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PSSSSIU ! ! ! !


texto Antonio da Cunha Penna
penna@silvaepenna.com.br 3875-3567

“No princípio, Deus criou os céus e a Terra. A Terra, porém, estava informe e vazia; as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas”.
Impossível um início de livro mais bonito! Para quem não sabe (e poucos não sabem), é assim que começa a Bíblia.

“...E o Espírito de Deus pairava sobre as águas”; essa imagem tranqüila e terrivelmente bela, é para mim a mais perfeita tradução do que possa ser o silêncio.

Acredito; Deus estava feliz e não sabia, até que criou o homem, o ser mais barulhento da face da Terra. Caramba!, com a idade (e agora posso falar assim sem soar falso), não sei se estou ficando mais impaciente ou, à medida que lenta e gradativamente vou ficando surdo, os sons estão me soando cada vez mais altos e insuportáveis.

É impressionante o quanto esta nossa vida urbana nos expõe à aberrações sonoras. Agora mesmo, 6h50min da matina estou ouvindo ao longe o ruído de um caminhão subindo ladeira. Tenho pena de quem está em seus arredores e tenta dormir.
Tenho especial bronca pelo ruído exagerado de motocicleta. As reguladas ou com escapamentos normais são perfeitamente aceitáveis; outras conseguem num curto espaço de uma quadra provocar meus piores instintos, como disse Roberto Jefferson a José Dirceu. Geralmente, quando cruzo, com um desses pobres complexados, rezo para que se es-borrache na primeira esquina, uma vez que existe legislação para isso mas ninguém dá a mínima. O que também me espanta é quando passa um carro, geralmente com os vidros levantados, bufando pelas frestas imbecilizantes sons de bate-estaca e com o poder de trepidar vidraças. Não sei! Duvido que não revire os miolos de quem se expõe a isso. Quando com vidros abertos se transformam em verdadeiros trios- elétricos que seguem sem cabimento nenhum nos impondo seu gosto musical de Brucutu.

Aqui em nossa cidade tem uma espécie de “quadrilátero das Bermudas”, onde “some” o bom senso. A Praça D. Pedro II é, seguramente, o quarteirão mais barulhento de Indaiatuba. Somam-se à zoeira normal do trânsito um serviço de alto-falantes local e algumas casas comerciais com seus reclames. Sábado desses, além de tudo isso, tinha dois carros-de-som ambulantes dando volta olímpica; cada um berrando seus recados numa balbúrdia sonora generalizada. Zonzo, segui sem entender nada.

Em se tratando de barulho a oferta é grande e variada. Tem cachorro que segue enlouquecendo vizinhos madrugadas afora, clubes e casas noturnas que extrapolam. Ninguém gosta de música mais do que eu, no entanto já levantei de bares e restaurantes antes da hora, no momento em que o cantor empunhou a guitarra ou meteu os dedos nos teclados. Não há Tom Jobim que me segure quando não me deixam conversar. Quem vai a um bar, restaurante ou mesmo a bailes, não vai só para comer ou dançar, quer principalmente conversar e não trocar berros de veia estufada. Está cada vez mais raro baile ou festa que respeite nossos tímpanos. Não sei quando esta praga começou, concluo que no fim da década de 1970, quando explodiu a onda disco. De lá para cá foi sendo exigido sons cada vez mais altos que já resultaram em pelo menos uma geração de surdos. Creia-me, atrás de toda mesa de som, noventa por cento das vezes, tem um semi-surdo comandando a parafernália. Cabe aos que ainda ouvem, dar-lhes o parâmetro do razoável. A praga está tão generalizada que já chegou às igrejas e olha que na Bíblia não consta que Deus seja surdo. Dia desses estava fotografando um casamento numa cidade vizinha. Antes da noiva chegar tiveram a feliz idéia de recepcionar os convidados com música erudita. Tudo certo se não fosse o volume de discoteca. O povo que era para estar sussurrando, automaticamente passou a conversar alto. O que é uma casa de oração mais parecia um mercado de peixe ou bolsa de valores. Outra novidade incômoda é a moda de tocar trombetas para recepcionar a noiva. Quando a porta da igreja é aberta, duas verdadeiras buzinas de carreta ressoam num volume que talvez não soasse tão agressivo caso fosse numa espaçosa catedral gótica. O problema é que nossas igrejas não são tão grandes. Resta-nos a dúvida: quem vai adentrar pela nave é uma noiva comum, Cleópatra ou rainha de Sabá?, como num daqueles filmes épicos exagerados do século passado.

Em 20 de agosto passado, tivemos na Igreja Matriz o Concerto de Cravo e Voz. Sentei-me num dos últimos bancos. Apreciei cada nota daquele raro momento de delicadeza, prova de que na maioria das vezes os microfones são perfeitamente dispensáveis.

Li na Enciclopédia Delta que o som da decolagem de um avião a jato (mais ou menos 120 decibéis) é um milhão de vezes mais intenso do que o som da conversação normal, que fica por volta de 60 dB. Um show de rock está entre 100 a 160 dB. O “limiar da dor” está em torno de 130, daí para frente tudo se torna ruído. Algo deve estar errado ou sou eu quem está ficando ranheta?

Deus meu! Se for para continuar assim é melhor que o Senhor zere tudo e volte a pairar sobre as águas. Quero ir junto. Quem tiver bom senso que me siga, mas pelo amor de Deus, em silêncio.

 

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