é executada em cima de uma música.
Os passos são combinados com o ritmo para se obter uma
bela coreografia. Por isso, sem o som não é possível
dançar, correto? Não!
A
professora de Língua Brasileira de Sinais (Libras) Regiane
Pinheiro Agrella, 36 anos, mãe de dois filhos, é
uma prova de que a dança independe da pessoa ter uma deficiência;
o essencial é a determinação. Surda de nascença,
Regiane surpreende a todos com sua habilidade no salão.
Certa vez, num clube da cidade, foi “tirada” para
dançar por um rapaz, que não sabia da deficiência
auditiva. Após o termino da música ele ficou admirado
com a notícia e o fato dela ter acertado todos os passos.
Ela começou dançando jazz, aos 10 anos, na escola
para surdos e há um ano decidiu aprender dança de
salão. Não ouvir a música não foi
problema para Regiane. Isso porque, ela sente a vibração
da música na pele e o parceiro dá as instruções
do ritmo correto pela condução nas costas. “Apesar
de eu não ouvir nada, meu corpo sente, inclusive as diferenças
de ritmo”, comenta. “O forró por exemplo é
mais forte. Mas o meu som preferido é a valsa, que é
mais calma e dá uma sensação de prazer.”
Regiane não teve dificuldade nenhuma para aprender a dançar.
Até porque ela não é nada tímida.
Presta atenção nas aulas, olha tudo, e se não
entende pede para explicar novamente. Acha que dançar não
é apenas uma arte, mas também uma terapia emocional.
“Gosto de conhecer pessoas e da vibração que
sinto quando estou dançando”, explica.
Por experiência própria ela afirma que todos são
capazes de dançar, mesmo portando alguma deficiência
física ou sensorial. “Tente e quebre as barreiras
do medo”, diz. “Experimente a dança de salão.”
Ensino
O professor de dança de salão Victor Tegério,
é o responsável pelas aulas de Regiane. Ele conta
que inicialmente teve receio de aceitar a aluna, pois não
sabia se seria capaz de ensinar a ela, já que a base da
dança é a música. “Foi mais fácil
do que eu pensava. Ela apenas pediu para que eu aumentasse o som
para ela senti-lo”, esclarece. “Aí conto o
ritmo para ela iniciar a dança com leves batidas nas costas
e ela vai.” A educadora não faz aula particular.
Ela está em uma turma com cerca de 30 pessoas, e todos
se surpreenderam com sua capacidade. Tegério explica que
sabe pouco da linguagem de sinais, mas que consegue se comunicar
com ela através de gestos e porque Regiane faz leitura
labial. “Pelo prazer que sente dançando ela chega
a ter uma disposição maior do que os outros para
aprender”, afirma. “E dança muito bem.”
Unidos
pela dança
A dança de salão nos remete ao romantismo. Afinal,
não há nada mais sedutor do que um bom bailado.
O parceiro se arruma, coloca uma roupa bonita e se perfuma. Mesmo
os que não são lá muito bonitos ficam belos
quando os corpos juntinhos executam os passos em sintonia.
Pode-se
dizer que a dança, em muitos casos, funciona como um cupido.
A arte já formou diversos pares de namorados. Além
disso, aproximou e uniu ainda mais casais que estão juntos
há muitos anos. É o caso da artesã Vânia,
43 anos e do administrador de empresas Cláudio D'Assunção
Fortuna, 44 anos. Casados há 24 anos, têm duas filhas,
uma de 20 e outra de 23 anos. Há pouco mais de um ano perceberam
que as “meninas” saíam e os dois ficavam em
casa sozinhos. “A idéia foi dele”, conta Vânia.
“Decidimos aprender a dançar para sair também
ao invés de ficar apenas vendo televisão.”
E deu certo. O casal não apenas vai aos bailes, como não
perde as aulas e treina em casa. A artesã leva ainda um
bloquinho de papel na aula e anota os passos novos, desenhando
os movimentos. “Assim, quando vamos treinar, se ele esquece
o passo eu faço minha parte e ele acaba lembrando a dele”,
explica. Quando os dois estão dançando Vânia
é a mais compenetrada. Já Cláudio erra, brinca
e segue em frente. Mas quando os dois acertam comemoram juntos,
com direito a beijinhos. “Com a dança resgatamos
sensações do namoro”, afirma a esposa. “A
gente se abraça, se beija. Ficamos mais unidos, cúmplices.”
Quando começaram a aprender, Vânia tinha um pouco
de vergonha, mas a timidez foi embora nos primeiros passos. Vânia
admite que fazer a aula em casal facilita. “No fim do ano
fomos a uma confraternização da empresa dele”,
lembra a artesã. “E acabamos descobrindo que já
dançávamos bem, porque todos pararam para olhar.
Isso fortaleceu minha auto-confiança.”
Para Cláudio, o ponto alto é a diversão.
Muito animado, é ele quem muitas vezes convida a esposa
para dançar em casa mesmo e praticar o que está
aprendendo. “É até um exercício físico”,
enfatiza. “E eu não estou dançando para ser
artista e dar show, mas sim para me descontrair junto com ela.”
Segundo o casal, a dança já resolveu até
mesmo alguns desentendimentos. Eles lembram que já foram
a aula brigados e acabaram esquecendo o que tinha acontecido.
“Nós demos risadas e acabamos saindo de lá
de bem”, conta Vânia. “Também há
dias em que ele chega em casa mau humorado por causa do trabalho
e então vamos ensaiar e o aborrecimento passa. Porque esse
é um momento nosso”, conclui.
Disposição
para aprender
Aos
76 anos, a aposentada Adelaide de Freitas Carneiro é um
modelo de disposição. Ela terminou o curso de espanhol
e agora estuda informática na Faculdade da Terceira Idade
(Fatid). Além disso, é presidente de um grupo e
foi eleita princesa da terceira idade em 2002. Mas ela não
pára por ai. Um de seus maiores prazeres é praticar
a dança de salão, o que já faz há
quatro anos.
Ela começou num grupo de terceira idade, mas como os outros
foram desistindo, ela buscou uma academia para continuar a dançar.
Ela diz que esta é sua terapia, já que ela trabalha
com o corpo e o cérebro. “Com a dança estou
sempre me movimentando. Outro dia fui no médico e ele me
deu os parabéns e ressaltou que estava tudo em ordem comigo”,
lembra. “Além disso é um exercício
de memorização, e tenho que estar sempre atenta
para não errar o passo.”
Adelaide, que enfatiza que é solteira, afirma que dança
de tudo, inclusive forró, samba e salsa. Mas ela não
freqüenta salão de baile. Diz que gosta de praticar
na academia de dança mesmo, com as aulas. Isso porque,
é lá que faz as amizades. “É uma grande
distração. Em vez de ficar em casa, saio para dançar”,
completa. A senhora, que é bastante comunicativa diz que
não teve vergonha de começar. “Lá na
aula estão todos juntos para aprender, independente da
idade”, alega.
Determinada, ela diz que quer sempre evoluir, seja na dança
de salão ou na atividade que vier a desenvolver. Desta
forma, Dona Adelaide, dá uma grande lição
de que a jovialidade é algo que não se perde nunca.