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Crônica do Penna


Presente, regalo, mimo, lembrança...


texto Antonio da Cunha Penna
penna@silvaepenna.com.br 3875-3567

O ser humano é sempre interesseiro em menor ou maior grau. É coerente presentear a quem se gosta, apesar de, em algum momento, estarmos obrigados pela imposição social. Sei não!, quem recebe um presente, no fundo, no fundo, sabe por qual das razões ele está sendo dado, mas como é um presente... “o que vier é lucro”, “cavalo dado não se olha os dentes”, “mais vale um passarinho na mão do que dois voando”, “de graça até exame de próstata”, e por aí vai.

Somos todos interesseiros; até São Francisco sabe disso com o seu “é dando que se recebe”. Antes que a turma do “bicharedo” comece a chiar, aviso que acho isso normal, sadio e próprio do ser humano. Quando recebo um presente, fico contente por estar recebendo algo que, de uma forma ou de outra, vem somar-se ao meu “pacote de bem-estar”. Quem me presenteia, na maioria das vezes, é porque gosta de mim, em troca quer meu afeto. É tudo muito humano, interesseiro e coerente, mas tem seus segredos e exige cuidados. O presente que você dá pode dizer muito de você. Em presentear uma sogra ou a vovó com um skate, patinete ou mesmo levá-la para passear em escadas-rolantes, pode estar implícita sua verdadeira intenção: “quem sabe ela quebra uma perna!”. Dar balas duras, quebra-queixo ou pururuca a seu sogro desdentado, pode estar impregnado do mesmo propósito. Já o mesmo “pacote” dado a um amigo dentista para que distribua a seus clientes pode ser lucro certo, pelo sensível aumento de pontes quebradas e obturações soltas.

Presentear um amigo chato com um cachorrinho poodle, daqueles que latem agudo sem parar, pode, com o tempo, mostrar sua real intenção a despeito do bichinho ser mesmo uma gracinha. Ainda vou presentear meu amigo Olavo Roubado, ou melhor, Furtado (cronista do Gente Etc...), com uma caixa de pentes Carioca. Quem não se lembra deles? Eram inquebráveis. Os únicos que acompanhavam a curva da bunda quando a gente se sentava. O Olavo, desde que nasceu, nunca penteou os cabelos. Mais parecem paisagem por onde passou tufão americano. Nada aponta para lado nenhum.

Às vezes presentear é difícil. Ao comprar um presente temos a tentação de escolher o que gostaríamos de receber. Nós nos esquecemos de que um CD de Sakamoto tocando Tom Jobim ficará eternamente empoeirando na discoteca de quem é fã da Jovem Guarda.

Tenho horror de ganhar pintura, pior ainda se a “obra-prima” foi “obrada” num átimo de inspiração da tia de algum amigo que, para encher o tempo, faz curso de pintura e está convencida de ser a própria reencarnação de Almeida Júnior. O perigo aumenta se for um tema da moda. Tivemos a fase dos cavalos fugindo da floresta em chamas, a do menino com lágrima escorrendo pela bochecha, a fase do palhacinho, a do tacho, a da hortência (não a jogadora, o que seria pior); aquelas flores que se parecem uma couve-flor azul. A praga do girassol felizmente passou. Com a onda esotérica estamos vivendo a fase do Cristo. Coitado! É crucificado de novo a cada vez que o retratam por aí. Pintura psicografada então... ARGHHH! É claro que em nossa região temos ótimos pintores. Gosto de Ige D’Aquino, Zé Paulo Ifanger, Osmar Maciel, para citar apenas os matusalêmicos. Dos novos, entre outros, destaco um moleque danado de talentoso, o ex-garçom Ernesto. Geralmente gosto de pintura abstrata, mas não daquelas que ficam empilhadas em corredor de shopping ou são vendidas sob sovacos de porta em porta. Aquilo é produzido em série. Qualquer chimpanzé maneta faz melhor.

Presentear é uma arte. Já dei e ganhei vidro de pimenta e fiquei contente. Já dei um pacote com vários tipos de queijos e surpreendi um amigo. Por outro já gastei uma nota numa camisa e o aniversariante fez cara de interrogado de CPI. Experiência (preventiva) interessante é deixar uma lista na loja de produtos da sua preferência a exemplo do que fazem as noivas. Na passagem dos meus 60 anos, deixei uma lista na livraria Villa das Palmeiras e, pode adivinhar, não ganhei nenhum Paulo Coelho. Faça isso, bobo. Dar uma caixa com as obras completas do Sepultura para sua amiga zen periga transformá-la na primeira mulher-bomba brasileira, isso se ela já não for tão feia que mereça o título.

Quer saber? Boas idéias não faltam. Algumas tirinhas de papel com frases brincalhonas dobradinhas uma a uma colocadas num pires à cabeceira de um doente terminal podem lhe provocar inesperado ataque (de riso). Ex.: “vou contar até três e você vai morrer: é um, é dois, é já...”.

De volta de uma viagem, uma amiga me trouxe de presente um pedregulho. Enquanto ela adiantava os argumentos que tiraria aquela coisa no fundo da caixa de sua insignificância cinza eu, ansiado, pensava se tratar da ilustre pedra que um dia atrapalhou os passos de Drummond. Passado o tempo, hoje não sei onde enfiar o mimo. Dispenso sugestões.

Presente “da hora” é uma câmera digital. Você tira centenas de fotos literalmente virtuais (ninguém vê). Esses objetos estão sendo espalhados pelo planeta e se encontram em todos os lugares. Quem sabe agora não surja a foto incontestável que venha a provar de vez a existência de disco voador, ou mesmo ET. Se bem que minha mulher vive dizendo que sou um.

 

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