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Doação de Amor


Pai doa um dos rins ao filho e prova por
que merece ser homenageado amanhã



 

:: Por CYNTHIA SANTOS

Um ato de amor incondicional. Assim pode ser definido o gesto de um pai que, ao ver o filho com um grave problema de saúde, não hesita em oferecer-lhe um órgão. Foi o que fez o tenente-coronel da reserva da Polícia Militar Carlos Augusto Maciel, em maio deste ano, ao doar um de seus rins ao filho mais velho, Augusto. Chamado carinhosamente de “Bob Pai” – personagem de antigo desenho animado idolatrado pelo filho –, Maciel é o típico progenitor que justifica o ditado “não basta ser pai, tem que participar”.

 

DE PAI PARA FILHO
Carlos Maciel e
o filho Augusto,
em casa, comemoram
transplante de rim realizado
em maio, em São Paulo


 

Casado há 28 anos com a dona de casa Solange, Maciel tem três filhos – além de Augusto, é pai de Carla, 25 anos, bacharel em Direito, e do estudante Nelson, de 19 anos. “São três presentes que ganhei de Deus”, reconhece.

Com uma longa carreira militar e atualmente à frente da Secretaria de Defesa e Cidadania (Sedec), Maciel poderia ser um daqueles pais autoritários e conservadores, que atuam apenas para manter o lar, sem maior participação na vida familiar. Mas o coronel garante que não é assim. “Hoje em dia se participa mais das coisas da casa”, explica. “Acho que meu maior aprendizado foi viver em família, pois nós sempre cultuamos a amizade, o respeito”, enfatiza.

Foi graças à harmonia familiar e principalmente por ser um pai zeloso que, sem pestanejar, Maciel doou um rim ao filho. O professor de computação Augusto Maciel Neto, 26 anos, nasceu com um problema de saúde congênito denominado refluxo vesico ureteral – basicamente uma infecção causada nos rins pelo retorno da urina à bexiga. Com um ano e três meses de idade, passou por uma cirurgia na bexiga e perdeu 50% da função renal. Teve ainda outro quadro agravante e os médicos queriam retirar os dois rins, mas sua mãe, Solange, não permitiu.

De um ano e meio até os 4 anos de idade, Augusto conviveu com infecções nos rins. “Com quatro anos tive o primeiro resultado de não infecção”, revela. “Os médicos diziam que no máximo com 15 ou 16 anos eu teria que ser submetido ao transplante.” Também diziam que o paciente não iria crescer muito e teria dificuldades de aprendizado. Erraram: ele tem 1m91 de altura e é formado em Ciência da Computação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu. “Minha mãe sempre explicou a doença e falava que eu era uma criança normal e que tinha que viver normalmente”, lembra.

Augusto teve uma adolescência tranqüila, sem problemas de saúde. Foi no segundo ano de faculdade, em 2002, que os sintomas voltaram. Ele passou mal na sala de aula e foi levado para um hospital. Lá constataram que sua pressão arterial estava alta. “Fiquei três dias internado e minha pressão não baixava”, conta. “Os rins não funcionavam direito e isso fazia a pressão subir.”

NÃO BASTA SER PAI Maciel, chamado carinhosamente de “Bob Pai”,
com Augusto recém-nascido e aos dois anos de idade

A cirurgia
O tratamento começou em 2002, mas a função renal de Augusto foi diminuindo. Em janeiro de 2007, caiu a 15%. “Voltei para Indaiatuba e comecei a me tratar com o doutor Marcelo Pinelli (nefrologista)”, relata. O médico o encaminhou para o Hospital do Rim e Hipertensão, em São Paulo, para verificar a possibilidade de transplante e os possíveis doadores. Os exames revelaram que tanto o pai quanto a mãe eram 100% compatíveis e poderiam ser os doadores. Na hora da escolha, optou-se pelo pai. “Minha mãe já havia tido três filhos, o peso do meu pai era mais compatível com o meu, então escolhemos ele”, explica. A burocracia para a realização da cirurgia levou quase cinco meses.

Nesse período, a função renal de Augusto caiu a 3% e, por conta disso, teve perda de peso, vivia deitado e começou a passar por hemodiálise.
A cirurgia, considerada a segunda data de nascimento de Augusto, que aniversaria em 2 de setembro, ocorreu no dia 2 de maio, no Hospital do Rim. O professor revela que não sentiu medo. “Faz oito anos que o hospital é líder mundial no setor, a infra-estrutura é de primeiro mundo”, justifica.

Dois dias depois da cirurgia, Maciel teve alta. A recuperação do filho foi mais lenta. “Tive muita sorte, porque tive que tomar muito soro, cortisona, medicamentos anti-rejeição e quase não tive efeitos colaterais”, conta.
O professor reconhece a importância do ato do pai, em doar um dos rins para o filho sem hesitar. “Ouvindo as histórias, fiquei assustado, porque, em geral, quando ficam sabendo que a pessoa precisa de um doador, os familiares se afastam”, explica. “No meu caso não teve questionamento, meus pais só perguntaram entre eles ‘quem vai?’. Foi uma benção mesmo, um ato de amor.”

O sofrimento do pai, ao ver o filho passando por problemas de saúde, como na época da hemodiálise, não foi esquecido por Augusto. “Eu via a cara do meu pai, percebi a impotência que a gente fica quando alguém querido está passando por uma dificuldade”, lembra. “Isso foi marcante.”

O pai revela que em nenhum momento sentiu medo de ser o doador, não apenas de um rim, mas de uma nova oportunidade de vida para o filho. “Sempre transmitimos confiança um para o outro, fomos tranqüilos para o hospital”, conta. Maciel diz que encarou a cirurgia apenas como mais uma oportunidade de participar da vida do filho. “Um ser supremo colocou a mão e abençoou a gente”, emociona-se.

Origem do Dia dos Pais
O Dia dos Pais não é apenas uma data comercial. Ele realmente foi criado com o intuito de prestar uma homenagem. O primeiro Dia dos Pais foi comemorado no dia 19 de junho de 1910, em Spokane, Washington, Estados Unidos. No Brasil, a data tornou-se oficial em 1953.

A comemoração surgiu nos Estados Unidos, quando a jovem Sonora Louise Smart Dodd propôs estabelecer a data à Associação Ministerial de Spokane, pois queria um dia especial para homenagear o pai, William Smart, veterano de guerra que viu sua esposa falecer em 1898 ao dar à luz ao sexto filho. Sozinho, o pai teve que criar o recém-nascido e seus outros cinco filhos
Pouco tempo depois, a comemoração já havia se espalhado por outras cidades americanas. Em 1972, o presidente Richard Nixon proclamou oficialmente o terceiro domingo de junho como Dia dos Pais.

No Brasil, a data é celebrada no segundo domingo de agosto e foi festejada pela primeira vez no dia 14 de agosto de 1953. A comemoração foi importada dos Estados Unidos pelo publicitário Sylvio Bhering e teve sua data alterada de junho para agosto por motivos comerciais.

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