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Crônica do Penna


Paninho Legal


texto Antonio da Cunha Penna
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Todos os dias dou uma olhada nas tirinhas da Folha Ilustrada. Dia desses, Adão Iturrusgarai em sua série La Vie en Rose, no penúltimo quadrinho condenava a “3 anos no inferno” quem usa “lenço de tecido pro nariz” e no último, a 2000, a quem usa “pente no bolso de trás da calça”. Bom, desses 2000 anos de inferno, escapei. Há muito não carrego pente comigo por não ter o que fazer com ele. Não conseguirei escapar é dos 3 anos por porte de lenço de pano. Desde que me conheço por gente, esse quadrilátero de tecido faz parte de minha indumentária tanto quanto e por motivos parecidos com os da cueca.

Na década de 1950, cheguei a usar dois lenços; um no bolso de trás da calça, e outro artisticamente dobrado e ostentado na lapela do paletó. Ainda me lembro!, davam-me uma sensação de importante que me punha de nariz em pé como pode-se ver na foto acima.

É claro, com a mudança da moda, aboli o lencinho da lapela; restou-me o nariz arrebitado e o lenço no bolso de trás da calça. Gostaria de parecer tão humilde quanto um cãozinho bernento. Não consigo. Deus é testemunha de que tento. Quanto ao lenço de pano, uso sim, ninguém tem nada com isso e pretendo levá-lo comigo para o inferno. Pelos menos, quando eu espirrar, seja por conta da fumaceira, ou por uma corrente de ar frio vinda do céu, terei onde colocar minhas melecas. É para isso que eles servem. Nunca sabemos o momento em que vamos ficar resfriados, gripados, ou, o que é pior, ESPIRRAR.

Se hoje é brega, antiquado, e anti-higiênico usar lenço de pano, o chique deve ser pulverizar porcaria no ar que os outros respiram.
Espirrar é uma das coisas bestas que a natureza nos obriga a fazer e que nos degradam. Entre outras coisas, serve também para nos lembrar quão ridículos somos. Espirrando, soltando pum, defecando, transpirando e, às vezes, tendo mau-hálito, o ser humano já é tão cheio de si, imagine se fôssemos puros como querubins.

Um dia vi passar um carro. Dentro dele um jovem empertigado. Num repente levou a mão direita ao nariz a tempo de pegar o espirro. Pegar é o termo, tinha mais aquilo que vento. Não pensou duas vezes, limpou o mais grosso no banco do passageiro, o mais fino no próprio blusão e o acabamento em volta do nariz foi feito com o punho da camisa. Fiquei imaginando... com pena da namorada que quase certo o esperava (era sábado) para lhe dar o “selinho” no portão; selinho este, é claro, já acompanhado de “cola”, para em seguida oferecer aquela mão abominável ao sogro e à sogra. Ao saírem de carro, a gatinha ainda sentaria naquele banco de passageiro previamente engraxado. Tá louco!!! É ruim hein?

Noutra feita, estava eu numa lanchonete e ao meu lado outro jovem que como eu saboreava um pãozinho na chapa com pingado. De repente ele soltou o pão, olhou para os lados de olhos esbugalhados à procura do porta-guardanapos que por azar estava longe. Dito assim, parece que o ocorrido se deu em câmara lenta; qual o que! Tudo se passou em míseros dois ou três segundos. Um alarme em meu interior soou: ESPIRRO! Fiquei meio de costas e com a mão esquerda em concha consegui cobrir minha xícara a tempo. Com o resto de pão metido entre os dentes girei o pescoço para a direita e senti borrifos na face esquerda, creio eu saídos pelos ouvido direito do desenfeliz. Coitado! Fiquei com dó do excomungado.

De rabo de olho para não humilhá-lo ainda mais, vi que sua mão entreaberta portava tal volume de meleca que se descortinava em forma de membrana por entre os dedos dando à sua mão o aspecto de um pé de pato. Grumos de pão com leite se espalhavam pelo balcão, roupa, testa e queixo.

Um pivete que lanchava com seus pais mais à frente, falou em alto e bom som: ECA!!!; no que sua mãe em tom de desespero retrucou, “fica quieto praga!”. A balconista loira ficou vermelha e de riso sufocado parecia que ia explodir. A morena abaixou e foi rir debaixo do balcão. A patroa veio lá dos fundos que nem galinha choca e fuzilou para as duas: “O que foi agora?”.

Eu falo! Tudo isso poderia ser evitado ou minimizado com um simples sacar do velho e bom lenço de pano.

Antigamente, andar sem eles era como estar desprotegido. Confira nos versos de Caetano: Caminhando contra o vento/sem lenço, sem documento...

Era elegante oferecer seu lenço a uma donzela lacrimejante. Eu mesmo salvei uma noiva resfriada que naquele momento de se chorar abraçado a pais e padrinhos ameaçava lambrecar as bochechas alheias com uma “velinha verde”, que subia e descia de seu nariz. Onde estavam os modernos e elegantes lenços de papel naquela dramática hora? Eu e meu velho lenço fomos aclamados heróis da noite.

Quando me casei levei no meu enxoval meia dúzia de lenços devidamente bordados por minha amada com a letra P. Pê de Penna, com dois enes, não pena de punição ou dó.

 

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