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Crônica do Penna


Fumaça que se
esgarça no ar



texto Antonio da Cunha Penna
penna@silvaepenna.com.br 3875-3567


Posso estar enganado. Antigamente, quando nossa cidade era menor, algumas vezes ao ano lia-se nos jornais que alguém havia se matado. Pelo
menos aqui na “ex-terra dos indaiás”, se estaria abrindo mão dessa covarde... ou melhor, corajosa (nunca cheguei a uma conclusão) maneira de sair pela tangente.

Lula, por exemplo, se raspasse a barba e vestisse bombacha ficaria parecido um pouco com Getúlio Vargas; só faltando pôr um pijama e ...BUM! Sabe quando ele faria isso? Ninguém se mata quando a vida vira uma festa.

Sou contra o suicídio. Trago comigo um forte sentimento de que a vida deve fluir naturalmente sem drásticas mudanças. Deixar como está para ver como é fica. Prefiro sair devagar, de fininho, dando prioridade às coisas que me dão prazer, sem prejudicar quem está ao meu lado; em detrimento do que pode me prolongar a vida mas que, no entanto, me enche o saco.

Tenho o perfil de fumante e não fumo.
Por volta dos meus 17 anos, resolvi aprender a fumar. Comprei um maço de cigarros, pus no bolso da camisa e sai com ares de adulto. Lembro-me de que lançava mão de um deles, ficava sugando e assoprando a fumaça, fazendo todo aquele gestual de quem fuma e que eu achava e ainda acho bonito. Qual o que! As poucas vezes que tragava ficava de estômago embrulhado e com a incomoda sensação de que meus pulmões não conseguiriam se encher de novo com ar puro, uma vez que continuava a sentir a fumaça presa lá no fundo ao inflar o peito.

Desisti de vez ao reparar que alguns poucos rapazes mais velhos do que eu conseguiam passar ares de maturidade, responsabilidade, determinação e vontade de vencer sem precisar fumar. Fui ser um deles sem no entanto desenvolver fobia por cigarro ou por quem fuma.


Cada qual é dono de seu nariz e se mata como quer.
Pobre de quem fuma e ainda não morreu! Fazem parte de uma minoria em compasso de extinção que, além de ter de sustentar o danado do vício tem de, o tempo todo, ficar procurando “lugar para fumante”, na expectativa de a qualquer momento ser interpelado por algum ex-fumante que vê no ex-colega um bandido a ser regenerado. Se escapa desse ainda tem grande chance de cair na ira daquele que nunca fumou e se esquece de que a maioria dos fumantes ainda não conseguiu largar do maldito vício que o subjuga há tantos anos e, portanto, adquiriu o direito de cavar, de tragada em tragada, a própria cova; além de amargar, a cada cigarro, a tétrica visão daquelas figuras no verso do maço.

Muitas vezes, se reconhece um fumante, não pela marca de nicotina nos dedos e sim por sua cara de cachorro que quebrou o vaso, tamanha a culpa que carrega, como se, sozinho, fosse responsável pela poluição.

Um dia eu estava com um amigo (fumante inveterado) em um bosque na cidade mineira de Caxambu, mais precisamente sob um daqueles capitólios (?) de onde jorra água mineral. De repente, fomos abordados por um senhor. Cheio de si, indignado, ele aplicou uma raspança em meu fumegante companheiro: – “Este bosque é um monumento ecológico. O senhor, com esse seu cigarro, está quebrando a harmonia do lugar (...)”.

É claro que tomei as dores de meu amigo argumentando o contrário. Diante da irritação generalizada, o “messias ecológico” bateu em retirada a tempo de não ouvir que, para ele chegar até aquele paraíso, o veículo que o transportou já havia envenenado a atmosfera mais que meu defumado amigo a vida inteira.

É claro, existem os alérgicos à fumaça e na outra ponta o fumante. Cada qual com seus direitos e razões. O que mais predomina por aí é intolerância e hipocrisia.

Hoje, qualquer um sabe dos perigos das drogas, do álcool, do cigarro, da jogatina e da Aids. Bobo de quem se deixa cair numa dessas armadilhas. Não me iludo. Sempre houve e haverá quem o faça. Temos que aprender a conviver com as vítimas. Banidas da face da Terra ficaríamos livres de seus vícios mas também de suas virtudes. Restaríamos nós, os “puros” e “inofensivos”.

Que acenda o primeiro cigarro quem é só vício, que nos abençoe quem é só virtude.

 

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