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Da maré alta
e das suas consequências

René Descartes



Por Irmão Anézio

avendrame@itelefonica.com.br



Quando a maré levantou me pegou desprevenido, molhou meus pés e tive que me afastar depressa senão molharia a vestimenta. Esse negócio de morar no litoral me tráz lembranças dos avisos de minha mulher sobre os cuidados a serem observados durante os passeios a beira mar.

Encontrei com vários amigos, conversamos sobre os assuntos mais em evidência, como a eleição para presidente,
deputados e senadores, e também sobre nossa
condição de estar na plenitude da razão.

Miguel disse-me de sua vontade de voltar para o interior onde poderia se reunir com amigos num bar, tomar uma cerveja e jogar uma partida de tranca ou truco, pois aqui, disse ele: sempre entra areia em tudo.

Alfredo falou de sua vontade de visitar seus amigos no mercado municipal onde trabalhou por mais de trinta anos e criou os filhos. Viver num condomínio fechado aqui na Praia Grande em Santos. É muita solidão.

Já Dona Isaura gostaria que a filha a levasse para a cidade, andar pelos shoppings da cidade e ter mais contato com os netos.
São pessoas que vivem bem, com o mínimo necessário, um imenso mar pela frente, mas sentem a ausência dos amigos ou dos familiares que estão distante.



O mar é um grande exemplo, pois é como um grande pai que sustenta todos aqueles que vivem em suas águas. Vir para o litoral encontrar conhecidos na sombra do quiosque, uma cerveja geladinha,é uma gostosura, nem dá vontade de ler os quotidianos que trazem notíciais até sobre aumento das aposentadorias.

Ali deixando a vestimenta e adentrando o mar para nadar e na ausência de outros banhistas jogar um anzol a fim de pegar um peixe para o almoço, é uma grande felicidade. Preocupações ficam pra tráz e agora, diante de si, o imenso mar azul deixando suas espumas brancas aos nossos pés. Somos seres diferentes dos demais, ou estaremos esquecendo que nosso desejo de vir habitar no litoral era uma primazia?

O homem que reconhecer estar feliz onde está será tido como um louco ou um idiota, pois nunca poderá dizer: nada me falta, ou estou satisfeito com o que tenho ou recebo. Assim uma das consolações que temos é visitar um hospital, um asilo de velhos, e descobrirmos que a felicidade nossa é decorrente da comparação que efetuamos com esses seres que se encontram piores, ou visitar aquele amigo rico naquela grande casa em sua chácara e ver que por causa dos diabetes não pode comer doce gostoso,
e nós aqui vestindo bermudas e calçando sandálias havaianas nos deliciamos com as cocadas da baiana Guiomar.

Alfredo: Essa lamentação é em decorrência de nossa ignorância!
Miguel: Sim de acordo, tudo em decorrência de nossa ignorância ou de nossa má vontade em reconhecer o bem que já possuímos.
Isaura: Vamos indo que tenho que preparar o almoço.

Miguel: É isso mesmo vamos indo pois a maré já está enchendo demais. E lá se foram os quatro me deixando a sós com minha sumária bagagem. Penso que mais tarde voltarão, depois de fazer uma sesta, ou verem alguma partida na TV.

A preocupação com nosso viver, deveria influenciar escolas desde a nossa mais tenra idade, esse negocio de crescer trabalhar e ganhar dinheiro, não tem nada a haver com nosso viver intimo, deveríamos saber como enfrentar a tristeza, a decepção e até a raiva, fazendo assim de nosso viver uma felicidade.

O Filosofo Epicuro já nos dizia: o bem soberano é o prazer (ausência de dor, de mal-estar, sentir-se bem consigo mesmo). Para isso é necessário banir os objetos de medo e controlar os objetos do desejo.

Aquele que conseguir fazê-lo desfrutará de uma deliciosa ausência de perturbação (ataraxia).

O jovem é chamado para a guerra, em casa ele assistia TV, saía com os amigos, e levava a mãe ao mercado, agora se encontra com uma metralhadora na mão, aprende atirar com ela, a matar, e tudo isso estava dentro dele, foi despertado pela tecnologia militar. O outro foi ao Tibet e lá virou monge budista, despertando o que estava latente em sua alma. A jovem em casa reluta em ajudar a mãe, estuda e sai com suas amigas, engravida e vira uma mãe atenciosa, despertando qualidades que estavam adormecidas.

Temos em nosso interior em estado embrionário, todos os recursos para as defesas quando nas trombadas da vida, precisamos descobri-las e usa-las.

Às 17 horas todos voltaram, com suas bermudas e seus chinelos, sentaram-se no quiosque e começaram a conversar:

Miguel: Hoje tive um litígio com minha esposa.

Isaura: Por que?

Miguel: Estava difícil amarrar o sapato que irei ao casamento sábado, e ela me disse para eu comer menos

Isaura: Tem razão. Você tá com uma barriga e tanto!

Miguel: Você sabe porque depois de casado o homem engorda?

Isaura: Não.

Miguel: Por que o solteiro quando chega em casa da uma olhada na geladeira e vai direto pra cama, o casado por sua vez, da uma olhada o que tem na cama e vai rapidamente pra geladeira.

Isaura: Mas você é uma machista F. D. P.

Miguel: Tá vendo? Você também não tá entendendo a piada.

Isaura: Me poupe Miguel, me poupe, dou razão a Adelaide, ela é tão compreensiva!

Alfredo: Gente o que é isso? Vamos dar uma passeada a maré ta tão longe.
E lá fomos nós, ao termino de mais uma jornada.

 

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