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Zé da Gaita,
um artista anônimo


Indaiatubano de 69 anos, embora desconhecido pelo
público, mostra versatilidade no ramo artístico



:: Por CYNTHIA SANTOS

A dificuldade para se locomover e o peso da idade não o perturbam. A calma e a perseverança se sobressaem na personalidade de José Pedro Antônio, mais conhecido como Zé da Gaita. Ligado à música, artes plásticas e teatro, o indaiatubano de 69 anos é um dos diversos artistas da cidade praticamente desconhecidos de seus conterrâneos. Para homenagear Zé da Gaita e outros anônimos da arte, a Revista da Tribuna inicia nesta edição uma série de matérias que vai abordar os inúmeros talentos de Indaiatuba.

Zé da Gaita reside no Jardim Morada do Sol com a esposa, Rosa Maria da Silva Antônio, 69 anos. Anda devagar, com o auxílio de uma bengala. Mas a agilidade das mãos se contrapõe a das pernas nos momentos de inspiração voltados para o desenho. Três quadros seus enfeitam as paredes da sala humilde. As telas são resultado de um trabalho desenvolvido por hobby há cerca de 50 anos, enquanto trabalhava como almoxarife para se sustentar. “Comecei a pegar firme nos desenhos nos anos 90”, lembra.

Suas matéria-primas são papel sulfite – ou cartolina – e uma caixa de lápis de cor aquarelado. “Tem que tomar cuidado, porque se o sulfite for muito fino e eu fizer acabamento com água fica feio”, revela. O templo da criatividade é um cômodo nos fundos de sua residência, onde costuma passar algumas horas do dia ladeado por seus trabalhos já prontos. Os rascunhos são feitos sempre pela manhã, pois “à tarde fica muito quente”. Cada trabalho demora, em média, três dias para ficar pronto. “Mas não são três dias inteiros que eu trabalho, fico desenhando só uma ou duas horas por dia”, explica.

Auto-didata, Zé da Gaita diz que aprende novas técnicas com o catálogo que acompanha a caixa de lápis de cor. Cada desenho é feito com capricho pelo artista, que tem preferência por retratar paisagens. A maioria dos trabalhos é de locais históricos de Indaiatuba, como o Casarão Pau Preto, o Hospital Augusto de Oliveira Camargo (Haoc), o Chafariz, entre outros.

Capricho
Cada desenho é emoldurado carinhosamente pelo próprio artista. Ele coleciona caixas de creme dental - muitas ganha dos amigos -, corta-as em lâminas e confecciona as molduras, pregando-as com cola. Os trabalhos prontos são guardados no cômodo onde trabalha. Nunca um quadro foi vendido. “Quando os amigos me pedem, eu faço e dou de presente”, conta. “Tenho vergonha de sair na rua vendendo meus quadros. Já fui vendedor de panela e sei como é duro sair batendo de porta em porta.” Em troca dos quadros, os amigos acabam presenteando Zé da Gaita, como sinal de gratidão. “Fico muito mais feliz com presente do que com dinheiro.”

A única mágoa de Zé da Gaita em relação à cultura local é a falta de apoio. O versátil artista mostra, amargurado, uma carta de próprio punho enviada em junho de 2006 à Secretaria Municipal da Cultura, pedindo um espaço para expor seus trabalhos. “Não me responderam até hoje”, revela. “Mas é assim mesmo: santo de casa não faz milagre.”

Veia artística versátil

Além da paixão pelas artes plásticas, Zé da Gaita tem uma queda pela música. Desde criança é conhecido por tocar gaita pelas ruas da cidade. “Se você falar meu nome por aí (José Pedro Antônio), ninguém sabe quem sou, mas se você perguntar se alguém conhece o Zé da Gaita todo mundo vai saber”, compara, orgulhoso.

Em uma caixa preta, o artista coleciona seis gaitas Hering, sendo uma miniatura. “Com esta pequenininha já ganhei muita aposta com meus amigos”, lembra. “Ninguém acreditava que eu conseguia tocar alguma coisa nela.” Para provar o quão apto é para a música, Zé da Gaita arrisca algumas notas para a reportagem.

O talento do músico, embora desconhecido de muitos, um dia já foi reconhecido em programas de calouros realizados na cidade. “Na época não tinha nem TV, quem participava ganhava um quilo de pó de café”, revela. Apesar do gosto pela música ser o mesmo há décadas, os gêneros musicais foram variando ao longo dos anos: antigamente Zé da Gaita gostava de tocar o que ele chama de “música popular”. Há sete anos se tornou evangélico e hoje só toca os hinos que é convidado a apresentar na Igreja Assembléia de Deus que freqüenta no Jardim Morada do Sol. A esposa, Rosa Maria, com quem é casado há 12 anos, o ajuda nos ensaios dos hinos. “Eu toco as músicas só de ouvir no aparelho de som, e a Rosa vai me ajudando”, comenta.

A terceira paixão artística de Zé da Gaita é o teatro. Durante 25 anos, enquanto era católico, participou do grupo teatral da Igreja Santa Rita, mas não tem boas recordações dos palcos. “O teatro foi muito sofrido”, lamenta. “Não tinha a estrutura que tem hoje na cidade, e artista de fora sempre chamava mais atenção. Se bem que até hoje é assim: artista em Indaiatuba não tem valor nenhum.”

Aqueles que desenvolvem algum trabalho artístico e são desconhecidos do público podem entrar em contato com a Revista da Tribuna pelo telefone 3834-2508 ou por e-mail: revistadatribuna@terra.com.br.

 

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