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Dia dos Animais
CRUELDADE PODE DAR CADEIA

Grupo de Indaiatuba faz valer lei estadual
que proíbe rodeios e circos com animais

Silvia Bolívar

Indaiatuba parece ser uma cidade que gosta dos bichos. Pelo menos é essa a impressão que se tem ao ver a proliferação de clínicas veterinárias, pet shops e casas de ração e mimos para os melhores amigos dos seres humanos. E também pela atuação aguerrida de três associações – a Protetora dos Animais (Aprai), a Voluntária Amigos dos Animais de Indaiatuba (Avaai) e a União Protetora dos Animais de Rua (Upar).

A novidade é o surgimento de um grupo que promete muita ação para proteger nossos “irmãos”. É o Grupo Libertação Animal de Indaiatuba, que fez sua estréia num ambiente hostil. Mais de 40 manifestantes colocaram faixas e distribuíram panfletos na abertura e encerramento da 1ª Festa do Peão de Indaiatuba. O objetivo era mostrar que rodeio é uma atividade cruel para cavalos e bois. “Não fomos bem aceitos, é claro, mas no domingo, quando a presença de famílias foi maior, tivemos boa recepção” explica o estudante Weverson da Silva, 20, que junto com os amigos Rafael Barbosa, biólogo, 21, e o aeroportuário Hugo Milani, 20, idealizaram o grupo que vai se tornar uma organização não-governamental (ONG), que irá atuar, entre outras atividades, na conscientização das crianças para a preservação da fauna e flora.

Os três são vegans – filosofia de vida que rejeita a alimentação e uso de qualquer produto de origem animal. “Gostamos tanto dos bichos que nos tornamos não só vegetarianos, mas vegans”, brinca Hugo, acrescentando que o movimento tem ganhado adeptos no mundo todo. Rafael lembra que uma nutrição equilibrada pode ser totalmente obtida com vegetais. “A soja é um exemplo”, diz.

De fato, os animais são torturados de muitas maneiras, que podem passar despercebidas. Além dos rodeios e touradas (ou, no Brasil, a nefasta Farra do Boi) animais de circo sofrem muito para aprender as gracinhas no picadeiro (leia relatos no box). Na próxima terça, 4 de outubro, comemora-se o Dia dos Animais, em alusão ao protetor da fauna e da ecologia, São Francisco de Assis (nascido em 1182 e morto em 3 de outubro de 1226). Em boa hora o governador Geraldo Alkmin promulgou lei estadual – que entra em vigor no dia 9 de outubro e abrange todos os 645 municípios de São Paulo. Polêmica, a Lei 11.977 de agosto de 2005 estipula regras e penalidades para maus-tratos contra animais, além de abate humanitário, critérios para pesquisas e regulamentação do uso de animais como tração (charrete, carroças, etc.), entre outros artigos. Proíbe terminantemente não só rodeios e rinhas, mas a apresentação de circos que contenham animais como atração.

Faz bem
Os bichos são considerados nossos irmãos espirituais e a ciência já comprovou os benefícios que animais domésticos promovem em pessoas com doenças físicas ou mentais. Eles são levados até em UTIs como forma de acelerar a recuperação de pacientes. Cachorros são ótimos companheiros para crianças e pessoas idosas. Mesmo assim, ainda há muita gente que desconta nos bichos sua raiva ou frustração, ferindo-os de forma cruel. Maus-tratos e abandono são crimes previsto no código penal e podem dar até quatro anos de cadeia, além de multa. “Atualmente casos menos graves têm recebido pena de serviços alternativos ou doação de cestas básicas”, explica o delegado titular de Indaiatuba Carlos Augusto Semionatto, acrescentando que a ocorrência de registros sobre o assunto acontece de forma esporádica.

Para Nazareth Blume, da Aprai, a maldade do ser humano é difícil de acreditar. “Já recolhemos cadelas estupradas e tivemos que chamar a polícia para resgatar cachorros que ficavam presos a correntes sendo alimentados apenas uma vez por semana”, relata. Em geral são os vizinhos que fazem a denúncia. “Foi o caso de uma cadela cujo dono ‘descontou’ sua raiva jogando óleo quente no animal. Conseguimos retirar a cadela do local, ela teve que ficar internada por três meses e hoje vive muito feliz com uma família que a adotou”, completa Jô Olmedo de Morais, da Avaai.

Circos que chegam a Indaiatuba atraem muitas pessoas justamente por exibirem animais exóticos. Boato – que se comprovou verdadeiro – dizia que quando um circo se instalava na cidade começavam a sumir cães e gatos. Os bichos – dados vivos - serviriam para alimentar as feras. Veterinários consultados pela reportagem foram unânimes em dizer que a prática de maus-tratos está longe de terminar – em circos ou no cotidiano da cidade. O lado positivo é que muita gente passou a denunciar maldades contra os animais. Afinal, segundo Magri, “bicho também é gente”.

Eles encantam platéias, mas o que pouca gente sabe é que as gracinhas só aparecem depois de treinamentos cruéis. ONGs que protegem animais revelaram algumas torturas a que são submetidos os animais de circo. Os famosos ursos dançarinos, por exemplo, são obrigados a pisar em chapas de metal incandescente ao som de uma determinada música.

No picadeiro, os ursos ouvem a música usada durante a tortura e começam a se movimentar, dando a impressão de estar dançando, mas na verdade apenas se lembram das chapas quentes e automaticamente começam a erguer as patas. O domador de leões acerta o chicote na ponta dos dedos ou no lombo dos animais. Os macacos são chutados e apanham com chicote e pauladas na face. Muitos têm seus dentes arrancados. Os elefantes, acorrentados, apanham com cabos de machados e paus com ganchos e são freqüentemente agarrados com instrumentos pontiagudos pelas trombas, pernas traseiras e orelhas. Todos levam choques elétricos no treinamento. Os animais de circo trabalham por medo!

Um treinador contou a seguinte história: “Faltando apenas duas semanas para a noite de estréia tínhamos que trabalhar rápido e preparar os elefantes para a apresentação... A mais jovem era muito tímida e assustada. Um dia, a colocamos na arena para treinar. Ela não conseguia realizar os truques e fugiu. A pegamos e a trouxemos de volta, forçamos para que se abaixasse e começamos a castigá-la por ter sido tão tola... De repente, paramos de bater e olhamos um para o outro. Ela chorava como um humano, largada e deitada de lado, lágrimas escorriam de seus olhos e soluçava desesperadamente.”
 

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