
Consertando
carros e
homens
René Descartes
Por Irmão Anézio
avendrame@itelefonica.com.br
O que o homem faz de acordo com a lei do bem proporciona-lhe tranqüilidade
e contribui para sua elevação; toda violação
provoca sofrimento. Este prossegue a sua obra interior; cava as profundidades
do ser, traz para a luz os tesouros de sabedoria e beleza que ele
contém e, ao mesmo tempo, elimina os germens malsãos.
Prolongará sua ação e voltara a carga por tanto
tempo quanto for necessário ate com as forças divinas;
mas, na prossecução dessa ordem grandiosa, compensações
estarão reservadas à alma. Alegrais, afeições
períodos de descanso e felicidade alternarão, no rosário
das vidas, com as existências de luta, resgate e reparação.
Assim, tudo é regulado, disposto com uma arte, ciência,
uma bondade infinita na Obra Universal.
Leon Denis (O problema do ser, do destino e da dor).
Nos subúrbios da cidade, longe do burburinho uma pequena oficina
mecânica, bem equipada, tem em seu proprietário o mecânico
Aníbal sua alma. Sua família agora, se constitui de
sua mulher Esmeralda, e ele, não exige muito na parte econômica;
assim ele trabalha por prazer.
Ao
redor do galpão da oficina, uma grande propriedade se estende
com arvores frutíferas e um lago piscoso. Cães, cavalos,
galinhas à solta pela propriedade dão uma sensação
de paz e de liberdade.
Aníbal martelava um pedaço de ferro, mas o som morria
nas águas calmas do lago, Era uma segunda feira de manhã
quando chegou ate na porta da velha oficina um velho Cadilac bi color,
negro com a capota reversível amarela.
Assentos de couro branco. O motorista o deixou estacionado e se dirigiu
ate a bancada onde Aníbal estava limando uma peça num
torno de ultima geração.
- Bom dia! Disse o motorista, tirando o boné.
Aníbal e virou-se e o cumprimentando o convidou a sentar.
- Estou lhe trazendo o carro do Dr. Afonso Queiros, para que o senhor
faça um serviço no câmbio que está com
um barulho estranho quando acionado.Deu-lhe um cartão de visitas
e se retirou. Aníbal leu o cartão e o colocou no bolso
da camisa, voltando em seguida ao torno a fim de terminar o serviço
que havia iniciado.
Às 10 horas abriu a garrafa térmica e saboreou um delicioso
café feito por Esmeralda, abriu o papel de alumínio
e dentro havia um delicioso lanche. O cadilac ainda estava parado
como se estivesse fazendo parte da paisagem.
Aníbal ajustou a peça elaborada no motor de uma velha
moto, e depois de ajustá-la e colocar um pouco de óleo
no cárter, a fechou e dando uma volta pela propriedade constatou
que estava pronta. A estacionou próxima da frondosa árvore
e em foi até o Cadilac que ainda estava com o motor aquecido,
entrou com ele até o elevador e o deixou em posição
de ser levantado, o levantou e o examinando pela parte de baixo constatou
que não seria difícil retirar o câmbio e abrí-lo
a fim de ver por dentro o que estava sucedendo, abriu a internet e
verificou através dos sites dos carros antigos o desenho técnico
daquele câmbio, fez uma cópia.
Já era hora do almoço e sua filha Isaura lhe trouxe
um saboroso almoço, colocando os pratos e os talheres sobre
a mesa. Ficou admirada de ver aquele luxuoso carro lá em cima
do elevador, Aníbal tomou um aperitivo e almoçou. Isaura
foi embora levando o que restava do almoço, os cães
farejavam aquela toalha e a perseguiam latindo até o portão.
A tarde foi chegando, Aníbal já havia telefonado para
vários fornecedores, nenhum tinha peças que ele necessitava.
Era sempre assim, se fosse fácil não traziam pra ele,
a moto que ele acabara de arrumar, o dono, já estava desanimando,
ninguém lhe dizia o defeito, queriam trocar o câmbio.
Pegou as ferramentas e começou a desmontar o câmbio do
Cadilac. José um jovem aluno de engenharia mecânica,
sempre o visitava pela tarde, e o vendo ali debaixo daquele carrão,
lhe ofereceu ajuda, que a Aníbal aceitou prazerosamente, depois
de algumas horas os dois levavam o câmbio desmontado até
a bancada.
Aníbal baixou o elevador e colocando uma lona sobre o couro
branco dos assentos e um plástico escuro sobre o câmbio
desmontado, combinando com José para vir no dia seguinte, subiu
na moto e foi pra casa.
Chegando em casa fez o ritual de sempre, colocou a roupa suja no cesto
da lavanderia e foi pra banheiro externo tomar seu banho reparador,
Esmeralda já o estava esperando com roupa limpinha do lado
de fora.
Às 20 horas o dono da moto a veio buscar, pagou em dinheiro
o conserto, e se foi todo contente. Aníbal foi até a
cozinha e juntamente com Esmeralda, jantou. Em seguida foi até
o seu computador caseiro e através de um programa fez o câmbio
funcionar, vendo como o óleo e as engrenagens se movimentavam
no interior daquela peça. Selecionou as engrenagens principais
e as programou para serem feitas.
Isaura o chamou para juntos assistirem um filme que já estava
começando, Aníbal preferiu ir pro quarto a fim de ver
uma partida de futebol, quando Isaura depois de ver o filme adentrou
o dormitório viu que Aníbal dormia e os jogadores já
estavam indo pro vestiário.
Esmeralda tinha sempre a precaução de antes de por a
roupa suja na máquina, examinar os bolsos, encontrou o cartão
do Dr. Afonso, e o colocou numa caixinha aposta pra isso. Aníbal
foi pra oficina bem cedo, tocou o celular, era o Dr. Afonso querendo
saber de seu carro, Aníbal lhe explicou das dificuldades e
lhe prometeu para a tarde daquela terça-feira.
José o estava esperando juntamente com seu professor da faculdade,
os três começaram estudar o câmbio aberto diante
deles. Uma tecnologia admirável ali estava montada. Depois
de retirar todo óleo Aníbal viu numa pequena engrenagem
a falta de alguns dentes, a desmontou e se dirigiu ate o computador
do torno a programou e colocando a matéria prima a fez uma
igualzinha.
O professor de José ficou admirado da capacidade profissional
de Aníbal, e lhe perguntou:
- Parabéns, mas como o senhor a fez tão depressa?
Ontem eu a programei através do meu computador caseiro, programei
todas as cinco, depois através da internet as transferi para
esse computador moderno que adquiri na feira da Mecânica do
Anhembi, e agora selecionei aquela que estava com defeito, se não
fosse assim estaria com dificuldade para achar uma nos revendedores.
Com a peça ainda quente nas mãos voltou para a bancada
e a colocou na posição adequada. Fechou o câmbio,
e fazendo girar numa rotação mínima notou que
nenhum barulho se ouvia.
As 16 horas chegaram o motorista e o Dr. Afonso, O Cadilac esta no
pateo no mesmo lugar que o motorista o havia deixado no dia anterior.
- Dr., acho que eles nem mexeram no carro...
-Isso veremos em seguida. Adentraram a oficina e encontraram Aníbal
e seus dois colegas aprendendo a mexer no novo equipamento um misto
de fresa e torno.
Aníbal cumprimentou o Dr. elhe informou que estava fazendo
a nota fiscal, o motorista em seguida pegou as chaves e foi dar uma
volta para testar o serviço.
- Tudo bem, por favor, me acompanhe até o escritório,
(na verdade uma mesinha com duas gavetas). Aníbal lhe apresentou
a conta e sua filha Isaura chegava com seu almoço e o cartão
que Aníbal havia esquecido no bolso da camisa.
O cartão cai e José o apanha, o lê e muda o seu
semblante, Aníbal notou e pediu para Isaura o levar até
um canto da oficina e não falar nada. O motorista voltou com
o Cadilac e deu um sinal de OK, o advogado deixou um cheque com Aníbal,
voltou todo contente para seu querido Cadilac e pegando umas pedrinhas
de gelo na geladeira traseira, as colocou no uísque que bebeu
prazerosamente.
Aníbal foi até o canto onde estava inconformado José,
o abraçando levou até a mesinha onde colocouno meio
de um livro o cheque do advogado.
José lhe informava que aquele homem tinha ameaçado seu
pai de prisão por uma simples operação ilícita
numa negociação comercial, isso, embora seu pai fosse
inocente, mas por não ter dinheiro para pagar um advogado teve
que vender, seu carro que era o seu ganha pão no transporte
de alunos.
José pediu para ele sentar e escutar o que tinha a dizer:
- Hoje você viu um profissional competente aonde pode chegar,
belo carro, pagar sem ratear qualquer importância, tem um motorista
à sua disposição e é isso que você
deve ser, para isso você deve dirigir todas as suas forças.
Aquele que se revolta, e através da violência vingar
de seus algozes, isso é dar murro em ponta de faca. Se você
tem a capacidade para alcançar êxito em sua existência,
através de seu próprio esforço. Se você
estudar, formar-se em engenharia, arrumar um bom emprego, aprender
outro idioma, as chances são inúmeras, enquanto você
pensar em se vingar e somente esse pensamente viver em sua cabeça,
o tempo passará, você envelhecerá pobre e mau
humorado.
O Engenheiro que tudo escutava felicitou Aníbal e abraçando
José o levou para casa. Aníbal colocou o cheque na carteira,
fechou a oficina e feliz voltou para casa.