Síndrome
de Down deveria se charmar "UP"
São crianças felizes,
carinhosas e criativas
“Quero
usar aquela calça bonita na festa de fim de ano”, fala
entusiasmada Janaína Paiola, 25, referindo-se
à Festa de Natal que a Apae realiza no dia 23 de novembro no
Indaiatuba Clube. As crianças estão em contagem regressiva
para o evento. Marina Vieira, 21, a melhor amiga
de Janaína, também se prepara para festa. Enquanto isso,
divide seu tempo entre um emprego num hotel e na Apae. As duas garotas
são carinhosas, inteligentes, e muito engraçadas. Faziam
brincadeiras com a reportagem, que lhes devolvia o desafio, para a
alegria geral.
A Síndrome de Down (SD) tem este nome em referência ao
médico inglês John Langdon Down, que a descreveu em 1866.
Pelo que a reportagem observou, o nome poderia ser mudado para “Up”,
um trocadilho com a palavra down, que pode ser traduzida, entre outros
sinônimos, como “para baixo” ou “depressão”.
O que se viu foi muita alegria, carinho, brincadeiras e mães
maravilhosas. Estas foram unânimes em definir seus filhos como
“dádivas”, crianças especiais a quem dedicam
carinho sem excesso de zelo. “O importante é fazer com
que os filhos não precisem ficar tão dependente dos
pais”, revela Ângela Maria Prandini, diretora da Apae
– Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais
de Indaiatuba.

Para Simone Wolf Morelli Limier, a chegada de Murilo,
3, serviu para unir ainda mais a família. André, 13,
que não tem SD, está sempre estimulando o irmão
em brincadeiras e diversões. Murilo é um menino ativo,
e cativa pela simpatia. Na Apae, está tendo aulas de educação
física e artística, além de sessões de
fisioterapia e fonoaudiologia.

Também
se integrando desde já está a rechonchuda e risonha
Júlia, de um ano e meio, e primeira filha
de Ana Paula Stalden. “Antes dela nascer eu ‘sentia’
que havia algo diferente. Soube logo após o parto, mas não
consegui ver nada de ‘anormal’ nela, e sim um bebê
lindo. Minha preocupação foi dar a notícia para
meu marido e minha mãe. Preocupei-me à toa, eles amaram
a Júlia já no primeiro olhar”, diz.
Isadora
Costa, de um ano e sete meses, ainda não freqüenta
regularmente a Apae, mas sua mãe, Maria Rosa da Cunha Costa,
tem levado a menina à instituição.
É que o diagnóstico positivo para SD só foi feito
aos cinco meses. “Passei por cinco pediatras e eles me diziam
que estava tudo normal, mas coração de mãe sente,
por isso ia a tantos médicos. Só confirmei minhas suspeitas
ao levar meus filhos, Murilo, 5, e Jonathan, 12, que não têm
Down, a um posto médico. Lá, a médica logo me
chamou e perguntou se eu precisava de alguma orientação
para Isadora.
Na Unicamp realizaram o cariótipo, e soube que ela tinha SD”,
revela, acrescentando, “para mim, a batalha está só
começando. Minha filha é um tesouro muito especial.”
O cariótipo é um exame de sangue que detecta a alteração
no cromossomo 21 dos 23 pares existentes em cada célula humanas.
É feito gratuitamente na Apae.

Ângela
Maria Prandini e Camila de Freitas,
da Apae, com as mães e crianças entrevistadas
Emoções
profundas
As mães de portadores da Síndrome de Down sentem várias
emoções desde o nascimento dos filhos. “Lógico
que ao sabermos da notícia ficamos um pouco chocadas. Qual
mãe não quer ter um filho ‘perfeito’?”,
admite Maria Helena Paiola, mãe da inteligente Janaína.
Mas todas as entrevistadas asseguram que esse momento de choque dura
alguns segundos; ao verem os filhos, quando os colocam no colo, sabem
que são filhos, adoráveis crianças que precisam
de carinhos e cuidados especiais.
Embora hoje a inclusão escolar seja estimulada, há divergências
sobre seus benefícios. Por um lado, as crianças convivem
com alunos “normais”, e com isso estimulam a sociabilidade
de ambos os lados. Para algumas mães, nem sempre essa harmonia
ocorre. Mesmo tendo professores especializados, os coleguinhas podem
isolar os portadores de Down. Já na Apae, os alunos têm
aulas regulares de educação artística e educação
infantil. A criança e o adolescente com Down têm extrema
habilidade com atividades como pintura, dança, canto-coral,
teatro ou ainda qualquer modalidade de esporte. Precisam apenas de
um estímulo na hora certa e permanência para que esse
dom não seja perdido pela descontinuidade.
Outra emoção que invade as mães é se indagar
“onde errei”, “por que eu”. Daí a importância
de entender o que é a Síndrome de Down e manter convivência
com outros portadores de deficiências. Mas a principal preocupação
delas é “e se eu morrer, quem vai cuidar de meu filho?”.
Por isso é importante tornar o portador de SD independente,
que aprenda a fazer praticamente tudo sem ajuda externa. Janaína
e Marina trabalham e sabem se cuidar, embora prefiram manter os vínculos
familiares.
Saúde
Os portadores de SD não têm apenas retardo mental; estão
sujeitos a uma série de problemas que podem ser resolvidos
se detectados precocemente. Mais freqüente são as cardiopatias.
Um em cada três bebês com SD pode apresentar algum tipo
de doença no coração. Hoje, a cirurgia resolve
95% dos casos. Murilo Morelli Limier foi operado aos nove meses e
hoje, aos três, não tem mais vestígios da cardiopatia.
Exames regulares devem ser feitos para saber o funcionamento da tireóide,
já que essas crianças são mais suscetíveis
a desregule da glândula. Otorrinolaringologista (para ver surdez),
oftalmologista, odontologista e ortopedista devem ser consultados
sempre. Com esses cuidados, os portadores da SD de hoje, vivem muito
mais tempo do que há algumas décadas. Não só
vivem mais, mas também são mais felizes, produtivos
e responsáveis.