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Essa brincadeira não tem graça

Mariana Amaral

Dia 27 de janeiro de 2003, 15h: uma escola estadual da pacata cidade de Tiúva (SP), os alunos estavam no pátio lanchando, quando Edmar Aparecido Freitas,18, saltou o muro e, sem dizer uma única palavra, o ex-aluno atirou em todas as direções. Munido com um revólver calibre 38 e 105 balas o rapaz feriu oito pessoas, entre alunos e funcionários, e se matou em seguida. O motivo dessa barbárie? Vingança. Na escola, Edmar era alvo de gozações por ser obeso. Era o “gordo”, “mongolóide”, “elefante cor-de-rosa” e “vinagrão”, por tomar vinagre de maçã todos os dias, no seu esforço para emagrecer.

Quem nunca zoou ou foi zoado na escola? Todo mundo! Apelidar de baleia, chamar o outro de quatro-olhos, isolar os que não podem ter o tênis da moda, por exemplo, é muito comum, considerado até normal por muitos pais e professores, que às vezes relegam o problema. “Quando o aluno sofre algum tipo de perseguição no colégio e resolve conversar, nem sempre recebe a atenção que necessita, pois a escola não acha o problema grave e deixa passar”, esclarece a psicóloga Ana Lúcia Silva Lembo. Só que de um tempo pra cá a coisa mudou, essa “brincadeirinha” passou a ser chamada de bullying, palavra inglesa que traduzida significa intimidação. Quem sofre com o bullying, é aquele aluno perseguido constantemente, como Edmar. Em Indaiatuba nunca ocorreu nenhuma tragédia por conta do bullying, mas que ele acontece isso a gente sabe. Por isso o Colégio Objetivo está desenvolvendo com os alunos um projeto de conscientização “queremos que os estudantes se ponham no lugar das vitimas do bullying e sintam que seu colega ao lado pode estar sofrendo devido às constantes chacotas”, informa a diretora e coordenadora pedagógica Liliana Martoni Salomão que entrou na luta contra o bullying em sua escola.“Não dá para fingir que o problema não existe”, diz.



Colégio Objetivo está desenvolvendo junto
com os alunos um projeto de conscientização sobre o bullying

Quantas vezes já presenciamos o bullying e demos risadas? Ou até tiramos sarro daquela menina feiosinha? Mas não pense que isso acontece só no seu colégio, o bullying é um problema mundial em toda e qualquer escola. O principal alvo desses “engraçadinhos” é o aluno que tem poucos amigos, que é quieto e não reage às ofensas. Mas não há quem agüente ser humilhado diariamente por meses ou anos! Muitos passam a ir mal na escola, fingem que estão doente para não sair de casa, ou chegam a cometer loucuras, como Edmar. Em 1999, nos EUA, na escola Columbine, dois alunos impopulares atiraram e mataram13 pessoas, entre colegas e professores, e em seguida se suicidaram, o caso virou premiado filme de Michael Moore. Casos como esse são raros, mas podem acontrecer. Por isso, é bom estar atento. Por medo ou vergonha, vitimas do bullying sofrem em silêncio

Veja o que é considerado bullying
pela Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção
à Infância e à Adolescência (Abrapia)

– Colocar Apelidos – Ofender
– Zoar – Gozar – Encarnar
– Humilhar – Fazer Sofrer
– Discriminar – Excluir – Isolar
– Ignorar – Intimidar – Perseguir
– Assediar – Aterrorizar – Amedrontar
– Tiranizar – Dominar – Agredir
– Bater – Chutar – Empurrar
– Ferir – Roubar – Quebrar Pertences
ALGUNS FILMES SOBRE O TEMA

Meninas Malvadas

Ao retornar à sua cidade natal, uma garota sente na pele o mal que a língua venenosa de suas novas colegas pode causar. Para vingar-se, a adolescente passa a agir da mesma forma.




Nunca fui beijada

Uma jornalista recebe a missão de fazer uma reportagem sobre o comportamento dos adolescentes na escola. Só que a moça nunca foi beijada. O filme mostra como a protagonista vira motivo de chacota para seus colegas.


Tiros em Columbine
Documentário investiga a fascinação dos americanos pelas armas de fogo e busca respostas visitando pequenas cidades dos EUA, onde a maior parte dos moradores guarda uma arma em casa. Entre essas cidades está Littleton, no Colorado, onde fica o colégio Columbine. Lá os adolescentes Dylan Klebold e Eric Harris, que estudavam na escola, devido as perseguições assassinaram seus colegas.

Elefante
Filme baseado na tragédia da escola Columbine, o filme relata a história de um dia na vida de alguns adolescentes através de
um jogador de futebol americano, uma menina rejeitada, uma garota popular que vomita no banheiro com as amigas, um fotógrafo amador, entre outros, e culmina num grande
e marcante massacre.
AS VÍTIMAS
Já sabemos que quem cai nas “graças” da turma são os mais fraquinhos, tímidos e obesos, perseguidos sempre pelos mais fortes e extrovertidos. “Na maioria das vezes os meninos são agredidos principalmente por meninos. Eles são bem explícitos, tiram sarro dos outros na frente de todo o mundo. Já as meninas são agredidas tanto por eles quanto por elas que, apesar de sutil, excluem a colega e com uma fofoquinha ali, uma esnobada aqui, vão colocando em prática sua maldade. Nesse caso, a vitima não consegue identificar o motivo pelo qual a turma se afastou e por isso se sente culpada, explica Ana Lúcia. Os colegas (testemunhas do bullying) apesar de repudiarem esse tipo de brincadeira, não fazem nada para defender os que são perseguidos, com medo de serem os próximos alvos.

Temendo ser ainda mais agredida, a vítima não conta nem aos pais, muito menos aos diretores da escola o que está passando. Estudos de psicólogos e pesquisadores demonstraram que as crianças que foram alvo dessas brincadeiras sem graça apresentaram os mais diversos distúrbios no decorrer do tempo como depressão, baixa auto-estima e aguçado sentimento de vingança.

Além de ataques de violência contra si e contra os responsáveis pelas ridicularizações. “Quando as ofensas ficam insuportáveis, a criança pode usar mecanismos de defesa nem sempre saudáveis, para sanar a sua dor, vemos exemplos trágicos nas escolas dos EUA”, diz a psicóloga Renata Fittipaldi, atuante nas áreas clinicas e escolar.

Os que praticam essa agressão não nascem com um “gene do bullying”. Isso não é um defeito de fabricação. Algumas pesquisas sugerem que essas crianças vêm de famílias agressivas, desestruturadas que não mantêm um bom relacionamento e muitas vezes sofrem violência doméstica. Já adulto, o agressor tende a ser anti-social e agressivo, se envolvendo em atos delinqüentes e criminosos.

Para quem é vitima de algum tipo de humilhação, a saída é se abrir para um professor que confia, ou mesmo para seus pais. Mas se você tem vergonha ou medo de contar o que está acontecendo, vale sugerir à coordenação da escola que faça um programa de conscientização com os alunos.

Você pode, por exemplo, dizer que tem visto alguns colegas sofrendo com o bullying, e que seria ótimo alguém para conversar com todos, alertando sobre esse mal. E você que se acha muito “engraçadinho” fazendo chacotas dos seus colegas, pare um pouco e coloque essa sua cabecinha de vento para funcionar. Ponha-se no lugar das pessoas que você chateia, para ver como é dolorido ser humilhado! O bullyng pode deixar seqüelas na vida adulta.
ORIGEM
Há dez anos na Europa o comportamento dos jovens que tentavam ou cometiam suicídio começou a ser estudado. Foi então que descobriram que grande parte desses jovens sofria perseguições na escola. A partir desse momento de boba a brincadeira tornou-se muito séria.
Elegantes Teen
Renata
dos Reis
15 anos

Como tem
charme essa loirinha!
E ela tem
muitos fãs.
Seus amigos
elogiam também sua personalidade marcante, sua solidariedade e presença
de espírito
Bruno
Lima
13 anos

Miau! Ele é
um gatinho que muitas meninas querem fazer cafuné.
O pessoal elogia seu jeito de
ser, bem característico
e espontâneo.
É charmosíssimo
Bruna Almeida
de Oliveira
12 anos

Os garotos falam
que ela é uma graça. Bonita e elegante,
ela sabe arrasar
corações.
Só que ela nem
está aí, sabe que
tem um futuro
legal pela frente
 
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