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Por FÁBIO ALEXANDRE

Paulo Antônio Lui
com as fotos dos
projetores dos
cines Rex, Alvorada
e Topázio:
muitas histórias
Drama.
Romance. Suspense. Comédia. Quando as luzes se apagam,
qualquer coisa pode acontecer dentro de uma sala de cinema, apesar
da vigilância dos “lanterninhas”. Desde casais
mais abusados, a garotas suspirando por seus ídolos e gente
que conversa sem parar. Em Indaiatuba os casos se confundem com
a história da família Lui, mantenedora das salas
de cinemas locais desde o antigo Cine Rex, do saudoso Cine Alvorada
e do recente Multiplex Topázio.
A reação do público é muitas vezes
imprevisível. “Na época do Cine Rex, recebíamos
longas da Condor Filmes, distribuidora que já nem existe
mais”, conta Paulo Antonio Lui, sócio-proprietário
da Lui Cinematográfica. “Antes dos filmes, tínhamos
a cena de um corvo sentado em uma pedra, que quando voava, deixava
em seu rastro o logotipo da Condor”, lembra. “O público
pegou a mania de 'tocar' o corvo quando ele aparecia.” Certo
dia, para brincar, Paulo e seu funcionário, Armando Pachelli,
armaram uma “cilada”. Resolveram cortar justamente
esse pedaço e naquele dia, o corvo não voou. “Foi
só gargalhada e o corvo acabou entrando para a história
do Cine Rex.”
Diferente de hoje, os filmes chegavam com atraso a Indaiatuba.
“Em 1975, o Brasil tinha três mil salas de cinema,
mas os lançamentos ganhavam apenas 20 cópias”,
lembra Paulo Lui. “Então os filmes chegavam com cerca
de cinco ou seis meses de atraso e em péssimas condições”,
completa. “Costumo brincar que quando Tubarão estreou
em Indaiatuba, ele já nem tinha mais dentes.” E a
censura se fazia presente na ditadura militar. “Muitos filmes
eram cortados em cenas que faziam toda a diferença, tornando-os
incompreensíveis”.
Um caso interessante aconteceu em 1984, na primeira exibição
de Memórias do Cárcer. “Os cinco rolos do
filme vieram misturados, mas nem notamos, e acabamos passando
o primeiro e o segundo rolo, pulando o terceiro”, lembra.
“Ficamos sem saber o que fazer. Como voltar? Quando a exibição
acabou, ainda teve gente que saiu elogiando o filme. Ninguém
falou nada.”
Bizarro
Alguns
casos marcantes permanecem na memória de Paulo Antonio
e seu filho Paulo Celso Lui, também sócio da Lui
Cinematográfica. “Certa vez, uma pessoa entrou no
cinema e saiu rapidamente, pois tinha medo do escuro”, lembra.
Esquecimentos são comuns. “Freqüentemente encontramos
carteiras, chaves e celulares após a exibição.
Daria para montarmos uma loja de celulares”, brinca. Paulinho
nunca esquecerá o dia em que revirou o lixo do Topázio.
“Um rapaz humilde chegou ao cinema com um presente que ganhara,
comprou sua pipoca e entrou na sala”, relembra. “Empolgado
com o filme, acabou se descuidando, colocando o presente dentro
da caixinha vazia de pipoca, amarrando a sacola e jogando tudo
no lixo”, observa. “Horas depois chega o rapaz desesperado.
Tivemos que revirar todo o lixo da sala para encontrar o presente.”
TV
As crianças são protagonistas de momentos marcantes.
“Todos os anos fazemos sessões especiais para escolas
públicas. Observar as crianças durante a exibição
é emocionante, pois suas reações mantêm
acesa a magia do cinema”, comenta Paulinho. “No ano
passado, recebemos os alunos de uma escola da zona rural”,
conta. “Foi interessante notar como aquelas crianças
escolheram sua melhor roupa para vir ao cinema”, analisa.
“Para eles, conhecer o cinema era um evento. Algo que se
tornou banal para a maioria.” A “dependência”
televisiva também cria reações interessantes.
“As crianças se acostumaram a assistir tanta televisão
em casa, que muitas entram no cinema e perguntam: 'onde ficam
os botões?' ou então 'isto aqui não tem janela?'”,
conta Paulinho.
No escurinho, muitos começam a conversar, outros caem no
sono e o ronco acaba ficando hilário. “Existem pessoas
realmente inconvenientes, mas são minoria.” Os casais
mais abusados também marcam presença. Mal as luzes
apagam e o namoro começa a esquentar. “Orientamos
nossos funcionários a observar com atenção
os casais que sentam na última fileira em sessões
menos prestigiadas”, relata Paulo Lui. “Sempre tem
uns mais assanhadinhos”, brinca.
Elogio
Mesmo com todos os imprevistos, Paulinho elogia o público
indaiatubano. “Recebemos muitas pessoas de outras cidades
nos finais de semana”, lembra. “Todos elogiam a limpeza
e organização das salas. Mas isso não seria
possível sem a ajuda do público”, completa.
“Desde a inauguração dos Cinemas Multiplex
Topázio notamos que o público local cuida das salas
e procuramos retribuir este carinho”. De fato, o indaiatubano
mostra que, em sua maioria, aprecia o escurinho do cinema.