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Papai Noel:
ofício ou abnegação?


Para vestir a fantasia, profissional ou ocasionalmente,
é preciso muito amor e carinho


:: Por FÁBIO ALEXANDRE

 

A Casa do
Papai Noel no
Shopping Jaraguá

 

Muito já se falou sobre a origem do Papai Noel. A influência da primeira e maior representação do Natal é inquestionável.



Mas de onde surgem as figuras que carregam hoje a responsabilidade de levar em frente o “legado”? Elas podem surgir de diversas maneiras e atuarem tanto profissionalmente como ocasionalmente. No entanto, uma verdade permanece: não importa a origem do Papai Noel em questão, vestir a fantasia traz consigo um turbilhão de emoções e histórias que emocionam e tornam a ocasião sempre gratificante.

Papai Noel do Shopping Jaraguá há 10 anos, o segurança Manoel Oliveira de Azevedo, de 62 anos, natural de Leme, em São Paulo, já se habituou com o ritual que precede toda chegada do Natal. “Quando atuava como segurança, não podia usar barba”, recorda. “Mas depois captei o espírito natalino e minha preparação começa em abril, época em que deixo o cabelo e a barba crescerem”, conta. Com relação à forma física do Papai Noel, Manoel brinca. “A forma mantenho ‘naturalmente’. É só comer bastante.”

Azevedo revela que já tentou usar barba postiça. “O problema é que ela atrapalha muito o trabalho”, enfatiza. “Usar aquilo direto durante oito horas ou mais, não dá. Sem falar que as crianças gostam de brincar com a barba e não gosto de estragar a fantasia”, observa. Mesmo tendo se “profissionalizado” recentemente, Azevedo recorda quando vestiu a fantasia pela primeira vez. “Tenho dois filhos e para sustentar a fantasia do Natal, me vesti de Papai Noel pela primeira vez aos 30 anos e me lembro que já foi emocionante”, afirma.
Questionado sobre o grande desafio de encarar a maior figura do Natal, Manoel responde sem hesitar. “Procuro agradar aquelas crianças que não gostam do Papai Noel. Muitas vezes, algumas chegam assustadas ou chorando”, lembra. “O essencial é saber brincar, oferecer uma balinha e conquistar aquela criança”. A Casa do Papai Noel instalada no Shopping Jaraguá funciona diariamente, até a véspera do Natal, sempre das 16h às 22h. No local, foi instalada uma caixa de correio para que todos possam depositar sua cartinha endereçada ao Papai Noel. “Procuro ler todas as cartas”, revela Manoel.

Sobre os pedidos, o Papai Noel do Shopping Jaraguá revela histórias engraçadas e emocionantes. “O que a maioria das crianças pedem geralmente são coisas simples”, conta. “Mas recebo muitas cartas de adolescentes pedindo uma namorada ou namorado”, enfatiza. Entre tantas histórias emocionantes, Azevedo diz que uma marcou sua trajetória. “Certa vez, recebi a carta de uma mulher separada, mãe de três filhos, que fazia um único pedido: queria o marido de volta para reconstruir sua família”, observa. “São casos como este que me fazem continuar, para manter a esperança dentro do coração de cada um.”

Além de encarar o Papai Noel do Shopping Jaraguá há uma década, Azevedo ainda arruma tempo para trabalhos solidários. “Todo ano escolho um carta e ajudo a família de uma criança necessitada”, enfatiza. Depois da maratona natalina, é hora de cortar o cabelo e a barba para merecidas férias. “Mas em abril, tudo começa novamente e a expectativa pela chegada do Natal vai crescendo”, observa. Manoel não pensa em aposentar sua fantasia tão cedo. “Enquanto tiver saúde vou trabalhar e fazer as crianças felizes”, garante.

Correios
Todo ano, os Correios realizam uma verdadeira odisséia natalina, recebendo milhares de cartinhas com pedidos endereçados ao Papai Noel. Em sua maioria, as cartas são enviadas por crianças carentes que dificilmente ganharão de suas famílias aquilo que mais desejam. Luciana Barboza Fidêncio, de 35 anos, moradora em Salto, trabalha no setor administrativo da agência central dos Correios em Indaiatuba e neste ano, se prepara para um desafio diferente.

“Em 2006, fui uma das voluntárias na entrega dos pedidos enviados para a campanha”, conta Luciana. “No entanto, como decidi na última hora, acabei saindo sem fantasia”, lembra. “Me lembro que as crianças vinham ao meu encontro esperando não apenas seu presente, mas também a presença do Papai Noel”, recorda. “Por isso, já estou providenciando minha fantasia de Mamãe Noel para colaborar com a fantasia do Natal.”

No ano passado, Luciana visitou mais de 50 residências, a maioria na zona sul da cidade. “Foi uma experiência gratificante e com outros voluntários dos Correios, decidi que retornaria em 2007”, afirma. Ela acredita que a fantasia irá levar ainda mais alegria às crianças carentes. “No ano passado, chegávamos e dizíamos que o Papai Noel nos mandou entregar o presente pessoalmente. Mas não é a mesma coisa. A criança precisa crer que o Papai Noel está em sua casa. Por isso, neste ano quero levar mais fantasia ao Natal destas crianças.”

Em sua estréia como voluntária na campanha, Luciana confessa que não escondeu o nervosismo. “Fiquei na expectativa. Mas depois de entregar os três primeiros presentes, a reação daquelas crianças foi tão gratificante que queria levar logo todos”, conta. No entanto, Luciana logo percebeu que a felicidade nem sempre estaria presente nas residências que visitaria. “O que me marcou muito foi quando íamos a uma residência e uma criança ganhava seu presente e a outra não”, lembra. “Por isso, neste ano estamos mais preparados e levaremos alguns presentes extras como bolas, bonecas e doces para procurar não deixar ninguém de fora”, avisa.

Infelizmente, ainda não é possível atender todas as crianças. “Além do aumento no número de cartas, a maioria das crianças tem pedido presentes caros como MP3 players, bicicletas, videogames e computadores”, revela Luciana. “No ano passado, um menino foi o único a ganhar uma bicicleta e a agradecer o presente. Neste ano ele pediu um computador, mas ainda não saberemos se será atendido”, observa. Porém, Luciana conta que os presentes mais “simples” como bolas e bonecas são os mais gratificantes de se entregar. “Geralmente, são crianças que nunca ganharam um presente e se emocionam com o gesto.”

A alegria de uma família marcou Luciana em 2006. “Depois de chamarmos, a avó da criança nos recepcionou com uma alegria imensa, dizendo que não acreditava que estávamos na casa dela”, afirma, emocionada. “Ela chamou a criança para receber o presente e nos convidou para ficar e tomar café”. Mas nem sempre é assim. “A maioria agradece e te beija em agradecimento e seu Natal ficará para sempre marcado por este gesto de carinho”, conta Luciana. “Mas em certas casas, ou as crianças não estão ou os adultos te recebem com frieza. É uma pena, pois fazemos tudo com muito carinho.”

Aliás, os adultos também não ficam de fora na hora de fazer seu pedido ao Papai Noel. “A maioria pede cesta básica, emprego e material para construção”, lembra Luciana. Ainda dá tempo de ajudar. “É preciso se identificar com a carta. Por isso, separamos todas de acordo com seus pedidos e entregamos aos interessados. A maioria colabora com aquilo que estava na carta e mais alguma coisa”, conta. A entrega dos pedidos acontece amanhã, mas a campanha não termina. “Quem quiser retirar sua carta depois do prazo, pode entregar o presente pessoalmente”, afirma. A chance perfeita para encarar Papai Noel por um dia. O Correios local fica na Praça Prudente de Moraes, 101 (Centro).

Luciana espera que sua fantasia colabore com o resgate do espírito natalino. “Pelas cartinhas que recebemos, as crianças parecem acreditar menos no Papai Noel do que eu acreditava quando era criança”, observa. “É preciso trabalhar mais o espírito natalino e deixar o materialismo de lado. O Natal é muito mais que presente”. Não importa se o Papai Noel é profissional ou de ocasião. Aproveite para levar um pouco de alegria e esperança àqueles ao seu redor, vestindo ou não sua fantasia do bom velhinho.

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