Girando
nos
Campos de Indaiás
texto Antonio da Cunha Penna
penna@silvaepenna.com.br 3875-3567
Nossa
cidade nasceu em torno de
uma capelinha onde hoje fica a
igreja matriz Nossa Senhora da Candelária. Lentamente ela foi
crescendo meio de um lado só, até encontrar uma clareira
em meio aos campos de indaiás; uma espécie de rapadão
onde crianças brincavam. A cidadezinha por muitos anos acabava
ali na clareira, seguida de pés de indaiás a perder
de vista.
O tempo se arrastava e o lugarejo seguia com seu marasmo. Pessoas
nasciam, morriam. A apatia era de quando em quando quebrada por um
ou outro forasteiro que ficava.
Indaiatuba era uma cidade sem centro, as coisas quase não aconteciam
e a vida não girava, até que o número de bêbados,
loucos e arruaceiros justificou a construção de uma
cadeia. Naquele rapadão onde crianças brincavam foi
erguido um casarão imponente, cheio de janelas onde funcionaria
a Cadeia, a Câmara e a Prefeitura. Antigamente, não sei
se por coerência ou praticidade, tinham a mania de colocar esses
três estabelecimentos num só. Podia fazer e ainda faz
sentido.
Passados pouco mais de dez anos após a construção
do prédio, aconteceu o Crime do Poço (1907). Três
rapazes mataram a pauladas um jovem forasteiro e o jogaram num poço
desativado. O caso se alastrou por todo o Estado. A cidadezinha dos
campos dos indaiás levaria anos para lavar de vez essa nódoa.
As crianças do lugar alheias a tudo continuavam a brincar;
já eram tantas, tantas, que nas brincadeiras de roda passaram
a girar em torno do novo prédio cantando velhas cantigas.
Aos sábados, domingos e feriados a população
se reunia ao entardecer para ver e ouvir aquela ciranda. Conforme
as crianças cresciam, naturalmente iam sendo substituídas
por outras que continuavam a prática de girar em torno do prédio.
A ciranda foi se transformando em caudalosa procissão.
O largo da Cadeia virou Praça Prudente de Moraes e o estranho
hábito de girar em torno do prédio foi sendo passado
de geração à geração. Não
se tratava mais de coisa de criança. Moças e rapazes
aderiram ao cortejo e logo seriam maioria. A cidadezinha, qual moinho
a girar, seguia triturando amores, paixões, sonhos, hipocrisias,
esperanças, ilusões... Os viandantes que passavam, se
encarregavam de proclamar aos quatro ventos a graça da cidade
nascida entre campos de indaiás.
Os forasteiros foram chegando. Misturados à população
que girava, flertavam com as moças do lugar. Foram ficando,
casando e constituindo famílias. Em torno da praça surgiram
lojas, posto de gasolina, cinema, correio, clube e bares. No coreto,
a banda cantava suas canções, revezando com o serviço
de alto-falantes:
“No Bar Centenário você encontra bebidas nacionais
e estrangeiras e sorvetes dos mais variados sabores”.
“Indaiatuba não tem milhões de ruas mas tem a
Rua dos Milhões. Casa Lotérica é a de João
Schetini onde a sorte faz morada”.
“Se você procura tecidos, móveis e armarinhos,
vá até a Casa Ferreira. Lá você encontra
também grande estoque de brinquedos”.
“Ouviremos agora na voz bonita de Osny Silva o sucesso Manolita,
que Moreninha da Vila Feres oferece a um rapaz de sapato branco como
prova de muito amor”.
No
início dos anos de 1960, ventos modernizantes vindos da recém
inaugurada Brasília, derrubaram o velho casarão. A cidade
terminaria aquela década girando em torno de uma fonte luminosa.
Cada casamento que acontecia, era um casal a menos no carrossel da
praça. Os pedidos de oferecimentos musicais foram rareando,
rareando até que certa noite um último chiado de um
disco 78 rotações ecoou pela cidade. O apelo da televisão
fora tão forte que até o cinema havia cerrado suas portas.
Testemunhos desse tempo restam ainda as árvores, alguns prédios,
o sr. Vico Pipoqueiro e as pedras das calçadas, tantas e tantas
vezes pisadas por mim.
Será que ainda há quem passe pela Prudente de Moraes
e, como eu, vislumbre o espectro do velho casarão a flutuar
por sobre o lago da fonte? Os tempos são outros. A cidade cresceu,
perdeu novamente seu eixo e se espalha desordenadamente por aí.
Hoje, a imprensa local anuncia um “Crime do Poço”
por semana. Os gritos dos nossos Domenicos de Lucca são abafados
pelos que ecoam de outras paragens. Já não nos lembramos
mais que sob nossos pés dormem campos de indaiás.
E pensar que um dia houve uma cidadezinha onde as crianças
tinham um estranho hábito de girar em torno de um Casarão!