| Um
TOC na cabeça
Quando manias e pensamentos se tornam doença
O
que o jogador inglês David Beckham tem em comum com o
rei Roberto Carlos e a atriz Luciana Vendramini? Os três, nomes
de sucesso e reconhecimento por seus trabalhos, são vítimas
do Transtorno Obsessivo-Compulsivo, ou TOC, como é mais conhecida
a doença psiquiátrica.
As manias que a acompanham resultaram num divertido filme estrelado
por Jack Nicholson, Melhor É Impossível. Ou ainda em O
Aviador, que retrata o magnata Howard Hughes. Roberto Carlos notou que
era portador da doença quando leu uma entrevista da atriz Luciana
Vendramini na qual ela relatava o inferno que vivia e como conseguiu
dar a volta por cima com tratamento adequado. O Rei, muita gente sabe,
não suportava ver ninguém com roupa marrom e em seus shows
não cantava sucessos como “Quero Que Vá Tudo para
o Inferno”, pois acreditava que poderia lhe trazer desgraças.
Cinco anos de tratamento, o Rei brinca dizendo estar “quase normal”.
As
manias podem parecer engraçadas ou bizarras, como as que acometem
o craque do Real Madri. Ele arruma sua geladeira de modo a só
ter números pares de latas de cerveja ou refrigerante e estas
precisam estar alinhadas em determinado canto e agrupadas por cores.
As psicopedagogas Rosana Monteiro de Castro Campos e Luciana
Ferrarezzi Mariotto, de Indaiatuba, lembram que com tratamento
adequado, o quadro pode ser revertido. Elas relatam o caso de um menino
de 12 anos, até então sem qualquer queixa, passou a apresentar
sintomas bizarros: “sua cabeça” pedia para que ele
lesse ao contrário. Se isso não fosse feito, poderia ser
atropelado. Seguia exatamente o mesmo caminho de casa para escola. Do
contrário, “quebraria a cabeça”. O tratamento
envolveu medicamentos e terapia psicológica por seis meses. Hoje,
votou a ser normal.
O TOC pode se manifestar na infância ou adolescência (raramente
depois dos 40 anos), e é importante que pais e professores fiquem
atentos a qualquer alteração de comportamento. Como as
obsessões e compulsões podem ser em graus diversos, nem
sempre é fácil perceber que a pessoa está acometida
pelo TOC. Por exemplo, alguns exageros são logo percebíveis,
como a mania de lavar as mãos de minuto em minuto. Ou ficar estalando
os dedos sem parar. Já pensamentos repetitivos (medo, dúvidas,
culpa, aflição) nem sempre são externados.
NORMAL
As psicopedagogas Rosana e Luciana frisam que é importante não
confundir o TOC com características de personalidade, como organização
e perfeccionismo. Arrumar quadros tortos na parede é normal,
já que atrapalha o equilíbrio visual. Até manias
curiosas, como usar pregadores da mesma cor da roupa no varal, não
é anormal. O saudável hábito de lavar as mãos
ao chegar em casa, ou antes das refeições (ou todas as
vezes em que as mãos estiverem de fato sujas) é necessário;
assim como verificar se trancou mesmo a porta ou desligou o fogão.
Ter dúvidas ou temer pelo desconhecido ou até ter alguma
supertição – são fatos normais. A ansiedade
que todos os vestibulandos passam é natural. Mas se inscrever
e faltar no dia da prova achando que não vai passar no vestibular
– isso é TOC.
CONSCIÊNCIA
Um dos pontos de partida para o diagnóstico do TOC é que
as vítimas sabem de seus exageros, manias e obsessões
– a ponto de lhes atrapalhar o cotidiano – mas não
conseguem evitá-los. “Eu penso sempre que algo horrível
vai me acontecer, mas sei que não há motivos para isso.
Sei que é irracional e ilógico, mas não consigo
evitar os pensamentos”, diz Carlos R. B., 25, cientista social.
A dona-de-casa Magali S. F., 34, passou anos e anos limpando maçanetas
e corrimões até que brilhassem. Não satisfeita,
recomeçava tudo outra vez. “Tenho ainda mania de limpeza,
mas hoje é apenas um hábito positivo, que já não
me perturba”, garante. Os dois estão em tratamento e já
melhoraram bastante.
CAUSAS
A ciência não sabe exatamente o que causa o TOC. Sabe-se
que existem de quatro a cinco vezes mais chances de alguém ter
TOC se familiares tiverem a doença. Traumatismos cranianos ou
infecções cerebrais também podem favorecer o aparecimento
do transtorno. Estados psicológicos adversos na primeira infância,
principalmente na época do aprendizado inicial, são fatores
favoráveis ao TOC.
A família dos portadores de TOC precisa aprender a lidar com
o problema, já que muitas vezes as manias ou rituais podem ser
motivo de chacota ou comprometer a harmonia do cotidiano. O primeiro
a sofrer com suas manias e obsessões é a própria
vítima. Familiares, colegas e amigos devem se solidarizar para
que o portador de TOC procure ajuda médica e psicológica.
Todos viverão melhor.
O
que é
Compulsão ou rituais são comportamentos mentais voluntários
e repetitivos e que são seguidos rigidamente. Dessa forma, aliviariam
as obsessões. Estas, são pensamentos ou impulsos que invadem
a mente de forma repetitiva e persistente. Exemplos:
Compulsões
Lavagem e limpeza
Verificação ou controle
Repetições ou confirmações
Contagens
Ordem, simetria, seqüência ou alinhamento
Acumular, guardar e colecionar coisas inúteis
Rezar, repetir palavras, frases, números
Tocar, olhar, estalar os dedos
Obsessões
Medo de doença
Medo da morte
Medo de não ser capaz
Pavor de germes, bactérias, contaminação
Dúvidas sem motivo
Pensamentos negativos
Pensamentos supersticiosos
Datas e horários (trazem desgraças)
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