Caráter
forjado pelos
golpes de uma vida dura
A
perda prematura dos pais e trabalho
em sub-empregos desde os
13 anos
não
foram pretexto para uma vida de derrotas
Quem
conhece o empresário e vereador Gervásio Aparecido
da Silva tem a nítida imagem de um batalhador. De personalidade
vibrante e ousada, Gervásio experimentou muito cedo o gosto
amargo da perda. Mas ao invés de fazer dele uma vítima,
a vida acabou por torná-lo mais forte. A família era
muito pobre.
Moravam na Vila Brizola, em um barraco com paredes de sacos plásticos
do adubo Manah, e telhado de bambu, forrado com caixas de leite
longa-vida. Ao todo eram oito irmãos, dos quais Gervásio
era o mais velho, o que o levou a trabalhar desde muito cedo, aos
sete anos. Ele ajudava a mãe, que era feirante, e o pai,
agricultor.
“Éramos pobres mas vivíamos muito felizes”,
recorda. Entre as marcas que este período deixou em Gervásio
está o hábito de nunca beber café. “Para
nós, o café era muito caro. Comprávamos chá
mate, que é bem mais barato e rende. Pelo hábito,
eu não tomo café até hoje”, diz.
Gervásio tinha 13 anos quando, sua mãe começou
a sentir-se mal de repente. Foi socorrida, mas faleceu no mesmo
dia. O pai ficou muito abalado com a perda da esposa, e começou
a adoecer também, ao ponto da Delegacia de Menores encaminhar
todos os oito filhos para o Iami (Instituto de Amparo ao Menor de
Indaiatuba), que funcionava onde hoje fica o Lar Irmã Dulce,
na Rua Ademar de Barros.
Mas o estado de saúde do pai foi piorando, e Gervásio
teve que voltar para a casa e cuidar dele. “Ele tinha ataques
epiléticos e o desgosto o abateu muito. Ele começou
a beber, e freqüentemente eu tinha que sair do serviço
para resgatá-lo na rua. Sou muito grato ao meu patrão
na época, o senhor Mário, dono da Alimar, que me deixava
faltar para acudir meu pai”, lembra o empresário. Foram
três anos assim, cuidando do pai, até que ele também
faleceu.
Nesse processo de separação o irmão Marcelo,
então com seis meses, foi adotado. Renato, com cinco anos,
foi levado para outro lugar. “O Renato nasceu normal, mas
por um erro no hospital adquiriu paralisia múltipla”,
conta Gervásio. A diretora do Iami, Maria de Loudes Magnusson,
alegou na época que não tinha estrutura para cuidar
dele, e que seria encaminhado para as Casas André Luiz, em
São Paulo.
Mesmo sem os pais, todos os irmãos mantiveram a mesma índole,
aprendida no curto período em que se relacionaram com eles.
Alguns anos depois, Gervasio então com 17 anos, seus irmãos
Jonas, 16, e Josué, 14, já estavam trabalhando. Então,
conseguiram uma autorização do juiz para alugarem
uma casa e desta maneira começaram uma nova fase em suas
vidas fora da instituição dependendo exclusivamente
dos três a sobrevivência de todos os irmãos,
exceto Renato: “Fomos a São Paulo atrás dele
[Renato], percorremos todas as Casas André Luiz e não
encontramos nenhum registro de entrada. Procuramos em outras clínicas
e hospitais de São Paulo, mas nem sinal de nosso irmão.
Questionamos a diretoria do Iami na época que não
conseguiu explicar onde levaram meu irmão. Retomamos a busca
algum tempo depois sem êxito algum. Não temos pista
nenhuma, nem sei se ele está vivo”, lamenta Gervasio.
Trabalho
Depois
de arriscar com ramos que variaram da agricultura ao comércio
de motos, Gervásio encontrou um mercado bastante aberto no
setor têxtil. Começou estampando camisetas com marcas
famosas da época, como All Star. Rapidamente o trabalho de
silk-screen atingiu a produção de 300 peças
por mês. Foi então que Gervásio percebeu que
estava divulgando outras marcas. Já era hora de ter a sua
própria. Assim nasceu a Mar & Ação, que
seguia uma linha surfista, na “onda” da Ocean Pacific
e Town & Country.
Era a segunda metade dos anos 80. A economia enfrentava uma inflação
galopante e a população ia às ruas pedindo
eleições diretas. Como dizem, desgraça pouca
é bobagem. Uma chuva interminável acabou inundando
Blumenau, que era de onde vinha a maior parte da malharia, o que
acabou com 90% das camisetas. A ponta da produção
foi vendida aos políticos, e não havia como continuar
no negócio só com estampas.
A saída encontrada foi ousar ainda mais. Mesmo sem entender
nada de confecção, Gervásio comprou cinco quilos
de tecido e uma tesoura especial. Assim começou a fabricação
própria. Chegou a produzir 30 mil peças/mês,
com representantes em todo o Brasil. Depois de 10 anos no mercado
de camisetas, Gervásio ousou investir no jeans, começando
a Gaa’s Jeans.
Em pouco tempo já estava com lojas nos principais shopping’s
de São Paulo e São José dos Campos, então,
decidiu montar a sua primeira loja em Indaiatuba com um novo conceito:
juntando comércio varejista com campanhas sociais bem elaboradas.
O projeto resultou na entrega a associações beneficentes
de mais de 2 toneladas de alimentos, cerca de 2.500 peças
de roupas e várias outras parcerias de cunho social nos 4
anos da loja.
Aos 40 anos, Gervásio conta com a maior parceira, a esposa
Sueli Marino da Silva. Casados há 13 anos, eles têm
três filhos: Alan, de 20 anos, Victor, de 16, e Gervásio
Júnior, de 9. Alan, o mais velho, é seu braço
direito na empresa e também na Câmara de vereadores.
“Ao contrário do que alguns previam, eu e meus irmãos
não somos adultos traumatizados ou deprimidos.
Preferimos o caminho do trabalho, com dignidade, nos tornando elementos
úteis à sociedade. As dificuldades que vivemos no
passado só nos impulsionaram a lutar ainda mais para alcançar
nossos sonhos, e são esses sonhos que nos mantêm vivos”,
conceitua.
“Política
e poder não me fascinam”
O
ingresso de Gervásio na política foi totalmente por
acaso. “Eu não tinha pretensão alguma de sair
candidato. Primeiro, o Júlio Generoso me convidou e me deu
uma ficha de filiação para assinar em seu escritório,
junto com José Onério. Pra ser sincero até
o final de agosto eu nem sabia em que partido estava filiado”,
reconhece.
Faltando apenas 50 dias para as eleições, o então
prefeito Reinaldo Nogueira (PDT) e o vice, Antônio Jorge Trinca
(PSDB) chamaram os candidatos para uma conversa de incentivo no
gabinete da Prefeitura. Foi então que reforçaram o
convite a Gervásio. E ele acabou topando.
Instalou o QG de campanha ao lado da Gaa’s Jeans. Montou uma
estratégia de curto prazo com base nos conhecimentos de publicidade
da loja. Não havia ninguém especializado em marketing
político. “Nessa hora contamos com o amigo Hamilton,
que tinha um pouco de experiência em campanha política”,
recorda.
O tempo era escasso, e as gráficas já trabalhavam
a todo vapor para aprontar materiais de campanha encomendados por
outros candidatos meses antes. Por isso elas só poderiam
entregar novos pedidos faltando 15 dias para o pleito eleitoral.
A saída foi fazer um material maior, no formato de um “jornalzinho”,
para um trabalho mais intensivo. Sem material de apoio, Gervásio
partiu para o corpo-a-corpo. No total foram mais de 300 reuniões
em casas e empresas.
A estratégia, apesar de improvisada, deu muito certo. Foram
2.068 votos, e o empresário acabou se elegendo pelo PSDC.
Foi o mais votado no partido e o 5º mais votado entre todos
os 223 candidatos que disputaram as vagas do legislativo.
“Um dos compromissos que eu assumi na campanha é o
de nunca me tornar um ‘político profissional’,
no sentido pejorativo. Não estou na Câmara para fazer
acordos e lucrar com eles, mas sim para honrar os votos que recebi.
A política e o poder não me fascinam”, define
o vereador.
Apesar de haver sido eleito por um dos partidos que integravam a
coligação “Indaiatuba em Boas Mãos”,
que elegeu o atual prefeito, José Onério, Gervásio
afirma que sua postura na Câmara é independente, ou
seja, de acordo com seus ideais e princípios. Sua votação
dos Projetos dentro da Câmara visa sempre o benefício
dos munícipes.
Tanto que essa postura recentemente lhe rendeu abertura de um processo
de cassação dentro da Câmara Municipal, por
não concordar com alguns atos administrativos.