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Tutti Buona Gente - 2ª parte

Imigração da Fome

Entre 1869 a 1892, 24 milhões de italianos
(48% da população da época) saiu do país

SILVIA BOLÍVAR




1943
BODAS
DE OURO–

O ca0sal Cesare e Theodora Zoppi (centro), com a bênção
do padre Antonio Vicente Rizzo, comemoram
junto aos
filhos e netos 50 anos de união

O Brasil recebeu a primeira grande leva de imigrantes entre os anos
de 1874 a 1890. Eles vieram para substituir o trabalho escravo na lavoura. Com a iminente abolição da escravatura (1888), os fazendeiros brasileiros optaram pela contratação de suíços, alemães, poloneses, russos e italianos que deixavam seus países, fugindo da fome e que, em muitos casos, foram ludibriados por contratos enganosos. Para entrar no país, o governo exigia que o imigrante fosse contadino (agricultor). Contudo, entre os contadini estavam artesãos, que acabaram se estabelecendo nas fazendas ou vilarejos como ferreiros, carpinteiros, sapateiros ou alfaiates.

Mesmo pobres e sem instrução, a maioria, em pouco tempo, prosperou. Saiu do regime de semi-escravidão para se tornar proprietário rural, abrir comércio ou prestação de serviços. Também vieram contadini com tino comercial, e logo a atividade de caixeiro-viajante se estabeleceu entre fazendas e povoados.
Com o sucesso de seus parentes ou amigos, outras levas de imigrações acompanharam o final do século 19 e início do século 20. Eram os que tinham um ofício ou pretendiam ganhar dinheiro na nova terra. Os irmãos Candello (Alberto e Silvio) chegaram ao Brasil em 1896, ainda crianças. Da Fazenda Quilombo, cada um ganha a vida com seu ofício. Alberto, firma-se como sapateiro e em 1909 casa-se com Rosa, benzedeira e dama de companhia da pintora Tarsila do Amaral. Silvio tinha experiência em engenharia mecânica. Em 1933 abre em Indaiatuba uma requisitada mecânica, atendendo prefeituras da região. Os equipamentos do Hospital Augusto de Oliveira Camargo também eram consertados por ele. Além disso, instalou pára-raios, como os da Igreja São Benedito. Seu filho, Mário Araldo, fez história em Indaiatuba, sendo o vereador mais votado em 1963 e um dos prefeitos (1968-1972) que mais deixou saudades.

Política A política estava no sangue dos italianos que emigraram. Muitos dos pioneiros que aqui chegaram foram vereadores, prefeitos ou secretários municipais. Romeu Zerbini, 82, filho de imigrantes vindos de Cremona, norte da Itália, iniciou-se na vida política em 1955, como vereador. Em 63, foi vice-prefeito de Ivan Correa de Toledo, 79, que foi cassado pela ditadura militar. Zerbini, assim, assumiu a prefeitura permanecendo no cargo até 68. Em 72 lança-se candidato e faz seu segundo mandato, de 73 a 76. Seu irmão, Hormínio, foi também vereador (de 69 a 72), e durante 20 anos dirigiu a Romaria à Pirapora.

Construtores Uma história interessante é a da família de Cesare Zoppi (1865-1944), nascido em Gagliano, distrito de Torrete de Ancona. Ele era geometra, ou projetista-construtor, capacitado a construir prédios de até seis andares. Decidiu sair de sua terra natal para esquecer a morte da esposa e o filho. Em Indaiatuba, o jovem viúvo de 26 anos projetou e construiu inúmeros imóveis residenciais e comerciais. Entre seus desafios, o de projetar a Igreja de São Benedito e assentar as torres da Igreja Matriz. Em 1914, construiu a Casa Paroquial, imóvel até hoje preservado. Casado com Theodora Cerqueira Leite, o casal teve 10 filhos. Seguindo o exemplo do pai, Rêmulo, Antonio e Vitório Zoppi tornaram-se também conhecidos construtores.

Fazendeiros Outra família vitoriosa é a Barnabé, que partiu de Mântua, chegando em Itupeva em 1885. A viúva Adriana e os filhos Valeriano, Paulo e Seraphin trabalharam como colonos em lavoura de café. Mais tarde, em Indaiatuba, Valeriano adquiriu as fazendas Bela Vista e Engenho D’Água (atual Jardim Morada do Sol). Ário Barnabé, que nasceu no Brasil, ampliou os negócios da família. Adriana inaugurou o Cemitério da Candelária – é seu o primeiro túmulo do local. Inês Barnabé, 89, neta de Paulo, conta que os Barnabé logo enriqueceram. Para cuidar da instrução dos filhos, contrataram um professor que veio da Itália, afeiçoou-se à família, e nunca mais foi embora. Ela relembra seu tio Antônio, que aos 70 anos, vestindo paletó e chapéu, ia de porta em porta, cedinho, levando a Tribuna de Indaiá aos assinantes. Hoje, o nome da família está também no córrego Barnabé, que atravessa o Parque Ecológico.

Matrimônios Era comum o casamento entre famílias imigrantes. A radialista Aydil Pinezzi Bonachela, 68, é um exemplo dessa interligação. Seu avô materno, Eugênio Curti, chegou ao Brasil com 11 anos e foi com a família trabalhar como colono na Fazenda Quilombo, onde conheceram a família de Antônio Pinezzi, também avô da radialista. Aydil relata um fato curioso. Ela é parente dos Barnabé e diz que Renato deixou em testamento as fazendas para os filhos homens. Já para as mulheres, apenas a máquina de costura, num arraigado gesto machista.



FAMÍLIA LUI –
Paulo Celso, Juliana,
Zuleika, Paulo Antonio
(sentados),
Luiz Gustavo e
Guerino Lui Neto
(em pé)

Artes A inclinação às artes também era natural a alguns italianos chegados ao Brasil. Uma família, especialmente, marca Indaiatuba, a de Vittório (ou Vicenzo Lui), nascido em 1864 na cidade de Quistello, província de Mantova. Ele chegou ao Brasil em 1888 acompanhado da mulher, Pacífica, então com 26 anos. O destino da família: “Itaicy”.
O primeiro emprego foi na fazenda de Antônio Almeida Sampaio, como ferreiro. Um fato curioso marca uma amizade que permeia gerações. No porto de Santos os Lui conhecem Feres Pedro Aun, que não sabia para onde ir. Quando Vicenzo lhe disse que viria para Indaiatuba, Feres decidiu seguir para a mesma cidade. As duas famílias são duas das mais ilustres atualmente na cidade.
Lui, depois de algum tempo, montou ferraria própria no centro de Indaiatuba e, posteriormente, voltou à Itália para comprar uma bigorna de 88 quilos. Por não colocar direito o endereço, a peça só chegou ao destino dois anos depois, com selos por todos os países por onde passou. Vicenzo e Pacífica tiveram cinco filhos, entre eles Guerino Lui, nascido em 1907. Além de ser gerente de empresas e indústrias, Guerino se consagrou como ator e diretor teatral, sendo fundador do principal lazer da cidade, as salas de cinema (Alvorada e Rex). A família de Guerino, Paulo Antonio e seus filhos Paulo Celso, Luiz Gustavo e Guerino permanecem até hoje no setor, sendo as salas do Multiplex Topázio uma das principais exibidoras do Estado de São Paulo.

Comércio Os imigrantes italianos eram muito versáteis, sabendo aproveitar todas as possibilidades que apareciam. Muitos se especializaram em culinária, com os filhos e netos seguindo essa tradição. É o caso dos D’Ercoli, vindos de Quiete. Henrique D’Ercoli chegou ao Brasil aos 14 anos, em 1898. Em 1911 instalou em Indaiatuba uma barbearia, trabalhando também em um açougue e marcenaria. Nos anos 40, abriu um dos primeiros restaurantes da cidade, o Bar e Restaurante Central. Já a família Mattioni é um bom exemplo da capacidade de trabalho dos italianos. Primo José Mattioni já nasceu no Brasil, seu pai veio de Nápoles e a mãe de Mântua. Em 1954, Jepe, como Primo era conhecido, recebeu como herança dos pais uma casa na Rua Candelária, onde a família fixou residência.
Com muito esforço a família abriu uma padaria em 1960 e depois, seus 11 filhos expandiram as atividades comerciais, atuando também em funerária, papelaria, selaria, loja de móveis, loja de roupas, lanchonetes, revenda de automóveis e de peças de bicicleta.









SEMPRE AVANTI SAVOIA
loja de José Tancler,
na Rua 7 de Setembro
(hoje, Foto Hugo)

Outro nome expressivo é o de Ítalo Limongi, nascido no Brasil em 1917 e cujos pais eram da Maratéa, província de Potenza. Em 1938, começa a trabalhar em Indaiatuba no ramo de bebida, negócio que até hoje é uma potência regional do setor. Como quase todo imigrante italiano, era apaixonado por futebol e o estádio do Esporte Clube Primavera recebeu o nome de Ítalo Mário Limongi após a sua morte, em 1990.

Olarias Um fato curioso é a propensão de alguns desses imigrantes a se tornarem proprietários de olarias. Nas décadas de 20, 30 e 40, com a cidade crescendo rapidamente, era preciso tijolos e telhas para os imóveis.
Assim, o patrimônio dos que entraram no ramo logo cresceu. É o caso dos Ciciliato (chegaram ao Brasil em 1891), Capovilla, Zerbini (em 1898), Petrilli (chegada em 1898), Boldrini (em 1901) e Waldemarin.

Pós-Guerra Outras duas importantes ondas de imigração aconteceram após a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, quando a Europa, devastada pelos conflitos, não oferecia grandes oportunidades de crescimento. Foi nessa época que aportaram no Brasil famílias como Mirone, Dall’Alba, Fantelli, Giomi (estes três se tornaram prósperos industriais), entre outros.
A família Mirone desembarcou no Brasil em 1948. A previsão era ir morar na Argentina, mas Santoro, o patriarca e seus três filhos, gostaram de São Paulo e decidiram escolher no Estado uma fazenda para continuar na atividade agropecuária que desenvolvia na Sicília, sul da Itália.
Estudaram o mapa e decidiram por Indaiatuba, já que a cidade ficava próxima de São Paulo e de outra grande metrópole, Campinas. Foi quando em 1949 compraram a Fazenda Pimenta, hoje ainda na família, embora boa parte tenha sido loteada.

OS PRIMEIROS A CHEGAR

Documentos registram Francesco Squittini, Franscisco Lanzi e José Tancler como pioneiros

ADRIANA CARVALHO KOYAMA
Especial para a Revista da Tribuna

O primeiro registro de imigração italiana encontradonos documentos da cidade é o de Francesco Squittini, dono do hotel d’Itália, em 1873. Em seguida encontramos referência a Francisco Lanzi, que em 1881 casa-se em Indaiatuba e será vereador na última câmara do período imperial. José Tancler veio para Itu em 1875, com 25 anos, trabalhando como mascate nas fazendas da região. Em 1880, estabeleceu-se em Indaiatuba com a loja Sempre Avanti
Savoia, ocasião em que trouxe para cá sua família que havia permanecido em Salerno, na Itália. Participou ativamente da vida pública local. Em sua casa, na Rua Sete de Setembro, esquina com a 15 de Novembro (onde hoje é o Foto Hugo), foi fundado, em 1887, o núcleo local do Partido Republicano. Em 1900, foi presidente da Câmara, já com o título de Tenente da Guarda Nacional, e em seguida tornou-se Juiz de Paz.
Também entre os pioneiros está Cesare Zoppi, em 1893.0

José Tancler,
sua esposa Maria
Pugliesi Tancler
e o filho Carlos Tancler,
dia 5 abril 1901,
em sua residência na
Rua 7 de Setembro

 

 

 


Coronel emprega imigrantes
Em Indaiatuba os fazendeiros abriram as portas aos imigrantes. Segundo anotações de Nilson Cardoso de Carvalho, o Coronel Antônio de Almeida Sampaio, em 1910, em suas três fazendas, em Indaiatuba (Pimenta, Gramma e Santa Rita), com área de 900 alqueires, 645 mil pés de café e 111 casas de colonos, abrigou muitos dos primeiros imigrantes italianos. O expressivo volume de sua produção determinou a existência de uma estação de trem dentro da fazenda Pimenta. O destino de muitas das fazendas paulistas no século 20 será o de serem adquiridas por ex-colonos e seus descendentes. Em1924, os fazendeiros de origem italiana irão deter, juntos, mais de 10% de todos os pés de café existentes em Indaiatuba.

Participação comunitária A grande participação dos italianos em Indaiatuba no final do século 19 pode ser percebida na Câmara Municipal: desde a chegada dos primeiros imigrantes o número de eleitores de origem italiana não parou de crescer: em 1892 votaram na eleição para Presidente do Estado os Schettini (Francesco, José e Domingos) e os Tancler ( Vicente e José)Squittini, Lanzi e Tancler. Em 1900 assinam como eleitores Cesare Lisoni, Enrique Brazzi, Giovanno Pessoto, Angelo Pefsoto, Giovanni Zamboni, eng/arq. Rômulo Zambom, Lourenço e Luiz Salla, Carlo Montibello, Giovanni Panzetti, Cesare Zoppi, Paulo e Valeriano Bernabé, Angelo Fanti, João Ungaretti, Andréa Tomaggio, Dante e Luiz Coppini, Luiz Pieropini, Pascuale Ciampi, Luigi Minioli, Agostino e Pietro Marcolongo, Rodolfo Ferretti, Carlos Tancler, Ferrucio Lucchesi, Francesco Zancheta, Horacio Ostranti, José Artoni, Tomazo Ripabelo, Eugênio Chechinato, Luiz Bosquetto, Ferrucio Carletti, Antonio Madari, João Vitto, Ricardo Righetto, Guido Fiorini, Jacinto Burgato, Guise Castelan, José Fasignato, Antonio Merli e Natale Furgeri. Nessa época, um terço dos eleitores de Indaiatuba era de origem italiana.

Economia Na vida econômica urbana a presença italiana também é notável: recebemos mestres artesãos, negociantes e construtores. Em1895, tínhamos uma fábrica de cerveja e um curtume, ambos de Carlo Montibello; um bilhar, de José Tancler; lojas de tecidos, de José Tancler e José Schettini; sapatarias de Fortunato Baroni e de Francisco Canatta; padarias, de Cesar Lisoni e de Roberto Pinfaro; lojas de Secos e Molhados, de João Sargentelli, Domingos Schettini, Luiz Brassi, Theodoro Proia, Francisco Canatta, João Ungaretti, Honorato Manfredi, Jacob Campagna, Angelo Fantin, Francesco Schettini e Vicente Tancler, que também vendia ferragens e artefatos de folha de flandres. Nos sítios negociavam Julio Bertucci, Fortunato Baroni e Bordini & Companhia.
Em 1910, Casare Lisoni era vereador, o Tenente José Tancler e Luiz Coppini eram juízes de paz. Luiz Petri tem uma fábrica de cerveja e Paschoal Dettiles um moinho de fubá. Lojas de fazendas são a atividade de José Tancler, Rodolfo Ferretti, João Panzetti e José Bichará. Luiz Minioli e Francisco Passini são marceneiros, Marco Matrani é Ferreiro, Vicente Tancler e Domingos Gazfgnatti são funileiros, Batista Rosignati é oleiro, Adolfo Boari, Elias Pioli e Ângelo Nicolini são padeiros, Pedro Rosignatti é relojoeiro, Horacio Ostranti, Paschoal Mateo, Frederico Pavanelli, Cesare Purgatto, Faustino Miraggio e Pinfare Roberto são sapateiros, Frederico Pavanelli é seleiro.
Merita Bertolotti tem um hotel e João Panzetti uma fábrica de sabão. Armazéns de Secos e Molhados são muitos: de Ambrosio Lisoni, Nicola Ferrari, Arthur Tomazzi, Vicente Gandini, Cesare Lisoni, Merita Bertolotti, Elia Pioli, Ettore Mosca, João Ciampi, Luiza Ferrari, Domingos Gazignati, Felipe Feletti e Domingos Carotti.
Vistos em um contexto mais amplo, esses registros nos mostram como desde os primeiros tempos a comunidade italiana abraçou a cidade e seus habitantes, incorporando-se e colaborando ativamente para sua vida pública, religiosa e social, como o fazem até hoje os seus descendentes.
Ao que os moradores locais disseram: Benvenutti!

Cidadania – como requerer
O Consulado da Itália em São Paulo tem mais de 30 mil processos de brasileiros pedindo cidadania italiana. Desses, apenas 5% conseguem o benefício, que dá direito a uma série de regalias como morar, trabalhar, estudar, acesso à saúde e educação em todos os países da União Européia. Com a cidadania ítalo-brasileira obtém-se também um passaporte especial, livremente aceito em países onde os brasileiros têm certas restrições, como os Estados Unidos.

Entretanto, não se deve confundir cidadania com naturalização, que é quando se renuncia à cidadania de seu país natal. A naturalização pode ser requerida por qualquer pessoa em qualquer país, desde que se adeqüe a algumas regras (morar por determinados anos nesse país, ou ter filhos nascidos lá, por exemplo). A cidadania italiana é obtida por direito de sangue (Jus sanguinis, de acordo com a Constituição Italiana), ou seja, podem requerê-la descendentes de um italiano via paterno em linha direta e via materno, quando os filhos da mulher italiana tenham nascido a parir de 01/01/1948. Para isso, é necessário prova documental. E é aí que a porca torce o rabo, já que em muitos casos os registros de nascimento eram feitos nas paróquias locais. Carlos Alberto Creato , que mora em Indaiatuba, trabalha há oito anos com pesquisas de documentos para quem busca a dupla cidadania. “É preciso fazer a árvore genealógica do pai e da mãe do requerente, buscar documentos de batismo ou registros de nascimento e casamento para os italianos nascidos após 01/9/1871, quando foi instituído o Stato Civile Italiano. Busco dados em arquivos militares também”, esclarece.

Quem desejar obter a cidadania italiana precisa saber também a cidade de origem de seus antepassados. Os interessados podem entrar em contato com o pesquisador através do e-mail de
Carlos Alberto: buscadoc@terra.com.br.
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