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Tutti Buona Gente - 1ª parte

60% dos habitantes de Indaiatuba
são descendentes italianos

Silvia Bolívar

Até 1947, o país era uma monarquia. Após a derrota da Alemanha (e seus aliados, Japão e Itália) na Segunda Guerra Mundial a Itália torna-se, em 2 de junho, uma república, reunindo povos com dialetos diferentes numa só pátria, uma só bandeira. Nessa data os descendentes de italianos fazem eventos para celebrar essa conquista. Em Indaiatuba, a comemoração será feita concomitantemente à Festa das Nações Unidas de Indaiatuba (Fenui), no início de julho. Os descendentes de italianos no Brasil ultrapassam os 26 milhões, sendo que no Estado de São Paulo seriam 16 milhões. A capital paulista é considerada “a maior cidade italiana do mundo”, com 5 milhões de descendentes. Em Indaiatuba, até a década de 80, os filhos, netos e bisnetos da Itália formavam 60% dos habitantes – hoje esse número é menor, 50%, devido ao grande número de brasileiros que trocaram suas cidades natais por Indaiatuba. De fato, um passeio pelas ruas em diversos bairros revela a quantidade de homenageados daquele país.

Igreja São José,
na Fazenda Pimenta,
construída pela
família Mirone

‘Escravos’
A vinda de italianos para o Brasil remonta às caravelas de Pedro Álvares de Cabral, cuja tripulação incluía marujos dessa nacionalidade. Centenas de italianos combateram com os portugueses e brasileiros os invasores holandeses no Brasil. Missionários católicos aportavam no País desde o século XVII. Mas a grande leva de imigrantes veio a partir de 1874, com o objetivo de substituir a mão-de-obra escrava nas lavouras brasileiras. Nessa mesma época, e com os mesmo objetivos, aportaram os suíços e os alemães no País. Calcula-se que de 1874 a 1900 tenham imigrado para o Brasil mais de quatro milhões de italianos, sendo que dois milhões só para o Estado de São Paulo.


Família Scachetti

A vontade de abandonar a Itália em busca de um futuro melhor pode ser entendida pela situação vivida por 90% do povo. Por volta de 1800, os latifundiários italianos “contratavam” como meeiros os trabalhadores rurais. Só que estes eram obrigados a pagar a moradia, a comida, e até os instrumentos de trabalho. Acabavam devendo dinheiro aos senhores feudais. Aliás, esse tipo de trabalho escravo ainda existe no Brasil, principalmente na região amazônica. Esses italianos vagavam pelo país, sem fixar moradia ou residência, nada tinham a perder, portanto, aceitando a aventura de trabalhar numa terra onde o frio era inexistente e onde havia a esperança de “fazer a Mérica”. É que os contratos (fuleiros) entre fazendeiros brasileiros e os trabalhadores rurais previa a possibilidade de aquisição de terras a preços módicos. Quando chegaram ao Brasil, depois de viagens estafantes em navios infestados, viram que o paraíso não era bem assim. Muitos deles foram tratados exatamente igual aos escravos negros, sendo presos por algemas, apanhando muito e morando em senzalas.

Superando barreiras


Família Creato

Um dos casos marcantes desse tratamento aconteceu em Capivari, com a família Cunico, que chegou ao Brasil em 1894 e iria trabalhar numa fazenda naquela cidade. Ao chegar ao local, encontrou compatriotas fugindo de senzalas. Os Cunico nem chegaram a se apresentar ao fazendeiro. Junto com os outros italianos, encontraram abrigo em fazenda vizinha, cujo proprietário era mais “humano”. Angelo Cunico era o único que sabia ler e escrever e por isso ficou encarregado de comandar os empregados da propriedade. Com o que conseguiu arrecadar, comprou um sítio, com 27 alqueires, ao lado da Fazenda Espírito Santo, e construiu uma casa para a família morar (a casa permanece em pé até hoje, embora quase toda a área tenha sido loteada). A família Creato, originária de Vêneto, desembarcou no Brasil em novembro de 1891. O patriarca, morreu logo após chegar ao País, deixando viúva e quatro filhos para criar.

Com garra, a família se desenvolveu, vendendo lenha – ingrediente fundamental para cidades em crescimento pois movia a então nascente indústria, bem como os trens. Da união das duas famílias é que nasceu o hoje pesquisador Carlos Alberto Creato. Assim como essas, outras famílias seguiram trajetórias parecidas, a maioria obtendo sucesso ou, pelo menos, conseguindo se estabelecer condignamente no Brasil, sendo que as levas seguintes de imigrantes já chegaram ao País com outra situação. Em muitos casos, vieram para investir no país que era tido como garantia de sucesso. Nessa posição estão os Matarazzo, Crespi, Mirone e Scarpa.

FATOS CURIOSOS
- Ainda hoje, 90% dos italianos não sabem que houve grande imigração de seus compatriotas para o Brasil, principalmente entre os anos de 1874 a 1890. A história do país ficaria “manchada” com o fato dos imigrantes terem vindo substituir a mão-de-obra escrava. A partir do ano 2000 esse quadro está mudando, com os livros escolares de história já registrando esse fato.

- “Porco”: assim são chamados os torcedores do Palmeiras, time da 1ª divisão do futebol brasileiro. A origem do termo pejorativo pode ter relação com a polenta, comida desconhecida dos brasileiros e que, para os ricos fazendeiros, “só porcos comiam”. Já para os italianos, arroz e feijão é que eram para os porcos

- Durante a Segunda Guerra Mundial, devido a adesão de Benito Mussolini à Hitler, Alemanha e Itália passaram a ter seus imigrantes rejeitados em outros países. No Brasil, os italianos só podiam sair às ruas com carteira de salvo-conduto. Todas as contas bancárias de italianos ou descendentes ficaram congeladas até o fim da guerra. Em Indaiatuba, muitos não saíam de casa porque eram freqüentes os insultos

- Em Caxias do Sul (RS) quase todo mundo fala o dialeto vêneto (da Veneza e região). Nesses locais a cultura italiana está bem preservada

- São Paulo é a cidade “mais italiana” do mundo, com mais de cinco milhões de descendentes

- A pizza é o resultado de uma receita errada. Uma das teorias diz que a massa não cresceu e que para não ser jogada fora, foram colocadas sobras de queijo ou frios em cima, com lascas de tomate e orégano (tempero obrigatório). Ainda segundo especulações, a pizza do norte da Itália (cidades mais ricas e avançadas) seria fina porque o que importaria mesmo era o recheio/cobertura – em geral, o que é caro. O sul, pobre, teria massa grossa justamente para matar a fome sem gastar muito
Sociedade Ítalo-Brasileira 
Em todo o Brasil, descendentes de italianos buscam se agrupar em colônias nas quais a cultura do país de seus ancestrais é estudada. Em Indaiatuba, a Sociedade Ítalo-Brasileira funciona precariamente. Segundo Massimo Bincelli, 54, italiano que chegou ao Brasil aos quatro anos e que é o atual presidente da entidade, Indaiatuba é uma das poucas cidades em que a Sociedade ainda não “deslanchou”. “Um dos motivos, talvez, é que por não ter sede própria, funcionamos um tempo em Videiras (bairro com agricultores italianos), num anexo da igreja. Como era afastado, desistimos. No Centro, tivemos uma sala no Sindicato Rural, mas atualmente não podemos usar o espaço. Os ensaios do grupo de dança da Sociedade são feitos no Ginásio de Esportes, aos sábados, às 17h30. Como todo italiano ou descendente, sou lutador, e vamos conseguir formar uma sociedade atuante”, garante Massimo. Informações pelo telefone 3875-8946.
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