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Conto de Natal

O Natal hipnótico de La Perru

Giancarlo Marx – colaboração

O Natal se aproxima. Luzes coloridas tomam a cidade. Árvores piscam intermitentes. Papai Noel está em cada esquina, o que prova sua onipresença. Das portas dos comércios emana o tema de “Jingle Bells”, executado por hábeis mãos em uma harpa paraguaia.
A música soa como um mantra hipnótico, e o “Espírito do Natal” toma conta de cada ser vivo. De uma hora para outra todos são generosos, cordiais... Pode-se ver cães de rua doando ossos uns aos outros e gatos siameses fazendo coro com canários da terra.

Mas nem só de beleza vive o Natal. O carnavalesco Le Perru, por exemplo, odeia o Natal. Isso porque foi numa véspera de Natal que ele perdeu o pai. Dizem que o velho abusou na aguardente e acabou partindo desta. Desde então Perru procura, a todo custo, destruir o Natal.

Por uma malfadada obra do destino, seu melhor amigo é Rodolfo Reña, um entregador de presentes de Natal. Aliás, foi em uma de suas primeiras entregas – ainda muito jovem – que ele se distraiu com uma estrela cadente e acabou estatelado num transformador de energia. Desde então é alvo de chacotas de todos por causa de seu nariz, que insiste em acender nas horas mais inconvenientes.

E foi exatamente o fato de serem tão diferentes que uniu os dois. Como sempre foram excluídos do resto da turma, eles acabaram “sendo” a própria turma. Mas neste Natal eles prometem revolucionar. Le Perru bolou um plano infalível.

TRIIIIIMMM!!!
- Alô? Quem é? – Perguntou a voz anasalada.
- Ah, Rodolfo, aqui é o Perru! Quem mais conhece seu telefone, meu amigo?
- Ninguém. Mas a esperança é a última que morre, né?
- Pelo amor de Deus! Não me fale em morte, hein!? Ainda mais nessa época...
- Desculpa, amigo.
- Bom, eu te liguei para a gente fazer alguma coisa juntos e...
- Epa... Calma lá! Eu sou rena, mas não sou veado!
- Não, bobinho! Não é disso que eu estou falando. Lembra da oportunidade que você estava esperando para se vingar do velho gorducho e das suas chicotadas? Pois é... – e Perru começou a explicar seu plano para acabar com a farra do Papai Noel e transformar o ano todo em um Carnaval.

A proposta era bastante simples: roubar o trenó voador do bom velhinho, bem na véspera. O Natal estaria arruinado e Le Perru teria um ótimo carro alegórico voador. O plano era realmente muito bom, isso Rodolfo não podia negar.

Há um bom tempo a rena queria aprontar alguma para os colegas, que insistiam em chamá-lo de “Vaga-Lume”. Tá certo que Noel não usava chicote algum – o bom velhinho era bondoso mesmo – mas isso não o impediu de ser seduzido pelo peru.

- Ok, Perru. Vamos apavorar neste Natal! – sentenciou a rena.
Na véspera de Natal, conforme o combinado, Rodolfo foi bem cedo até a casa do Papai Noel. Entrou como se estivesse se apresentando para o trabalho, mas na porta do estacionamento deu de cara com quatro colegas de entrega em um animado jogo de truco. Logo que o viram, Serafino (uma rena orelhuda metida a engraçadinha) disparou:

- Olha quem chegou mais cedo para o trampo! O Vaga-Lume... E aí, “Lanterninha”, onde é que você esconde as pilhas, hein? Hahaha!

O nariz de Rodolfo acendeu imediatamente. Tomado pelo calor de sua missão a rena, antes pacata e anti-social resolveu se impor:
- Escondo nas orelhas. Se fossem como as suas, caberiam pilhas maiores e eu não precisaria trocá-las por uns dez anos! – Serafino ficou com o rosto vermelho. Baixou as volumosas orelhas e saiu dando desculpa de que ia “resolver um negócio”.
Após alguns segundos de silêncio os três companheiros se entreolharam. Com um a menos não tinha como continuar o jogo.

- Sabe jogar?
Rodolfo hesitou em olhar para eles. Nunca o haviam convidado para nada. Com o canto do olho espiou sobre o ombro. Alguns chegam a jurar que viram lágrimas correndo de seus olhos.
- Não. Mas eu aprendo.

Realmente aquele não era um jogo difícil e logo a Rena do Nariz Vermelho foi pegando o jeito. Descontraído, começou a contar histórias de sua vida, falar sobre a família, projetos, etc.
O difícil era blefar. Toda vez que Rodolfo tinha uma “boa mão” o nariz acendia. Até que a rena resolveu o problema com uma lata de refrigerante. O que provocou risadas de seus três companheiros. Mas não eram risos condenáveis. Eram simplesmente risos. Uma liberdade que nunca havia desfrutado.
E o jogo seguiu durante todo o dia. Até que, lá pelas tantas, soou a sirene chamando para o trabalho. Imediatamente Rodolfo se lembrou de Perru, que a uma hora dessas devia estar fulo da vida com ele. Já era quase meia noite.

- Seja o que Deus quiser – disse ele baixinho.
Logo eles estavam decolando com as costumeiras 321,3 toneladas de presentes (e mais os 125 quilos do bom velhinho) à velocidade média de 1.045 km/segundo – que é a agilidade necessária para visitar todas as 91,8 milhões de casas de crianças cristãs dentro das 31 horas que lhes permite o fuso-horário.

Esse definitivamente não era um trabalho fácil. A essa velocidade o atrito com o ar pulverizaria uma rena comum em 0,00426 segundos. Um “Papai Noel comum” receberia a força centrífuga de 17.500,06 vezes a gravidade da terra e seria enterrado no assento do trenó com um peso de 2.000 quilos. Mas o bom velhinho estava sempre bem disposto, e não parecia carregar peso algum.

Pensando nessas coisas, Rodolfo se sentiu mais confiante. Naquele trabalho ele presenciava um verdadeiro milagre todos os anos, e ele nunca havia prestado muita atenção a isso.
Rodolfo parecia mais ágil e, após algumas entregas, Noel resolveu colocá-lo liderando o grupo. Aquele era o melhor dia da sua vida. Mas como estaria seu amigo carnavalesco?

Le Perru roía as unhas. A expectativa não o deixava dormir. A televisão se alternava entre noticiários e filmes de Natal. Desligando a TV o peru escutava os corais que entoavam, obviamente, canções natalinas. Sinos faziam “blém, blém” por toda a cidade. Não havia como fugir do Natal.

Após algum tempo de “lavagem cerebral” o carnavalesco começou a se enfeitiçar por tudo aquilo. A esperança de chegada de um trenó no telhado de sua casa – fosse qual fosse a motivação – era a mesma de qualquer outra criança. Ele estava seduzido pelo Espírito do Natal.

Já era quase dia quando um barulho lá em cima o despertou do quase-sono. A voz de Rodolfo era distinta – Alto! –, mas as demais ele nunca ouvira. Uma gargalhada bonachona vinda da chaminé pôs um sorriso em seu rosto.

- Ho, ho, ho! Feliz Natal!
- Feliz Natal – respondeu o peru meio constrangido – Papai Noel, me desculpe a ingratidão, mas... eu não fui um bom menino este ano. Não mereço presente.
- Não mesmo. Você quis acabar com o Natal de todas as crianças do mundo.
- Uau! Você sabe mesmo de tudo que acontece! Isso é mágica?
- Na verdade ficou mais fácil depois da Internet, mas pode chamar de mágica se quiser. De qualquer forma eu já terminei as entregas. Vim te oferecer um “empréstimo”.
- Empréstimo? De quê?
- Do meu trenó, oras! Sempre achei um desperdício um carrão daqueles ficar lá parado o ano todo. Cheguei a emprestar algumas vezes para o Rubinho Pé-de-chinello, mas me dava muita manutenção. Se você prometer que vai cuidar bem dele eu acho que daria um belo carro alegórico.

Le Perru tinha lágrimas nos olhos. Segundo ele eram ciscos que caíram nos dois ao mesmo tempo. O carnavalesco subiu no telhado com o bom velhinho. Rodolfo também chorava. Renas costumam ser animais extremamente emotivos, quanto mais renas voadoras.

- Podemos dar uma volta? – perguntou o peru. E decolaram para um passeio – desta vez sem pressa – Rodolfo, as outras renas, Noel e Perru.

Desde aquele Natal o trenó passa quase todo o ano com o carnavalesco. Ele limpa e encera o veículo e, em troca, desfruta de todo o seu conforto. Por isso, se algum dia você viu um trenó voador com um peru todo feliz dentro, essa é mais uma obra do Espírito do Natal.

 
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