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Tratamento não exclui emoção
Para médicos ‘’sentir é obrigação; demonstrar é opção’’
Silvia Bolívar

A classe médica de Indaiatuba comemora este mês não só o Dia dos Médicos, mas os 20 anos de fundação da Associação Paulista de Medicina – Regional de Indaiatuba. Para pacientes, médicos podem ser endeusados – ou detestados – embora estes não concordem com nenhuma das opções. Muitas vezes, a morte de um ente querido não é assimilada e a família procura uma justificativa.

Os médicos ironizam de forma amarga esse estado emocional dos familiares: “Quando cura, é Deus; quando morre, é o médico”. Nem sempre há clareza de sentimentos. “Nós estudamos para aliviar o sofrimento das pessoas. Esse é o nosso objetivo e sempre vamos fazer o possível para curar ou aliviar doenças ou traumas”, assegura o ortopedista José Inácio Travizanuto, 56, que atua em Indaiatuba deste 1978 e é um dos sócios do CTO.

Ele acrescenta um detalhe interessante que pode passar desapercebido para os pacientes em geral: “a gente fica emocionado com certos casos”. A emoção, entretanto, pode ser positiva ou negativa. “Após cirurgias difíceis, quando damos alta aos pacientes e os vemos curados, bate aquela emoção”, confessa. “É impossível não se emocionar quando nos deparamos com uma morte ou um grande sofrimento”, revela o ginecologista e obstetra Luís Antônio Pedrina, 59, atendendo em Indaiatuba desde 1974. E ele resume o sentimento dos médicos de modo exemplar : “Sentir é obrigação. Demonstrar é opção.”


Dr. Fernando Costa
e mulher, a enfermeira
Vera


O pediatra Fernando Costa, 58, completa: “atrás dessa carapaça existe um coração que chora ou ri”. Ele ainda revela que a impressão de que os anos “endurecem” o coração de um médico é falsa. “Todas as vezes em que pacientes morreram devido a doenças incuráveis fiquei com um nó na garganta”, diz.


Caixão

Um caso que marcou o pediatra – até pelo inusitado da situação – foi a emissão de um atestado de óbito quando o corpo já estava no caixão. A criança havia falecido porque seus pais, evangélicos, não permitiram fazer transfusão de sangue e pediram alta médica. A paciente foi levada para casa e mais tarde, morreu. “Como a funerária só podia realizar o enterro com atestado de óbito, e só havia condução para Campinas dali a 12 horas, tive que ir até a casa da família, no bairro Morada do Sol – que em 1977 era deserto – onde se realizava o velório. Pedi para os que velavam o corpo que saíssem para que eu fizesse os exames de praxe e pudesse assinar o atestado”, completa.

Ajuda mútua
O corpo médico de Indaiatuba é amplo e atende a todas as especialidades. Mas nem sempre foi assim. “No começo era difícil”, revelou o também pediatra e patologista Danilo Ribeiro de Ávila, 57, acrescentando que quando chegou em Indaiatuba, no final da década de 70, já havia mais especialistas em atuação.
Para Costa, sua estréia em Indaiatuba foi rápida e inesperada. “Cheguei em 76 e fui me apresentar aos médicos mais antigos, como Renato Cordeiro (cardiologista) e Roberto Sfeir (ginecologista). Ao entrar no consultório de Sfeir - ele já sabia que eu era pediatra – acabei atendendo a uma criança, assim, sem mais nem menos”. É que naquela época os médicos de Indaiatuba precisavam atuar em todas as áreas, fazendo desde partos a cirurgias de apêndice, atendendo no pronto-socorro ou como anestesista e ortopedista. “Havia ajuda mútua, sim”, confirma Pedrina, que já atendeu inúmeros pacientes de outras especialidades. Uma curiosidade: era maior o número de pacientes atendidos como particulares do que pelo sistema público de saúde. Tanto Pedrina como Fernando Costa brincam afirmando que não precisavam fazer feira. “Ganhávamos ovos, frutas, legumes e outros mimos dos pacientes”.

Deus
O médico estuda e está sempre se reciclando para poder atuar de forma eficaz. Em muitos casos, quando todos os recursos disponíveis na medicina moderna se esgotam, é preciso lembrar que existe um Ser Maior que comanda tudo. Médicos ou cientistas não sãos ateus (embora muitos sejam) e acreditam que a força das orações podem, sim, de alguma forma ajudar quem esteja doente.

Para o anestesista e intensivista Flávio Annichino, 30, as perdas de pacientes são sempre estressantes para os médicos, principalmente quando todos os modernos recursos da medicina foram usados. “Nessas horas, para o médico, é importante lembrar que Deus decide a hora de ir ou ficar de cada um”, ressalta.



O PAI DA MEDICINA
  Hipócrates, considerado o Pai da Medicina, nasceu na ilha de Cos, 460 anos a.C., tendo pertencido ao ramo de Cos da família Esculápio (ou Asclepíades) por descendência masculina. O termo esculápio é igualmente empregado para designar os médicos em geral, na medida em que praticam a arte de Esculápio (ou Asclepios), o Deus da medicina na época clássica. Na sua origem, o termo restringe-se aos filhos de Esculápio, Podalira e Machaon, personagem famosos, ambos médicos, e seus descendentes.

Fundador da família, Esculápio era conhecido por seu grande saber médico e, de acordo com algumas biografias, Hipócrates era seu décimo-nono descedente e o vigésimo a partir de Zeus. O avô de Hipócrates, também médico, chamava-se Hipócrates, mas nunca alcançou a fama daquele que tornou-se conhecido como o pai da medicina. Até hoje os recém-formados fazem o juramento de Hipócrates no dia da colação de grau, no qual prometem exercer a medicina com ética, seriedade e respeito aos pacientes.


Dia dos Dentistas
Também em outubro, no dia 25, os dentistas brasileiros celebram sua data. Assim como os médicos, as especializações hoje são realidade em Indaiatuba. Há clínicas luxuosas, eficientes, tratamentos modernos e baratos – comparados com o preço cobrado pelo mesmo procedimento anos atrás.

O dentista Denilson Shimabukuro é especialista em implantes dentários, e revela que seu trabalho lhe traz grande retorno emocional, já que consegue devolver – ou criar – um sorriso bonito. “É muito bom ver a reação da pessoas depois do tratamento. Antes, muitos evitavam até sorrir, imagine.” Segundo Denilson os dentistas, assim como seus colegas médicos, acabam se tornando uma espécie de psicólogo. “O pessoal acaba desabafando e a gente nota como as preocupações podem se refletir na saúde em geral.” Para estes, os dentistas tem sempre uma palavra e ouvido amigo.


Associação Paulista de Medicina

Regional Indaiatuba

20 anos de um trabalho
intenso e voluntário

Neste ano, a Associação Paulista de Medicina Regional Indaiatuba completa 20 anos de existência. Trata-se de uma associação de médicos que desenvolve a sua atuação em várias áreas como defesa do exercício digno da medicina, atualização científica, apoio a médicos e familiares de médicos em situação econômica difícil, atividades culturais e ações sociais em benefício da comunidade. São 20 anos de um trabalho intenso e voluntário, uma vez que a Associação se mantém com a contribuição de seus médicos associados e seus diretores não recebem qualquer tipo de remuneração por seu trabalho.

Sua atuação social tem se caracterizado, mais do que por uma ação beneficente, que tem sido realizada por campanhas de arrecadação de alimentos e doações para instituições de caridade, pela informação da comunidade a respeito de doenças, diagnósticos, tratamentos e prevenção nas mais diversas especialidades médicas sob o princípio de que a informação é essencial à saúde e à qualidade de vida da população, bem como do pleno exercício da cidadania. A APM Regional Indaiatuba também tem participado de importante campanhas como a coleta de assinaturas para movimentos como o “Propaganda Sem Bebida” - para a restrição da propaganda de cerveja e outras bebidas alcoólicas nos meios de comunicação e em eventos esportivos e culturais -, e do Projeto de Lei de iniciativa popular liderado pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) regional de Indaiatuba pela proibição do recebimento no aterro sanitário de Indaiatuba de lixo proveniente de cidades vizinhas. Promoveu pelo 3º ano consecutivo a Jornada de Sexualidade e Educação Sexual de Indaiatuba e Região, debatendo e discutindo a importância da Educação Sexual nas escolas. Participa, também, do Projeto “Médico Cidadão” da Federação das Entidades Assistenciais de Indaiatuba (FEAI).

Planos de saúde
A defesa do trabalho médico tem sido uma das grandes preocupações da Associação, uma vez que os médicos têm sofrido muito com a ausência de atualizações no valor dos procedimentos pagos pelos planos de saúde que, na sua grande maioria, cobram grandes aumentos dos usuários e não os repassam aos médicos. A então presidente da APM de Indaiatuba, a ginecologista Karine Schlüter, se empenhou em revelar as condições em que funcionários públicos municipais da área da saúde trabalhavam – a remuneração era (e ainda é) menor do que a maioria das cidades vizinhas. Eles estão há vários anos sem aumentos e são remunerados de forma a terem que ter vários empregos para conseguirem levar uma vida digna. A atual diretoria vai continuar a lutar por uma remuneração justa para o médico por acreditar que isto é essencial para que o profissional possa se atualizar e ter condições de dar atendimento adequado e de qualidade, assegurando o direito da população à saúde.

A medicina evoluiu muito nos últimos anos, sobretudo pela aquisição de novas tecnologias, mas em sua essência continua sendo a atuação de um ser humano na tentativa de ajudar outro na busca de alívio para sua dor e sofrimento. O dr. Paulo Koide, 79, médico mais antigo da cidade em atividade, é um exemplo maravilhoso desse amor ao trabalho e que transforma a medicina em mais do que uma profissão, num verdadeiro ideal de vida.

A APM Regional de Indaiatuba também homenageia os médicos pioneiros na cidade, que tinham que esquecer suas especializações para atuarem conjuntamente como cirurgiões, anestesistas, obstetras, anestesistas e pediatras, entre outras funções. O Hospital Augusto de Oliveira Camargo (Haoc) era o único na cidade e atendia não apenas o Sistema Único de Saúde (SUS), mas a pacientes particulares. O ano de 1988 foi terrível para médicos e pacientes: o Haoc ficou 45 dias fechado devido a decisões políticas, aliadas a problemas com a mantenedora do hospital. A APM de Indaiatuba lutou muito para que a situação fosse solucionada e o Haoc reaberto.

O reconhecimento do médico como agente e promotor de saúde na população é visto através do carinho e respeito dos pacientes, que vêem no médico mais do que um profissional – muitas vezes ele é confidente e ouve queixas, alegrias ou anseios.

Francisco Carlos Ruiz
Presidente da Associação Paulista de Medicina Regional Indaiatuba

 

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