Jesus
Vagabundo
“Do fundo de sua condição humana, Jesus começou
a intristecer-se. Constatou
que um Natal cada vez mais esvaziado de Sua presença
era a condição.”
texto Antonio da Cunha Penna
penna@silvaepenna.com.br 3875-3567
Então,
Jesus foi levado pelo Espírito a uma estação
de metrô. Depois de jejuar alguns dias, estava com fome. Havia
perambulado pelas ruas da cidade e aquele canto de estação
era um bom lugar para descansar. Estava sujo; barba e cabelos de dias.
Agora, aquele cara a atentá-lo: “Se és Filho de
Deus, manda que estes trilhos se transformem em varais”. Jesus,
porém, respondeu: “Está escrito: nem só
de aparência viverá o homem, mas de toda palavra que
procede da boca de Deus”. No que o sujeito retrucou: “Se
és Filho de Deus, atira-te embaixo do próximo trem,
porque está escrito: aos Seus anjos ordenará a Teu respeito;
eles te sustentarão nas suas mãos para não seres
triturado”. Respondeu-lhe Jesus: “Também está
escrito: não tentarás o Senhor teu Deus”. Ficando
de pé, o estranho lhe ordenou ainda: “Anda, vamos. Levanta-te
daí e põe-te a circular; aqui não é albergue”.
E, apontando para um cesto de lixo, disse ainda: “Se és
Filho de Deus, manda que aquela lata de cerveja se transforme em pão”.
Enquanto Jesus se retirava, olhou para trás e disse: “Fique
aí, Satanás, nesse submundo, que é o teu lugar”.
Ao virar-se, deu de cara com uma senhora de semblante bondoso que
lhe ofereceu um saquinho de fritas.
* * *
Percorria Jesus a cidade, ensinando nas portas das igrejas, lojas
e teatros. E sua fama correu. O povo achava graça e estranhamento
naquele homem que se autodenominava Jesus. Alguns lhe deixavam moedas,
outros poucos lhe davam o que comer, ouvindo-o alertar que: “Não
vos inquieteis dizendo: ‘Que comeremos? Que beberemos?’
Ou: ‘Com que nos vestiremos?’ Porque os gentios é
que procuram todas estas cousas. Buscai, pois, em primeiro lugar,
o Seu reino e a Sua justiça, e todas estas cousas vos serão
acrescidas. Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã,
pois o amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o
seu próprio mal”.
Ainda naquele dia lhe trouxeram um paralítico em sua cadeira
de rodas. Vendo-lhe a fé, Jesus disse: “Tem bom ânimo,
filho. Estão perdoados os seus pecados”. Mas alguns advogados
e executivos que passaram viram tudo e disseram consigo: esse cara
blefa! Jesus, porém, conhecendo-lhes o pensamento disse: “Por
que cogitais o mal nos vossos corações? Pois, qual é
mais fácil dizer: ‘Estão perdoados os seus pecados’,
ou dizer: ‘Levanta-te, e anda?’” Um deles ainda
sugeriu com ar zombeteiro: “Perdoar o pecado, até eu.
Diga-lhe: ‘Levanta-te e anda’”. E se afastou seguido
por parte do aglomerado de pessoas.
Os dias eram de sofrimento e indignação. Cada vez mais
Jesus descendia à condição humana. Cada vez mais
sentia as agruras dessa condição. A continuar, na certa,
tudo se repetiria como sempre esteve escrito.
Ora, estando Jesus de frente a um novo templo, indignou-se com a maneira
como os chefes lidavam com o dinheiro. E disse-lhes: “Está
escrito: a Minha casa será chamada casa de oração;
vós, porém, a transformais em covil de salteadores”.
Alguém telefonou à polícia. E os que prenderam
Jesus o levaram e o jogaram numa cela. Ali ele ficou, alguns dias
e algumas noites.
* * *
Naqueles dias se aproximava a época convencionada como de comemoração
do Natal de Jesus. Do fundo de sua condição humana,
Jesus começou a entristecer-se. Constatou que um Natal cada
vez mais esvaziado de Sua presença era a condição.
Prostrado sobre o seu rosto, angustiado até a morte, irradiou
Jesus tamanha tristeza a ponto de arrefecer-se por completo o sentimento
natalino no coração dos homens. Aquele mês de
dezembro seguiu sem papais noéis, sem cartões natalinos,
sem árvores de natal, sem guirlandas, sem presépios
nas casas e igrejas, sem corais, sem pedidos das crianças,
sem brinquedos, sem luzes a enfeitar as ruas, sem decoração
nos shoppings, sem cultos, sem missas do advento, sem canções,
sem mensagens nos jornais, revistas e TVs, sem filmes natalinos, sem
desejos de boas festas e de paz.
* * *
Achava-se Jesus assentado no chão da cela quando um homem de
Bíblia na mão, o abordou; conversavam sobre generalidades
até que perguntou: “Com que autoridade fazes estas cousas?
E quem te deu essa autoridade? Aqui está escrito: ‘Mateus,
C-24 – v5: Porque virão muitos em meu nome dizendo: Eu
sou o Cristo, e enganarão a muitos’”.
Jesus não respondeu nenhuma palavra, vindo com isto a admirar-se
grandemente o carcereiro.
Então lhe perguntou o homem: “Ora, acreditas ser tu Jesus?”
Com a cabeça recostada no catre, olhos fixos em seu duplo crucificado
e preso na parede oposta, Jesus respondeu-lhe com voz inaudível:
“Tu o disseste”.
Sendo Jesus a sua primeira visita naquela manhã e tendo outras
ainda por fazer, o homem dirigiu-se à cela seguinte. Enquanto
isso, o carcereiro notou em meio à papelada por sobre a escrivaninha
o indulto que, no dia anterior, havia dado liberdade ao rapaz. Abrindo
a porta da cela, disse-lhe: “Estás livre, meu jovem.
Vá e deixe dessa de bancar o Cristo”.
Já à porta da delegacia, Jesus seguiu com os olhos um
ônibus que passava. Uma criança sorriu e abanou-lhe as
mãos. Ele também sorriu e repetiu o gesto. Transfigurando-se,
Jesus teve o rosto resplandescente como o sol e as vestes brancas
como a neve.
O velho carcereiro ainda limpava os óculos na fralda da camisa
quando um resto de nuvem luminosa o envolveu. Então ele levantou
os olhos e a ninguém mais viu, a não ser o turbilhão
da rua sob a esplêndida luz daquela manhã.
E o Natal voltou à normalidade com seus signos e sons.
O carcereiro trocou os óculos.
Frases retiradas do Evangelho segundo São
Mateus. Tradução de João Ferreira de Almeida.