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Crônica do Penna


Caco de louça em terra podre



texto Antonio da Cunha Penna
penna@silvaepenna.com.br 3875-3567



Provavelmente é parte de algum jarro, tigela ou terrina. No primeiro momento do encontro o homem contempla seus próprios dedos. Autônomos eles contornam bordas lentamente, ângulo a ângulo, livrando o objeto dos torrões. Tem a forma trapezoidal. Outros pedaços, caso fossem achados e reunidos, livrariam-no da condição de caco. Nas bordas levemente porosas, uma falha; a bolha que pode ter contribuído para a quebra. Limpo, o branco leitoso ressurge recebendo tão bem o toque de azul sob a filigrana dourada.

Sentado sobre uma pequena pilha de tijolos, o homem tem atrás de si a parede da velha casa e um de seus muitos janelões. As vidraças, sujas; os batentes, carcomidos.

Vozes, gritos de criança, pedaços de conversas em meio a surdos rangeres de portas chegam até ele esgarçados, mixados há tempos imprecisos.

À sua frente, a pouco mais de metro e meio, um muro de tijolões à vista.

Em que época de sua vida aquele caco fora lançado através da janela na terra hoje apodrecida, revolvida por minhocas, babadas de caramujos?; um monturo num beco úmido entre a casa e o muro, aonde ninguém nunca ia, além do menino ensimesmado que fora.

Anos depois, ali está ele sentado na pequena pilha de tijolos em meio às plantinhas humildes, e mais botões, roda de carrinho, olho de boneca, fragmentos de livros, tampas de garrafas, pregos enferrujados, pés de beijo, trevos... Camadas de terra podre, cinza e carvões. O minúsculo sítio lhe revela, à medida que é revolvido pela ponta de sua bengala, fragmentos de vidas.

O sol quase a pino ilumina. É o momento em que o dia comprimindo-se por entre os beirais passa por ali em barras. A luz dura faz brilhar em meio ao cisqueiro parte de uma bola de natal.

Absorto, o homem ainda atem por entre os dedos o caco de louça. À luz intensa, destituída do encantamento inicial, a peça pede para ser devolvida à terra. Seguirá com o homem por entre os becos sombrios de seus sentimentos. Quem sabe reaparecerá num revolver de lembranças qualquer; a face levemente abaulada eternamente a sugerir a trajetória que o faria pertencer de novo ao que fora. Num dos lados, a falha, no branco leitoso a pincelada em azul e a filigrana espelhada que, limpa, novamente reflete o mundo.


* * *


Um ruído fez o homem devolver à terra o caco de louça.
A barra do dia seguia muro acima deixando à sombra o lugar.
Uma pequena lagartixa anima por um instante os detritos encontrando abrigo no que resta da bola de natal.

No beco, um trôpego robozinho surge com seus passos mecânicos, a voz jocosamente futurista em meio a ranger de engrenagens. Atrás dele um garotinho.
–– Vovô, mamãe tá chamando. É pra todo mundo ir embora.


* * *


Ir embora...
Será penoso levantar-se dali. Razoável seria ficar.
A distância que o separa daquele monturo de terra é, com desconcertante realidade, menor do que a que o separa da vida.
Bem!, há o menino a percorrer novas distâncias... e é Natal!

 

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