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Dia das Mães

Madrasta

Diferente da figura perversa dos contos
de fadas, as madrastas de verdade criam
relações tão fortes com seus enteados que
sobra amor, carinho e gratidão

Coitada da Cinderela: tinha realmente uma MÁdrasta. A Branca de Neve também. Anos e anos, gerações e gerações ouvindo histórias como essas criaram no imaginário a figura perversa, malvada, aquela que casa com o pai, geralmente viúvo de uma pessoa insubstituível – a mãe. Madrasta virou um arquétipo tão forte que até os dicionários registram a palavra como substantivo e adjetivo, este com significado de “pessoa pouco carinhosa, ingrata, má”. Mas será que é assim? Entrevistamos madrastas e enteados e encontramos opiniões diversas, histórias emocionantes, que estão nesta reportagem.

É importante observar que os tempos modernos criaram situações que mudam um pouco esse estereótipo. Antigamente, a madrasta substituía a mãe que morreu. Hoje, não apenas isso, ela entra na nova família com as separações e divórcios. Ou seja, a mãe verdadeira existe. E isso pode representar um desafio maior. Sim, porque os filhos sempre irão comparar as duas. E muitas vezes a mãe natural tenta minar o convívio com a nova família. A arquiteta e professora de pós-graduação do Curso de Terapia Familiar da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina) Roberta Palermo é autora do livro Madrasta – Quando o homem de sua vida já tem filhos (Ed. Mercuryo). Ela foi criada por madrasta e, ao se casar, tornou-se também madrasta. “É preciso refletir sobre todos os problemas que podem acontecer desde o início da relação”, explicou para a Revista da Tribuna, acrescentando que a dificuldade aumenta com a idade dos filhos do futuro marido. “As crianças menores costumam ser mais receptivas que os adolescentes”, completa. A situação é complexa e existe até uma entidade – Associação Madrastas e Enetados (AME) e um site – o www.madrasta.hpg.com.br – que mostra como contornar obstáculos para a felicidade familiar.

‘Boadrasta’
Maria Cristina Canonico, 54, vive uma situação peculiar. É o único elo com os filhos do marido, Ivo Alberto, que faleceu há um ano e meio aos 55 anos. Quando ela se casou com o viúvo Ivo, em 1987, passou a ser madrasta de seus três filhos – Daniel, na época com 12 anos e hoje com 30, Adriane, então com 13 e agora com 31, e Luciane, que tinha 16 anos e hoje está com 34. Cristina já é avó de seis crianças. “No começo foi um pouco difícil, pois a Luciane tinha ciúmes do pai. Os menores me aceitaram mais facilmente”, lembra. Mas a pequena barreira logo caiu, principalmente quando nasceu Giuliano César, filho do casal, que hoje tem 15 anos. “Eu era mãe de todos, nunca houve qualquer diferença de minha parte nem da deles”. Ela sempre cuidou da casa e ajudou na educação dos jovens, que sempre comemoraram com ela o Dia das Mães. Daniel mora em outra cidade mas mantém contato permanente com sua mãe de coração. “Eles brincam dizendo que eu não sou madrasta e sim boadrasta”.

Ciúmes da mãe
A mudança na vida de Eliene Aparecida do Nascimento, que completou 24 anos no dia 30 de abril, foi radical. “Virei esposa e mãe ao mesmo tempo”, revela. É que ao casar há dois anos com Gilmar Alves de Souza, ganhou de presente dois enteados, Jonathan, então com 4 anos e Jean, com três. “Eu não tinha experiência e, de repente, me vi trocando fralda, tirando a chupeta, e ensinando a usar o vaso sanitário. Os dois eram pequenininhos”, e completa: “Só não gestei e pari”. A mãe dos meninos mora em Minas Gerais e raramente vem para Indaiatuba , mas quando isso acontece, sente ciúmes. “Não queríamos enganar os filhos, que sabem que têm uma mãe, embora Jean me chame de mãe. Jonathan, como era mais velho, me chama de tia”. Ambos a homenageiam no Dia das Mães.

Mãe, tia
e madrasta

A história de Maria Irani Cantelli, 42, parece saída da fértil imaginação de algum novelista, mas é a pura verdade. Num golpe do destino, ela passou a ser mãe (ou madrasta) dos sobrinhos quando sua irmã Marina faleceu, três meses após dar à luz a Érica. É que o viúvo Aparecido de Jesus Tesoto, hoje com 50 anos, ficou deprimido com a morte e foi morar com a sogra, Irene, levando Érica e Everton, na época com 2 anos. Irani, que havia se separado recentemente, também residia no local com os dois filhos, Emerson, então com 2 anos, e Laiana, recém-nascida. As quatro crianças acabaram crescendo junto, tendo Irani como mãe.
“O afeto e amor pelos quatro, que tinham a mesma idade, era muito grande”, lembra Irani. Tanto, que quando o pai teve condições de se mudar para residência separada, acabou se casando com Irani, permitindo que as quatro crianças permanecessem juntas. Isso foi há 17 anos. Hoje, os dois garotos têm 20 anos e as moças, 18. Para os quatro, Irani e Aparecido são seus pais. “Eles são meus filhos mesmo. Me preocupo com todos, com o que comem, a hora em que saem ou chegam de casa. É tudo igual para mim, sou mãe mesmo”.

Japão
Maria Aparecida Faria, 49, sente muita saudade de seus “filhos”, que estão no Japão – Danilo, 22 e Daniela, 23, mãe da linda Beatriz, com três anos. Ela e o marido, Nelson Teruo Anraki, 56, estão juntos há 11 anos, e hoje sentem falta não só das “crianças”, mas da netinha, que Cidinha ajudou a criar e com quem viveu por um ano enquanto Daniela se adaptava ao novo país. “Nos conhecemos um mês após a primeira mulher de Nelson ter falecido. As crianças tinham onze e doze anos e estavam muito carentes, porque acompanharam o sofrimento da mãe”, recorda. Depois de alguns meses a família passou a sair com Cidinha. Daí nasceu o amor, tanto do marido, como dos filhos. “Eu nunca havia lidado com crianças, já que não tive filhos nem sobrinhos. Para mim foi uma dádiva, principalmente porque ajudei Daniela na gravidez e pós-parto, cuidando do bebê e fazendo tudo que uma avó faria. Me sinto realizada.”

“Sou mãe”
Embora esteja atualmente esteja separada de seu marido, Maria Eliodora da Silva viveu anos não só com Fortunato, mas com os filhos deles – Renato, hoje com 38 e Gilberto, 36. O casamento aconteceu em 1973 e o viúvo Fortunato pôde contar com Maria na criação dos meninSos, que eram pequenos.
Da união, nasceram outros três filhos: Ronaldo, 29, Reginaldo, 26, e Regiana, 23. Embora houvesse diferença nas idades, todos se deram bem e havia muita estima entre eles. Fortunato se separou, foi embora da cidade e criou outra família. Mas Renato e Gilberto ficaram em Indaiatuba e sempre visitam Maria e os irmãos. “No Dia das Mães recebo homenagens e carinhos de todos. Sou mãe deles, sim, e com muito amor”, completa Maria.

 

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