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Crônica do Penna


De volta ao
paraíso



texto Antonio da Cunha Penna
penna@silvaepenna.com.br 3875-3567


O homem nunca se conformou de ter sido expulso do paraíso. De lá para cá vem fazendo
de tudo para tornar sua vida agradável a qualquer modo, desde que o aproxime o máximo do que pensa que foi o Jardim do Éden. Lendo o episódio no Gênesis fica difícil não pensar que a paz realmente acabou foi depois que Deus criou a mulher. Antes (a Bíblia não diz), vagávamos até que felizes pelo Jardim das Delícias fazendo sei lá o que !? Justiça seja feita. Fomos nós que pedimos ao Senhor a tal ajudadora; estamos sempre reivindicando coisas!

É quase certo que sentimos uma ponta de vingança enquanto o Senhor, em tom repreensivo, dizia à mulher: “Multiplicarei o sofrimento do teu parto; darás à luz com dor teus filhos; teus desejos te impelirão para o teu marido e tu estarás sob o seu domínio”. Nem desconfiávamos de que logo em seguida sobraria para nós: “Porque ouviste a voz de tua mulher e comeste o fruto da árvore que Eu te havia proibido comer, a terra será maldita por sua causa. Tirarás dela com trabalhos o teu sustento todos os dias de tua vida (...). Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e em pó te hás de tornar”. Quer saber?, acho que apesar da nossa “pisada de bola”, o Senhor nos quebrou o maior galho cuidando para que não estendêssemos as mãos, tomássemos do fruto da árvore da vida e passássemos a viver eternamente. Ser eterno no Jardim das Delícias poderia ter sido tudo de bom; fora dele, neste vale de lágrimas em que transformamos isto aqui?; por mais paradoxal que seja só é razoável porque tem fim.

A mulher, a despeito de ter nos tirado do Paraíso, acabou sendo um ótimo negócio; nós dá prazer, trabalha dentro e fora do lar, traz à luz a espécie, entre outras utilidades, mas estão devagarinho tomando para si o nosso secular poder. Quem sabe se a longuíssimo prazo não reaveremos nossa mamata inicial; se bem que isso é outro assunto.

Espertos que somos, tratamos de correr atrás do prejuízo e passamos a inventar coisas sem parar, tentando minimizar as dificuldades impostas por esse negócio matreiro que é a vida. Haja imaginação: dominamos o fogo porque comer coisas cozidas, assadas ou fritas, além de macias, ficam mais saborosas. A roda, então, fez tudo andar. Inventamos a flecha (se bem que para o míssil foi um pulo). Mas também fizemos o arado, a escrita, enxada, a foice, o martelo, o prego, o machado, a porcelana, o papel, a imprensa, o relógio, o tijolo, o cimento, os óculos, o microscópio, a fotografia, o termômetro. Dominamos a eletricidade, com ela veio o telégrafo, a lâmpada, o telefone, a máquina de costura, o elevador, a geladeira, o rádio, o aparelho de ar condicionado, a TV, o gravador, o CD, o DVD, o fax, o aparelho de raio x. Inventamos a bomba atômica e a moto-serra... bem, mas tem a injeção, o fogão a gás, o liquidificador, o satélite, a anestesia, o computador, o telefone celular, a fita adesiva, o papel higiênico, o alfinete, o grampo, o pente, o clipe, o zíper, o batom, a peruca, o modess, o silicone, o palito. Criamos a filosofia, a matemática, as religiões, a psicologia, astrologia, a numerologia, o esoterismo e mais a apometria, a equoterapia, geoterapia, bioeletrografia, neuroterapia, o eletrochoque, a pena de morte, o cigarro, as drogas... e ufa!!!, quase reconstruímos o paraíso, apesar do medo e da solidão.

Inventamos a internet, o e-mail, as comunidades on-line, Orkut, MSN, o site... ah! o site! Temo que a qualquer momento comece tudo outra vez com a volta d’O TABU.

Promessa de olhos bem abertos a quem o acessar e, como um deus, passar a conhecer o Bem e o Mal. Anote ai: www.arvoredavida.com Enquanto isso não acontece, um sorriso de criança, um canteiro de miosótis, uma paisagem surpreendente, momentos sublimes da música, das artes plásticas, do cinema, do teatro, da literatura, enfim, da criatividade humana em geral; até mesmo uma talagada de cachaça, um franguinho com quiabo ou um pratinho de arroz doce com canela, são vestígios do Éden. Provas incontestes de que Deus existe.

 

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