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Crônica do Penna

NÃO ADIANTA CHORAR

texto Antonio da Cunha Penna
penna@silvaepenna.com.br 3875-3567

Condição sine qua non para estar completando 60 anos em 2005 é ter nascido em 1945. Dedução óbvia, né?, mas não desprovida de significados, pelo menos para mim, que estou passando pela experiência. Que fazer? Tenho mania de driblar a realidade dando importância ao que, definitivamente, não tem nenhuma.

A verdade é que em agosto próximo concluirei o convencionado espaço de tempo de 60 anos (que embromação!) – farei 60 anos e pronto. Para o genial compositor Noel Rosa, que morreu aos 26 anos, 60 é mais do que o dobro de sua proficiente existência. Para uma parenta que tenho em Minas Gerais e que completou 107, ainda passo como garotão supimpa.

A verdade mesmo é que tudo é relativo. Chego a esse marco com a sensação de que perdi tempo, que poderia ter aprendido e feito mais. É real. Também estou longe de ter sido um inútil. Tenho alguma chance de durar mais 20 anos? Acho que sim. É um bom tempo. Um terço do que já vivi e mais do que dois terços do que viveu Noel Rosa. É tempo suficiente para tentar diminuir essa sensação de incompletude.

Já não caio mais naquela de marcar data para se mudar algo ou tomar providências. Não funciona, pelo menos para mim. Gostaria de (e preciso) fazer exercícios físicos, aprender rudimentos de informática, ser mais tolerante com as pessoas, ser menos impulsivo, aprender a perdoar, ser mais religioso, mais manso, menos orgulhoso, aceitar os outros como são, cumprir com mais presteza minhas poucas e inconseqüentes promessas, organizar melhor as coisas, a vida, as horas. Gostaria ainda de fazer outras exposições de fotos, lançar um livro, voltar a Diamantina, escrever mais poemas, aprender a escrever crônicas, dirigir um vídeo, interpretar outros, aprender violão, voltar a cantar, compor, participar de mais concursos literários, festivais de música, tomar cachaça, curtir os amigos, conversar, ler, ler, ler... Aprender a ser amado sem a incômoda sensação de que não mereço, aprender a externar melhor o amor.

Necessitar de todos esses aperfeiçoamentos, ter tantas coisas a fazer vendo o tempo escapar, dá ansiedade. Angustia. Realizar tudo isso é exigir quase um milagre. Por mais fácil que possa parecer, covardemente prefiro remover montanhas, pelo menos tento já sabendo que não conseguirei. Ah! Nem sei porque estou falando nisso. A quem, senão a mim, interessa o que é fazer 60 anos? Cada um que cuide dos seus. Todos esses anos, bons e maus, são só meus, apesar da vida entrelaçada à de outras pessoas.
Caramba, que papo chato!!!

*


Interessante a vida com sua facilidade de rimar humor com horror. Bem, interessante enquanto a fase ainda está mais pra rir que pra chorar.
Está difícil mudar de assunto. É...é o egocentrismo; querer chamar a atenção para um problema que é só meu.

Quer saber? Só de raiva gostaria de bolar uma piada, mas é difícil. Dificílimo. Por isso que os programas humorísticos das TVs andam tão sem graça. Parece que piada boa não se inventa, brota. Só depois vai pro papel. Por falar em piada, em maio morreu o palhaço Arrelia. Estava com 99 anos. Morreu com uma idade tão sem graça quanto ele mesmo foi. Desde criança o achava alto e insípido demais. Palhaço tem que ser baixinho e um pouco cruel. Coitado! Aposto que ultimamente vinha dizendo assim seu famoso bordão: “Como vai, como vai, vai, vai? Muito mal, muito mal, mal, mal”.


*

1945, 3 de agosto, às 20 horas, resolvi sair e dei de cara com o mundo, mais precisamente com a pacata cidadezinha de Santa Bárbara na zona da mata mineira. Pena. Naquele mesmo ano morria o poeta e escritor Mário de Andrade e o compositor Custódio Mesquita. Em compensação Mussolini era fuzilado na Itália e Hitler suicidava-se em Berlim. É! Mas também os americanos testavam suas bombas em Hiroshima e Nagasaki. A grande boa nova do ano foi o fim da segunda grande guerra.

Para só ficar na parte que me toca, foram meus companheiros nesta aventura que é vir à luz: Geraldo Azevedo, Ednaldo, Sidney Miller, Ivan Lins, Paulinho Tapajós, Raul Seixas, Gonzaguinha, Gal Costa, Taiguara, Antônio Marcos, Wagner Tiso e... simplesmente a maior: Elis Regina.

Bem, agora tem mais jeito não! Somos todos sexagenários. Já posso andar de circular de graça e dar prejuízo ao Paulinho Lui. A boca pequena digo que também posso abraçar as mulheres sem muita cerimônia e parecer que estou “tirando uma casquinha”.
Foram 60 tragichanchadescos anos. Os trágicos por conta do acaso e os chanchadescos por minha conta. Em 1945 o filme brasileiro de maior bilheteria era a chanchada “Não Adianta Chorar”, com Oscarito e Grande Otelo. Daqui pra frente este será o meu bordão: Não Adianta Chorar. E chega!

Dados cronológicos extraídos do livro “A Canção no Tempo”,
de Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello.

 

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