Paninho
Legal
texto Antonio da Cunha Penna
penna@silvaepenna.com.br 3875-3567
Todos os dias dou uma olhada nas tirinhas da Folha Ilustrada. Dia
desses, Adão Iturrusgarai em sua série La Vie en Rose,
no penúltimo quadrinho condenava a “3 anos no inferno”
quem usa “lenço de tecido pro nariz” e no último,
a 2000, a quem usa “pente no bolso de trás da calça”.
Bom, desses 2000 anos de inferno, escapei. Há muito não
carrego pente comigo por não ter o que fazer com ele. Não
conseguirei escapar é dos 3 anos por porte de lenço
de pano. Desde que me conheço por gente, esse quadrilátero
de tecido faz parte de minha indumentária tanto quanto e por
motivos parecidos com os da cueca.
Na década de 1950, cheguei a usar dois lenços; um no
bolso de trás da calça, e outro artisticamente dobrado
e ostentado na lapela do paletó. Ainda me lembro!, davam-me
uma sensação de importante que me punha de nariz em
pé como pode-se ver na foto acima.
É claro, com a mudança da moda, aboli o lencinho da
lapela; restou-me o nariz arrebitado e o lenço no bolso de
trás da calça. Gostaria de parecer tão humilde
quanto um cãozinho bernento. Não consigo. Deus é
testemunha de que tento. Quanto ao lenço de pano, uso sim,
ninguém tem nada com isso e pretendo levá-lo comigo
para o inferno. Pelos menos, quando eu espirrar, seja por conta da
fumaceira, ou por uma corrente de ar frio vinda do céu, terei
onde colocar minhas melecas. É para isso que eles servem. Nunca
sabemos o momento em que vamos ficar resfriados, gripados, ou, o que
é pior, ESPIRRAR.
Se
hoje é brega, antiquado, e anti-higiênico usar lenço
de pano, o chique deve ser pulverizar porcaria no ar que os outros
respiram.
Espirrar é uma das coisas bestas que a natureza nos obriga
a fazer e que nos degradam. Entre outras coisas, serve também
para nos lembrar quão ridículos somos. Espirrando, soltando
pum, defecando, transpirando e, às vezes, tendo mau-hálito,
o ser humano já é tão cheio de si, imagine se
fôssemos puros como querubins.
Um dia vi passar um carro. Dentro dele um jovem empertigado. Num repente
levou a mão direita ao nariz a tempo de pegar o espirro. Pegar
é o termo, tinha mais aquilo que vento. Não pensou duas
vezes, limpou o mais grosso no banco do passageiro, o mais fino no
próprio blusão e o acabamento em volta do nariz foi
feito com o punho da camisa. Fiquei imaginando... com pena da namorada
que quase certo o esperava (era sábado) para lhe dar o “selinho”
no portão; selinho este, é claro, já acompanhado
de “cola”, para em seguida oferecer aquela mão
abominável ao sogro e à sogra. Ao saírem de carro,
a gatinha ainda sentaria naquele banco de passageiro previamente engraxado.
Tá louco!!! É ruim hein?
Noutra feita, estava eu numa lanchonete e ao meu lado outro jovem
que como eu saboreava um pãozinho na chapa com pingado. De
repente ele soltou o pão, olhou para os lados de olhos esbugalhados
à procura do porta-guardanapos que por azar estava longe. Dito
assim, parece que o ocorrido se deu em câmara lenta; qual o
que! Tudo se passou em míseros dois ou três segundos.
Um alarme em meu interior soou: ESPIRRO! Fiquei meio de costas e com
a mão esquerda em concha consegui cobrir minha xícara
a tempo. Com o resto de pão metido entre os dentes girei o
pescoço para a direita e senti borrifos na face esquerda, creio
eu saídos pelos ouvido direito do desenfeliz. Coitado! Fiquei
com dó do excomungado.
De rabo de olho para não humilhá-lo ainda mais, vi que
sua mão entreaberta portava tal volume de meleca que se descortinava
em forma de membrana por entre os dedos dando à sua mão
o aspecto de um pé de pato. Grumos de pão com leite
se espalhavam pelo balcão, roupa, testa e queixo.
Um pivete que lanchava com seus pais mais à frente, falou em
alto e bom som: ECA!!!; no que sua mãe em tom de desespero
retrucou, “fica quieto praga!”. A balconista loira ficou
vermelha e de riso sufocado parecia que ia explodir. A morena abaixou
e foi rir debaixo do balcão. A patroa veio lá dos fundos
que nem galinha choca e fuzilou para as duas: “O que foi agora?”.
Eu falo! Tudo isso poderia ser evitado ou minimizado com um simples
sacar do velho e bom lenço de pano.
Antigamente, andar sem eles era como estar desprotegido. Confira nos
versos de Caetano: Caminhando contra o vento/sem lenço, sem
documento...
Era elegante oferecer seu lenço a uma donzela lacrimejante.
Eu mesmo salvei uma noiva resfriada que naquele momento de se chorar
abraçado a pais e padrinhos ameaçava lambrecar as bochechas
alheias com uma “velinha verde”, que subia e descia de
seu nariz. Onde estavam os modernos e elegantes lenços de papel
naquela dramática hora? Eu e meu velho lenço fomos aclamados
heróis da noite.
Quando me casei levei no meu enxoval meia dúzia de lenços
devidamente bordados por minha amada com a letra P. Pê de Penna,
com dois enes, não pena de punição ou dó.