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Mania de celular


Este aparelhinho caiu nas graças do povo.
Mas será que é necessário possuir o último modelo?


:: por Tatiane Quadra


Domingos Carlos
e Marisa Martins Carotti



Não faz muito tempo. Há pouco mais de dez anos, ter um celular era apenas questão de necessidade, embora ele custasse muito mais caro do que atualmente. Justamente pelo preço mais alto, a utilização era restrita, ao alcance de poucos. Não que tenha deixado de ser um artigo útil. Ao contrário, agora ele é essencial para muitos, e faz mais do que apenas executar ou receber ligações.

Com o avanço da tecnologia, o celular tem funções que vão desde identificação de chamadas, envio de mensagens de texto, agenda, calculadora e despertador, até o registro de imagens em formato de foto e vídeo, rádio, viva-voz, jogos, acesso à internet, e troca informações por infravermelho. Tudo isso em um aparelho só. E é isso que o torna quase que um brinquedo de luxo, passível de ser trocado no próximo avanço, sem nenhuma piedade.

Em março deste ano a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatael) informou que o país já registra mais de 102 milhões de assinantes de linhas de telefonia móvel. Só na região do código 19, são mais de 3 milhões. E este número cresce em larga escala, a cada dia. É inegável, portanto, a popularização do aparelho. Os motivos são vários: o preço mais baixo, as facilidades nas condições de pagamento, a possibilidade de inserir apenas créditos ao invés de manter uma conta, entre outros. Por isso não é difícil ver crianças com os aparelhos nas mãos, ou adultos com dois ou três celulares. O que dizer então quando a busca pela tecnologia faz o aparelho ser descartado ainda em boas condições de uso, sem que se esgote o tempo de vida útil?

O comerciante Mariano Longino Garcia, 46 anos, não nega a dependência do celular. “Mas eu preciso. Uso muito para trabalhar”, justifica. “Ele fica 24 horas ligado e se esqueço em casa volto para buscar.” Garcia conta que já trocou de aparelho cerca de dez vezes, sendo que em cinco casos o motivo foi a perda. Mas na outra metade das vezes ele confessa: quis uma tecnologia mais avançada. “Veio o viva-voz, a câmera, entre outros. Vi que essas ferramentas podiam ser úteis”, explica. “Com isso faço a média de uma troca a cada ano.”

Vontade
Apesar de já ter trocado de celular três vezes em um só ano, a comerciante Marisa Martins Carotti, 61 anos, jura que a fama que leva não é culpa só dela. “Já tive uns dez aparelhos. Sempre que dá vontade eu troco”, admite. “Mas tenho que comprar os aparelhos para a empresa e para meu marido, que usa muito e já trocou mais vezes do que eu.”

Marisa expli­ca que troca porque cada vez quer um modelo diferente. Mas afirma que não gosta de nada muito sofisticado, prefere os que são mais simples para manusear. “Na última vez tinha comprado um aparelho bonito, rosa. Mas ele era complicado, então troquei por um mais fácil de mexer”, diz. “Mas não sou viciada em celular, quando não preciso, desligo. Acontece que esta é uma necessidade da vida moderna.”

Apesar das inúmeras trocas, os dois comerciantes garantem que não esquecem o celular antigo, guardando-o em uma gaveta, ou arrumam uma utilidade para o aparelho anterior. “Os que ainda estavam em condições de uso eu vendi ou dei para os meus funcionários”, declara Garcia. Esta também foi a saída encontrada por Marisa: ela vendeu alguns aparelhos e outros deixou no comércio, para a utilização dos funcionários. “Sempre dou um jeito de aproveitá-lo”, enfatiza. “Se não for reutilizável, eu levo para a loja, que é o local adequado de descarte. Temos que ter responsabilidade.”

Risco para o meio ambiente
Para o professor de engenharia ambiental da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) Lélio Massai, é só uma questão de tempo para que as substâncias tóxicas e metais pesados, existentes nas baterias de celulares, poluam o meio ambiente e prejudiquem homens, plantas e animais. Ele acredita que, quanto mais celulares são vendidos, maior é o acúmulo de aparelhos e baterias, que são jogados fora e vão para os aterros sanitários, junto com os resíduos domiciliares. O consumo desenfreado pode acelerar os problemas ambientais, que não estão sendo prevenidos. “É certo que isso um dia irá acontecer”, afirma.

Segundo a Associação Brasileira da Indústria Eletro-Eletrônica, cerca de 20% dos aparelhos que circulam no país são descartados em aterros sanitários. Massai, que é pesquisador da área, explica que pelo menos 90% das baterias são consideradas lixo comum, com descarte permitido em aterros, pela legislação brasileira. Os outros 10% possuem materiais mais perigosos como mercúrio, chumbo e cádmio, porém, mesmo nestes casos, há percentuais permitidos para o despejo.

O professor explica que nos aterros há tratores que perfuram as camadas de lixo com as garras, quebrando a proteção das baterias. “O chorume é extremamente ácido e ataca os componentes desta pilha de celular, que se dissolve”, diz. “O líquido vaza e penetra na terra, atingindo solo, ar e principalmente reservatórios de água. O resultado é o nosso contato com esses metais pesados.”

Para Massai, o problema está sendo “empurrado” para os próximos 50 a cem anos. “Isso tinha que ser resolvido agora”, declara. “Pois no futuro pode nos trazer graves doenças.” Em suas pesquisas, Massai aponta uma forma de transformar pilhas e baterias em pó, a ser utilizado em pavimentações.

Alerta
Segundo o professor, ele só não possui mais o celular do tipo “tijolão”, porque foi roubado. Mas o que utiliza atualmente já é bastante antigo. “Quando tiro do bolso o pessoal dá risada”, comenta. “Mas não ligo, uso só por necessidade.” Ele argumenta que o celular virou um objeto de “status”, que fascina as pessoas, que o tratam como membro da família. “Mas precisamos lembrar que ainda não há estudos para saber o mal que causa diretamente aos humanos”, ressalta. “E é perigoso. Contém produtos químicos que, se escapam, podem explodir igual à pilha.” Ele alerta ainda para o risco de acidente com as baterias piratas. “Quase 40% das baterias em circulação são falsas”, enfatiza.


Na contramão da “moda”
Não é por falta de insistência dos filhos que a aposentada Araci Gazola (foto)não tem celular. Ela conta que, desde que começou a “moda” aqui no Brasil, o casal de filhos insiste em tentar dar um aparelho para ela, no Dia das Mães. “Desde a época que o celular era um tijolo eles querem que eu tenha uma para me caçar por aí, mas eu nunca quis. Minha filha trabalha neste ramo e fica dizendo que todo mundo tem”, afirma. “Tenho 68 anos, não vou ficar andando com celular pendurado em mim.”

Dona Araci, que faz serviço de reparo em roupas, explica que “vive em casa”, mas que quando sai, ou vai viajar, avisa aonde vai, liga para dizer que chegou bem ao destino, e pronto. “Sou meio antiquada neste ponto, porque não gosto mesmo”, reconhece. “Acho que tira a privacidade, pois às vezes a pessoa quer descansar, sem ser achada.”

A aposentada comenta que também não gosta de ficar ligando para os filhos e só faz chamadas em celular em casos de “última necessidade”, porque não quer ser “chata”. “As pessoas hoje são viciadas em celular. Meu filho, por exemplo, troca de aparelho como troca de camisa”, revela. “Eu não sinto falta nenhuma e vivo super bem sem.”

Já a professora de educação física Sandra Sivolani, 38 anos, (foto) tem celular, mas permaneceu com o mesmo aparelho enquanto pôde. Apesar de ter vontade de possuir um modelo mais novo, só quando o que tinha há cinco anos quebrou e não teve conserto, em dezembro do ano passado, ela comprou um mais moderno. “Celular para mim não é prioridade nem luxo, é para utilizar nas emergências”, argumenta. “Vejo que há um pouco de exagero nessa busca pela tecnologia. Não preciso ter o último lançado, afinal, todos já são pequenos. É uma questão até de economia.”

Crítica
Porém, Sandra vai além. Ela acredita que há uma falta de consciência na população sobre os prejuízos que a troca exagerada de aparelhos pode trazer, por conta das baterias dos celulares. “As pessoas olham aquele aparelhinho e não conseguem imaginar que ele pode ser prejudicial para a natureza”, critica. “Acham que nunca chegarão a se prejudicar por este motivo. Infelizmente a consciência só desperta quando vem a conseqüência.”

O posicionamento da professora nos faz refletir. Claro, o celular é útil e importante na vida moderna e tem o grande mérito de reduzir a distância entre as pessoas. Mas devemos evitar excessos e nos questionar se é realmente necessário possuir o modelo de última geração.
Lembre-se que todo produto, mesmo que recém-lançado, certamente será modificado e melhorado. Sempre.


Curiosidade
A primeira ligação foi feita 1973 pelo pesquisador americano da Motorola, Martin Cooper. Apesar de portátil, o aparelho pesava quase um quilo e tinha 25 centímetros de comprimento e sete de largura. Mas a invenção só passou a ser comercializada dez anos depois, com DynaTAC 8000X, ou o famoso “tijolão”.


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