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BRINQUEDINHOS

texto Antonio da Cunha Penna
penna@silvaepenna.com.br 3875-3567

Nunca pensei ver um dia uma revista
indaiatubana exibindo matéria so-
bre assunto tão burlesco. No fundo, tudo certo. São tempos menos hipócritas e o assunto, por ser real, deve ser tratado com naturalidade. O problema está mais em mim que nos fatos.

Informaram-me que a pauta da edição de junho dá destaque a uma indústria de produtos eróticos instalada (quem diria!) em nossa tão insinuante cidade. Fiquei surpreso. Conheci essa terra em 1957, tempos em que o único produto erótico que ela produzia, e ainda assim em escala mínima, eram umas poucas biscatinhas que serviam a uma reprimida população masculina a preços atraentemente módicos, uma pela falta de grana disponível na praça; outra, pela qualidade dos produtos. Geralmente beldades maltratadas e que não davam garantia nenhuma sobre o serviço prestado. Era grande a chance de se pegar uma gonorréia, uma sífilis, um cancro (mole ou duro), uma crista de galo ou, na melhor das hipóteses, um chato de um tal de chato – carrapatinho impertinente que abraçado firmemente ao pêlo da púbis, “matava” o portador de coceira.

A mais famosa dessas (em tempos politicamente corretos) “servidoras públicas” era Cincão. Como podemos ver, coitada, mais honesta impossível. Seu preço já vinha explicitado não em código de barras, mas no nome de guerra: cincão. Cobrava exatamente cinco cruzeiros pelo serviço. Era pré-época da ditadura (leia-se ditadura mesmo não dita-dura) e os preços estavam mais ou menos estabilizados. Se a amadora fosse atuante na época da inflação do Sarney ficaria louca. Toda semana teria que mudar de nome. Começaria o ano como Cincão terminando o mesmo como Trezentão ou Quatrocentão, sei lá.

Mas voltando à pauta, justo eu: ex-coroinha, ex-cruzadinho, ex-marianinho, ex-palestrante de curso de noivos, em resumo, ex-quase tudo. Um senhor de praticamente 60 anos, ser requisitado para escrever sobre produtos eróticos? É no mínimo gozação ou maldade do editor. Não entendo do assunto, nem nunca recorri a esses artifícios. Sou o mais pudico, recatado, virtuoso e puritano ser que conheço. Podem pensar que é “historinha”, mas a pura verdade é que, a primeira e única vez que pisei em um motel foi acompanhado de um funcionário. Nada a ver com o que você leitor está pensando. Fui a serviço para fotografar os sete diferentes quartos de um luxuoso motel em São Paulo. Já na portaria suei frio sob os olhares maliciosos que a atendente me lançava. A danada ao invés de procurar saber logo o que eu queria cochichava com a colega. Não é preciso ser muito esperto para adivinhar que era sobre o estranho “casal”: um velho de barba branca acompanhado de um jovem. Por fim, aliviado, pude explicar que estávamos ali para fotografar o motel para uma propaganda. Na saída, novo constrangimento. Tinham trocado a funcionária e tive que explicar novamente que ficamos sete horas lá dentro, mas era fotografando. Na dúvida a moça telefonou para o gerente.

Agora esse novo mico.
Fiquei sabendo que a indústria indaiatubana já fornece para todo o território nacional. Teve a produção aumentada em 3.900% só no último ano. É isso mesmo, três mil e novecentos por cento. É mole? Não! Nada, nem com viagra sobe tanto e tão rápido. Os melhores consumidores são os casais héteros e as mulheres. Nós machões somos machistas demais para encarar o negócio de frente. Contrariando a expectativa, os gays são os piores consumidores. E olhe que a variedade é grande. Vi o catálogo. Têm até fantasias descartáveis que são vendidas para os motéis revenderem a seus clientes. É bailarina, colegial, garçonete, coelhinha, mulher-gato, enfermeira, doméstica, noivinha, diabinha (com chifrinho e tudo). Poderiam ainda lançar de Vovó Donalda, Chapeuzinho Vermelho, Bela Adormecida, Rapunzel, Mortiçia, Paquita ou catadora de papelão. Ao todo contei 26 modelitos de calcinhas temáticas, boa parte delas contemplando a fauna. Têm de cachorrinha, panterinha, sereia, borboleta, lobinha, morceguinha. Por que não de mariposinha, franguinha, gatinha, pernilonguinha, porquinha ou marrequinha? Os únicos bichinhos dispensáveis são, o pinto e a perereca por serem partes inerentes desse zoológico sexual. Há planos de lançarem fantasias masculinas, como de bombeiro, policial etc... Sugiro também de pipoqueiro, goleiro, açougueiro, médico legista e por que não fotógrafo?

A maior variedade de brinquedinhos (é assim que são chamados) são os pênis. Têm de todos os tamanhos e formatos, nas cores: azul, vermelho, preto e cor de carne. A linha de cosméticos traz pomadinhas que amortecem, que resfriam, que esquentam e uma fantástica que retrai os tecidos do canal vaginal transformando em segundos uma baranga de velocímetro virado numa tenra virgenzinha.

Para coroar estes tempos liberalizantes em que vivemos vem aí o curso de pompoarismo. Trata-se da técnica de movimentar a musculatura vaginal na hora do coito. Dizem os entendidos que essa maravilha é capaz de elevar o parceiro ao Nirvana. Garotas de programa que dominam a técnica cobram bem mais pelo serviço. A fábrica indaiatubana já desenvolveu aparelhos para exercícios de malhação vaginal. Sugiro que a médio prazo promovam um concurso anual de pompoarismo a exemplo do de halterofilismo, braço de ferro e outros.

Disseram-me que na internet viaja uma vagina que fuma, aliás dando um péssimo exemplo. Poderiam aprender a mastigar azeitona e cuspir o caroço, fazer muxoxo, dar risadinha, bater palminha, fazer bilu-bilu e outras inocentes gracinhas. Só não me chamem para jurado. Estou mais para cuidar do espírito porque o corpo, ó já era.

 

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