Cerâmica Shanadu

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Atire a primeira pedra
quem nunca fofocou
Silvia Bolívar

Falar (mal) dos outros parece ser um dos “esportes” preferidos na maioria dos países. Existe uma verdadeira indústria por trás da fofoca profissional: revistas especializadas, programas nas tardes (Leão Lobo e Nelson Rubens são emblemáticos) e, hoje em dia, a internet, que agiliza, e muito o espalhamento de boatos – verdadeiros ou não.

Nas grandes metrópoles as fofocas ficam mais setorizadas (em condomínios, rodas de amigos). Já em cidades menores, cada fato ganha dimensão imediata, com todos se telefonando ou ouvindo as notícias nas rádios locais. Dois programas da Rádio Jornal são propagadores de notícias (ou fofocas...): o de Aydil Bonachela, que fala das coisas erradas (e boas) que acontecem aqui. O de Manoel Miranda sacia a curiosidade de quem quer saber as novidades criminais, “principalmente quando envolve gente graúda”, segundo o repórter. Em Indaiatuba o local onde mais se fofoca é sem dúvida a Stalden, que coincidentemente fica perto da Câmara Municipal e do Fórum. Embora neguem peremptoriamente, homens são tão ou mais fofoqueiros que as mulheres. Pelo menos, na Stalden eles são maioria.
O local foi até apelidado de Boca Maldita pelo colunista José Miranda, da
Tribuna de Indaiá
.

E as mulheres, onde fofocam em Indaiatuba? Nos salões de beleza, em academias de ginástica, em rodas de amigas e até em velórios. Mas fofoca-se basicamente pelo telefone. Um caso ilustra bem o uso do aparelho de Graham Bell para espalhar fuxicos: na década de 80 a esposa de um conhecido empresário foi flagrada num carro com outro homem. Logo, a rede de intrigas foi acionada, com telefonemas seqüenciais, e o homem foi logo tachado de amante. Na verdade, tratava-se do irmão da esposa, que veio visitá-la depois de muitos anos. “Eu achava estranho porque, de repente, começaram a me olhar de um jeito esquisito. Só entendi quando foram fofocar para o meu marido que eu estaria andando com meu ‘amante’ por aí. Puxa, era meu irmão”, desabafa Maria Helena (nome fictício).

A fofoca é muito antiga, milenar. Um ditado chinês dizia que um aspirante a monge indagou a seu mestre o que fazer para chegar lá. Como o rapaz era muito falastrão o mestre pegou um travesseiro, abriu-o e as penas começaram a voar para todos os lados. O mestre mandou, então, que o rapaz recolhesse todas as penas, aí, sim, ele ensinaria o caminho. - Como vou poder pegar todas as penas se elas voam longe?, indagou o rapaz. E o mestre lhe disse que os boatos que ele havia contado eram tão irrecuperáveis (para as pessoas atingidas) como as penas.


POR PROFISSÃO

Uma jornalista sugeriu a seu filho adolescente que
cursasse faculdade de comunicação social. A resposta foi uma tijolada: “O que? Vocês jornalistas são fofoqueiros profissionais”. E não é que o garoto tem razão? De fato, a função do jornalista é pegar um fato (notícia) e divulgá-lo para a comunidade, país, mundo. Mas a fofoca, na acepção ruim da palavra, não existe, uma vez os jornalistas escrevem sobre acontecimentos, sem esquecer de checar a veracidade e tendo o bom senso de evitar dados íntimos. O fofocador profissional é antigo, tinha o nome de pregoeiro. Na Idade Média e no Brasil dos séculos XVII e XVIII as notícias eram dadas pelo pregoeiro em praça pública, num palco chamado de pregão. Todos os habitantes iam para o local ouvir as novidades que normalmente eram lidas uma vez por dia.

PROPÓSITO
O boato pode ter finalidades piores do que atingir a honra de uma pessoa. A simples menção de que determinada empresa não está bem das pernas pode fazer com que ações caiam, ou até ser evitada. Um bar ou lanchonete pode receber a pecha de ser voltado para o público gay (e na verdade não ser). Com isso, alguns freqüentadores deixam de ir ao local. Quem lucra? A concorrência, é claro. Quando Buratti resolveu citar o ministro Antônio Palocci como beneficiário de um suposto “mensalão” pago quando era prefeito em Ribeirão Preto o dólar subiu três pontos percentuais e a bolsa despencou.
Já a fofoca de cunho pessoal visa a denegrir a “concorrência”. Esse estratagema é mais usado pelas mulheres, que não esquecem de dizer que fulana tem celulite, que trai o marido ou que dá cano em butiques. As fofocas masculinas podem ser vulgares ou malvadas. Eles comentam sobre mulheres, como se comportam na cama ou se chifraram os maridos. Falam também de política nacional e, principalmente, municipal. Os problemas empresariais de conhecidos também são revelados. E ai de algum pai que tenha filho gay...

FAZ BEM
Fofoqueiros, nem tudo está perdido. Um livro escrito pelas psicólogas italianas Luisa Cuni e Elena Mora revela dados curiosos da pesquisa feita pela dupla. O mais importante deles: fofocar faz bem à saúde. “É um antídoto contra a monotonia e solidão, rejuvenece e melhora o humor”, afirma Luisa. “É melhor que botox”, exagera Elena, explicando que ao sorrir os músculos do rosto são exercitados, promovendo uma saudável ginástica facial. Mas nem toda fofoca provoca riso. Ao contrário, algumas são bem perigosas e de difícil retorno. Um caso profissional (jornalistas = fofoqueiros) emblemático é o da Escola Base de São Paulo, cujos diretores foram injustamente acusados de molestar crianças. Tudo não passou de invenção e difamação por algumas mães. Logo o país assistia horrorizado os três proprietários sendo interrogados. A vida pública e profissional deles acabou. E era tudo mentira.
Se fofocar faz bem, então da próxima vez comente apenas fatos positivos, sem prejudicar ninguém. Fale sobre políticos, sim, mas aponte uma saída, uma solução. Quem sabe a gente pode até solucionar algum problema?

ENTENDA BEM
O QUE É FOFOCAR


1 – Fofoca / Mexerico
(intriga, bisbilhotice). Não é considerada crime.

2 – Mentira Afirmar coisa que sabe ser contrária à verdade. Só é crime se a mentira acarretar fatos passíveis de ir a juízo.

3 – Calúnia Falsa ou injusta imputação a alguém de um fato definido como crime. O termo vem do latim, calumnia. O crime pode até dar prisão. A calúnia não se confunde nem com a difamação nem com a injúria, outros dois crimes contra a honra. A calúnia fere a moral da vítima. Exemplo: O deputado Tal usou verba de traficantes em sua campanha eleitoral.

4 – Difamar Tirar a boa fama ou o crédito de algo ou alguém; desacreditar publicamente; infamar, detrair. Imputar a (alguém) um fato concreto e ofensivo de sua reputação. A difamação (do latim diffamare) significa desacreditar. O crime consiste em atribuir a alguém fato ofensivo à sua reputação de pessoa fiel à moralidade e aos bons costumes. Na difamação o que se busca é desacreditar a vítima, embora sem apontá-la como autora de fato criminoso. Exemplo: O deputado Tal costuma freqüentar festinhas de cafetina.

5 – Injúria O termo vem do latim injuria, de in jus, injustiça, falsidade. Trata-se de um crime contra a honra e consiste em ofender, verbalmente, por escrito, ou fisicamente (injúria real), a dignidade ou o decoro de alguém. A injúria ofende o moral, abate o ânimo da vítima. A injúria pode ser manifestada não apenas mediante palavras, mas também por gesticulações. Exemplo: O deputado Tal é um ladrão.
 

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