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Por TATIANE QUADRA
A
história desse artista anônimo começou há
oito anos. Apesar de já ter 33 anos, foi em 1999 que a
vida de José Alexandre Pires de Camargo mudou e se voltou
em direção à arte. Atualmente, já
profissional, faz todo tipo de peças em biscuit e preza
pela qualidade do trabalho. A delicadeza e o acabamento detalhado
são impressionantes. “Para mim, é arte aquilo
que agrada uma pessoa por ser bem feito, e que por isso traz felicidade”,
diz.
Aos 25 anos, Alexandre era balconista de uma lanchonete. Certa
noite, ao voltar da casa de uma namorada, foi surpreendido por
três assaltantes que entraram no carro que dirigia. O jovem
tentou fugir, os bandidos atiraram e acertaram a coluna, e ele
ficou paraplégico. Cerca de seis meses depois, o fisioterapeuta
de Alexandre indicou que fizesse algum trabalho manual, para ter
uma ocupação. “Tentei fazer algo com jornal,
papel machê, mas não deu certo”, lembra. “Até
que vi em um programa de televisão o artesanato em biscuit.
Peguei a receita da massa na internet e tentei fazer. O primeiro
ficou horrível!”
Mas ele não desistiu, continuou praticando e aprendeu sozinho.
“No começo meus parentes sofreram com os presentes”,
brinca. Depois de pouco tempo o artista já fazia belos
itens de ímã de geladeira e pote de vidro decorado.
“Levei no Bazar Carrossel cerca de 50 peças e em
uma semana vendeu tudo”, conta. “Então me ligaram
pedindo mais. Eu não acreditei. Fiz tudo ‘no chute’
e acertei. Desde então não parei.”
O
próprio artesão faz a massa que usa. Ele diz que
prefere assim, pois algumas vendidas no comércio não
são de boa qualidade. Alexandre usa cola, amido de milho,
limão, vaselina líquida e creme para não
queimar as mãos. Depois utiliza o corante para tingir as
massas e trabalha com ela e alguns acessórios. Dentre as
peças que faz há, além dos ímãs
(acento) e potes, lembrancinhas em geral, porta-celular, chaveiros,
suporte para bilhetes e fotos, avisos de portas, entre outros.
Mas o que mais sai são os noivinhos de topo de bolo. “Está
na moda e desde que comecei já fiz cerca de 200 peças
diferentes, sendo que cada uma leva cerca de quatro dias”,
comenta. “Os noivos vêm aqui, trazem foto, dizem o
que querem ou pedem uma idéia e eu faço personalizado.
É muito gostoso quando o cliente vem buscar e diz que não
imaginava que ficaria tão legal. É uma forma de
reconhecimento.”
Dificuldades
Alexandre
lembra as dificuldades. Como uma vez que uma loja fechou e ficou
com diversas peças que estavam em consignação.
Ele diz também que já sofreu preconceito por ser
um homem fazendo trabalho em biscuit. Lembra que levava o material
para a avaliação de lojas e muitas elogiavam mas
não acreditavam que um homem podia fazer um artigo tão
delicado. “Eu dou aulas particulares, mas tem marido que
não deixa a esposa fazer, porque o professor é homem”,
revela. “Porque sou homem não posso fazer artesanato?”
Mas ele nunca pensou em parar. Caprichoso, quando não gosta
de um trabalho joga no lixo e faz novamente. “Não
é fazer o artesanato em biscuit, é fazer bem feito.
Meu defeito é ser perfeccionista”, explica. “Mas
falta reconhecimento. Alguns me falam que no R$ 1,99 encontra
essas peças. Mas não é verdade, porque não
é a mesma coisa, o mesmo trabalho.”
Alegrias
O artesão afirma que o trabalho com a arte o ajudou muito.
Deu uma nova direção em sua vida, já que
ele nunca havia pensado antes em fazer algo relacionado a isso.
“Eu pensei até no pior quando soube que estava paraplégico.
Mas o artesanato me deu uma luz”, enfatiza. “Percebi
que o tiro que recebi só me levou a capacidade de andar
sem apoio, mas sou a mesma pessoa de sempre. E o melhor, acordei
para o fato que sei trabalhar com as mãos.”
Alexandre diz que as peças que faz são a partir
de idéias que tira de revistas ou mesmo da inspiração.
Como mora apenas com o pai, diz que ele é seu maior ajudador.
Muitas vezes o artista passa o dia todo e até mesmo vara
noites para fazer as peças encomendadas. “A arte
teve um papel fundamental na minha vida. Alavancou um lado que
eu não conhecia e adorei”, ressalta.
A arte de Alexandre pode ser encontrada em algumas lojas do ramo
e de noivas da cidade. Ele gasta cerca de R$ 150 por mês
e ganha de R$ 300 a R$ 400. “Mas o artesanato é assim:
tem mês que você vende bem e tem mês que não
ganha nada”, diz. “Mas eu comecei pela terapia. Nem
pensei que me ajudaria financeiramente.” Segundo o artista,
há muitas pessoas que fazem trabalhos anônimos e
não são reconhecidas em Indaiatuba. “O município
precisava ter mais eventos para mostrar a arte que é feita
aqui. Temos só duas feiras por ano, e muita gente de talento”,
alega.
Serviço
Alexandre faz noivinhos de topo de bolo a partir de R$ 60. Há
ímãs por até R$ 2. As peças não
estragam e são laváveis. Só não podem
ficar de molho na água. Quem quiser fazer encomendas ou
ter aulas para aprender esta arte pode entrar em contato através
dos telefones (19) 3834-6464 e 9161-6237 ou e-mail lelux_artes@hotmail.com.
E lembre-se: se você também é um artista anônimo
de Indaiatuba e quer mostrar sua arte para a cidade, entre em
contato com a Revista da Tribuna pelo telefone
(19) 3834-2508. Ou e-mail revistadatribuna@terra.com.br.