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A arte de 'contruir'
cidadão


Dificuldades para lidar com a Educação existem,
mas profissional mostra as recompensas
de ver os frutos do seu trabalho


:: Por CYNTHIA SANTOS



















Linho com a
foto e homenagem
recebida
pela aluna
Bruna Carolina

 

Trabalhar com Educação no País não é uma das profissões mais almejadas da atualidade. A desvalorização do magistério e a violência nas salas de aula são temas recorrentes nas pautas de discussões de profissionais ligados à área. No entanto, a vocação para a arte de educar e a possibilidade de, através deste dom, formar cidadãos conscientes, podem ser as maiores recompensas para o professor. Esses são os sentimentos que levam educadores como Carlos Alberto Rezende Lopes, o Linho, a nem pensar em aposentadoria e a justificar a tão merecida homenagem feita à categoria no dia 15 de outubro, o Dia do Professor.

Aos 47 anos, Linho é um dos professores de História há mais tempo em exercício em Indaiatuba - leciona há 24 anos, cinco meses e 13 dias. Neste período, trabalhou em escolas particulares, como o Colégio Candelária e em um cursinho pré-vestibular. Mas é realmente conhecido por sua atuação na rede pública de ensino, ministrando aulas de História, Geografia e Educação Moral e Cívica na Escola Estadual Dom José de Camargo Barros.

Atualmente, leciona apenas História, na rede estadual, para alunos de 6ª e 7ª séries do ensino fundamental e dos três anos do ensino médio. Ao todo são 20 aulas por semana, além dos trabalhos desenvolvidos há 23 anos como membro do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp).
Linho conta que a vontade de ser professor surgiu a partir do contato que já tinha com os alunos, na própria escola Dom José. “Eu trabalhava como inspetor de alunos fazia dois anos e tinha a vontade de debater questões políticas”, recorda.

O professor chegou a ser aprovado no vestibular de Direito, mas desistiu no ato da matrícula. “Cheguei lá e pensei: ‘mas eu não quero ser advogado’”, revela. Deixou o local e dirigiu-se para a Faculdade Nossa Senhora do Patrocínio, em Itu, que estava com inscrições abertas para o processo seletivo. Na época, em plena ditadura militar, o ensino de História estava proibido, então Linho optou pelo curso de Estrutura Social e Política do Brasil. Mais tarde, cursou História, Pedagogia e fez pós-graduação em História do Brasil, com especialização em escravidão negra.

Mudanças
Comparando seus primeiros anos de profissão com a atualidade, Linho diz que houve uma mudança no nível de aprendizagem dos alunos. Infelizmente, para pior. “O principal fator para a queda da Educação é a família, que hoje não se interessa mais pela escola onde o filho estuda”, argumenta. “Isso acaba gerando o desinteresse dos próprios alunos.” Entre outras transformações, o educador destaca a desvalorização dos profissionais, que, em decorrência do desinteresse dos alunos, estão baixando o grau de exigência em relação aos estudos. “Hoje a escola está muito distante da realidade dos alunos”, acredita.

Como contrapartida, Linho enfatiza os meios tecnológicos que os professores dispõem atualmente e que eram inexistentes em um passado recente. “Nós temos acesso a estes meios e isso é positivo, mas isso também não tem surtido efeito no aprendizado”, explica. “Algumas vezes temos o computador, uma ferramenta boa, mas faltam determinados recursos, como um programa adequado.”

Problemas existem, mas aposentadoria é algo que não passa pela mente do professor. “Pela lei eu poderia me aposentar com 30 anos de serviço, mas procuro nem pensar nisso”, declara. O motivo é compreensível: o prazer do contato espontâneo e verdadeiro com o aluno. “Acabo me tornando amigo dos alunos”, revela. “Todo ano tem torneio de futsal na escola e eu sempre participo. No ano passado joguei em um 1º ano (do ensino médio) e o time foi campeão entre todas as salas da mesma série”, conta, orgulhoso.

Apesar da amizade semeada com os alunos, Linho reforça sua fama de exigente. “A disciplina que eu leciono (História) é que a que mais reprova em vestibular, há mais de 20 anos”, justifica. “Exijo formação de opinião própria do aluno e, da mesma forma que me dôo, cobro do aluno”, enfatiza.

Profissão marcada pela emoção
Com 24 anos de lousa e giz, o professor Carlos Alberto Rezende Lopes, o Linho, tem na bagagem histórias engraçadas e outras emocionantes. “Uma vez eu estava dando aula no período noturno, estava um calor horrível, eu explicando a Guerra do Paraguai e a classe toda atenta”, relata. “Tinha tanto mosquitinho pela sala, que uma hora acabei engolindo um.” Todos os alunos perceberam o inusitado e a gargalhada foi geral.

A história que mais marcou sua carreira, no entanto, tem um final emocionante e arranca lágrimas do professor. Linho lecionou para uma garota chamada Bruna durante os três anos do ensino médio. A estudante teve um tumor no cérebro e foi submetida a aproximadamente dez cirurgias. “Ela gostava muito da minha matéria e sempre a incentivei”, conta. “Eu tinha muita afeição por ela e ela por mim.”

Durante a fase terminal da doença, Linho sempre visitava Bruna. Mesmo quando a jovem não conseguia mais se comunicar, o professor passava longos momentos conversando com a aluna que, segundo ele, prestava atenção ao que dizia. “Ela entendia o que eu falava, mas não conseguia mais falar”, lembra. “Eu dizia que eu ia prepará-la para o vestibular ainda.”

Bruna não resistiu à doença e faleceu em agosto de 2003, aos 18 anos. Linho aniversaria no final de novembro, mas na data estava em uma assembléia na capital paulista. No início de dezembro, já no período de férias escolares, os professores da Escola Dom José foram chamados até o pátio. “Eu fiquei bravo, porque tinha que corrigir umas provas, mas fui”, lembra. Chegando ao pátio, os professores foram surpreendidos por um carro de som que levava uma homenagem a um docente. A mensagem falava de uma aluna que tinha “muita alegria de viver” e que tinha aprendido muito com um professor e que, graças a este profisisonal, havia nascido nela o desejo de ser também professora.

Tratava-se de uma carta de Bruna, endereçada a Linho. Emocionado, o professor conta que não imaginava para quem era a mensagem. “Ainda brinquei com uma colega dizendo que ainda existia aluno que gostava de professor”, conta.
Após a leitura da carta, os familiares de Bruna surgiram na escola e entregaram a ele uma foto da aluna com dedicatória e uma orquídea. “São raros os professores que têm o privilégio de viver isso e graças a Deus eu tive”, considera. “Só aquilo valeu tudo o que significa a Educação para mim.” A carta de Bruna é guardada com carinho e o retrato está afixado na sala de Linho na Apeoesp.

COMO SURGIU A
COMEMORAÇÃO

O Dia do Professor é comemorado no dia 15 de outubro. A data está ligada a um decreto imperial de D. Pedro I, de 1827, criando o Ensino Elementar no Brasil. Pelo decreto, todas as cidades, vilas e lugarejos deveriam ter suas “escolas de primeiras letras”.

O documento estabelecia ainda a descentralização do ensino, o salário dos professores, as matérias básicas, entre outros. Mas somente 120 anos após o decreto, em 1947, é que ocorreu a primeira comemoração do Dia do Professor: em São Paulo, no Ginásio Caetano de Campos, na Rua Augusta.

O período letivo do segundo semestre começava no dia 1º de junho e se estendia até 15 de dezembro, com dez dias de férias. Quatro professores tiveram então a idéia de organizar um dia de parada para evitar o estresse e também com o objetivo de fazer uma análise das diretrizes para o restante do ano.

O professor Salomão Becker, de Piracicaba, sugeriu que o encontro acontecesse no dia de 15 de outubro, data em que, na sua cidade natal, professores e alunos traziam doces de casa para uma pequena confraternização. Com os professores Alfredo Gomes, Antônio Pereira e Claudino Busko, a novidade estava lançada. A celebração espalhou-se pela cidade e pelo País nos anos seguintes, até ser oficializada nacionalmente como feriado escolar pelo decreto federal 52.682, de 14 de outubro de 1963.            Fonte: www.unigente.com.br

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