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Por CYNTHIA SANTOS

Indaiatuba
comemora em dezembro 178 anos. De simples sede da Freguesia da
Vila de Itu, em 1830, a cidade celebra este ano o título
de primeira do País em qualidade de vida, segundo a Federação
das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan). A
qualidade de vida, aliás, é o principal atrativo
do Município, que vem conquistando muitos novos moradores,
principalmente aqueles que querem fugir do caos dos grandes centros
urbanos. Já quem nasceu em Indaiatuba, ou não pensa
em sair, ou se saiu está louco para retornar.
O crescimento demográfico de Indaiatuba demonstra o interesse
que a cidade desperta em moradores de outros municípios.
De acordo com a Fundação Sistema Estadual de Análise
de Dados (Seade), de 2001 a 2008 o número de moradores
em Indaiatuba passou de 151.149 para 183.981, um crescimento de
21,72%. A cidade, ganha, em média, 4 mil novos moradores
todo ano. Para 2010, a expectativa é que a cidade atinja
a marca de 193 mil habitantes.
Seja
pela beleza, pela hospitalidade do povo, pela qualidade de
vida, pela violência menor do que em outras regiões,
a terra dos indaiás tem cativado famílias inteiras.
Estas adotam a cidade como sua nova morada e mal querem saber
do local de onde vieram, tamanha a paixão por Indaiatuba.
Este é o caso de Elsiere Claire Baz Mondio,
42 anos, (foto) moradora no loteamento Vale das Laranjeiras.
Mudança
Elsiere nasceu em Curitiba (PR) e morou na cidade paranaense até
outubro de 2006, quando mudou-se para Indaiatuba para acompanhar
o marido, que já estava instalado na cidade há dois
anos, a trabalho. “Sempre quis morar no interior”,
revela, com o sotaque carregado. Elsiere ama a cidade, mas lembra
que os problemas também existem, e por isso, está
sempre reivindicando seus direitos. “Indaiatuba é
muito conhecida lá fora pela qualidade de vida, mas isso
também é ilusão”, considera.
Embora esteja na cidade há dois anos, a curitibana revela
que ainda está em processo de adaptação.
“É mais difícil conseguir mão-de-obra
qualificada, fazer compras em shopping, falta educação”,
observa. No entanto, os pontos positivos de Indaiatuba também
são lembrados. “Aqui você ainda tem tranqüilidade
e ar puro. Lugar perfeito não existe e acredito que Indaiatuba
vá melhorar muito, em todos os quesitos”, comenta.
A diferença entre vir a Indaiatuba a passeio e residir
na cidade também é ressaltada por Elsiere, que freqüentou
o Município durante dois anos, antes de vir para cá
“de mala e cuia”. “É impressionante como
a cidade mudou em dois anos”, analisa. “Quando comecei
a vir pra cá, em 2004, havia muitas bicicletas. Quando
me mudei para cá, dois anos depois, só tinha moto.”
Elsiere mora com o marido Enrico e o filho Grego’s, de 16
anos, no loteamento Vale das Laranjeiras. “Sempre preferi
este tipo de ambiente, até os 18 anos morei em chácara,
apesar de eu ser muito agitada”, reconhece. O filho também
teve problemas para se adaptar e queria voltar a morar em Curitiba
a todo custo. “Foi muito difícil, mas hoje ele está
mais adaptado do que eu”, comemora. Elsiere lembra que,
como a cidade era desconhecida, era difícil deixar o filho
sair sozinho. “Quando chegamos em Indaiatuba eu o prendi,
porque não conhecia ninguém”, lembra. Agora,
o problema está sanado. “Ele adora Indaiatuba, se
diverte muito, tem um monte de amigos. Aqui as pessoas são
mais sociáveis do que em outros lugares”, analisa.
Foi a hospitalidade do povo indaiatubano, aliás, que cativou
Elsiere. “O pessoal aqui da cidade é muito gente
boa, puxam papo, conversam em qualquer lugar”, observa.
O carisma da cidade é tão grande que a curitibana
revela não sentir tanta falta da cidade natal. “Hoje
posso dizer que 60% do tempo prefiro Indaiatuba”, explica.
“Sinto falta da estrutura que Curitiba oferece, como mão-de-obra
qualificada. Mas se recebesse convite para voltar para Curitiba,
como já aconteceu, continuaria morando em Indaiatuba.”
Se
dividir entre Indaiatuba
e São Paulo é muito comum

Camila (ao centro)
com os irmãos
Juliana e Gustavo
Além
das pessoas que adotam Indaiatuba como cidade do coração,
há também aquelas nascida aqui, mas que necessitam
morar fora, seja devido ao trabalho ou aos estudos. O agito das
grandes cidades atrai muitos “filhos” de Indaiatuba,
mas eles revelam: a saudade da cidade natal é grande. Por
isso, sempre que podem, vêm visitar a família e os
amigos.
Indaiatuba tem inúmeros casos de habitantes que moram em
São Paulo durante a semana e que voltam para a casa na
sexta-feira à noite. A coordenadora de vendas Camila Ratti
Pistoni, 29 anos, é uma das indaiatubanas que, por questões
profissionais, reside na capital, mas volta todo final de semana
para o aconchego da casa dos pais, Vera e Antonio.
Camila mora em São Paulo desde setembro de 2007. Mas esta
não é sua primeira experiência longe de Indaiatuba.
Entre 2003 e 2004, morou em Portugal. Nos dois casos, a saudade
da família e dos amigos é grande. Prova disso é
que desde que passou a residir na capital vem para Indaiatuba
todo final de semana, exceto quando precisa trabalhar.
Para a coordenadora de vendas, a principal diferença entre
morar em Indaiatuba e São Paulo é a qualidade de
vida. “Sem dúvida a qualidade de vida que Indaiatuba
oferece não encontro em uma cidade como São Paulo”,
observa.
Quando está na capital, sente saudades principalmente da
família. “Casa com cheiro de mãe e pai, dos
meus bichos”, cita. Camila também sente falta de
“fazer um social” com os amigos. “A rotina de
trabalho de São Paulo e outros fatores como trânsito
e distância entre o trabalho e minha casa não permitem
encontrar os amigos com tanta freqüência”, justifica.
Fatores como a distância da família e dos amigos
levam Camila a cogitar a possibilidade de voltar a morar em Indaiatuba,
apesar do trabalho. No início de 2009, fará um teste
com um dos ônibus fretados que fazem o trajeto entre Indaiatuba
e São Paulo, a fim de passar mais tempo na casa dos pais
e estar mais próxima dos amigos. “Tenho planos de
voltar definitivamente para Indaiatuba dentro de cinco anos”,
revela.
A capital paulista, entretanto, tem alguns atrativos não
encontrados facilmente em Indaiatuba. Camila cita a ampla variedade
de opções de cultura e lazer, como teatros, shows,
exposições e restaurantes temáticos. “Em
São Paulo temos supermercados, cafés e até
lavanderias que funcionam 24 horas”, argumenta.
Amizades
Em São Paulo, a coordenadora de vendas acabou se aproximando
de pessoas que estão na mesma situação, criando
uma rede de contatos. “Estes amigos que de segunda a sexta
ficam em São Paulo e no final de semana voltam para a casa
dos pais acabam se tornando uma segunda família”,
explica. “Procuramos nos encontrar ao menos uma vez na semana,
ou na minha casa, ou na casa de alguma delas, ou saímos
para comer algo, para colocar os assuntos em dia. Sinto também,
que é muito difícil fazer novas amizades fora do
ambiente de trabalho.”
Indústrias
são
atrativo da cidade
A
qualidade de vida, sem dúvida, é um chamariz para
que Indaiatuba ganhe novos moradores. Mas o que impulsiona o desenvolvimento
e traz mais habitantes para a cidade, movimentando a economia,
são as indústrias. É o que garante a secretária
municipal de Desenvolvimento, Graziela Milani Narezzi
(foto).
Em Indaiatuba, é natural que um profissional que venha
trabalhar na cidade acabe migrando com a família. “Aqui
você encontra qualidade de vida, o que não tem em
cidades maiores, que têm muito trânsito, violência”,
observa. “Ainda temos a vantagem de estar próximo
aos grandes centros”, diz. Para Graziela, as famílias
escolhem morar em Indaiatuba para ficarem mais “seguras”.
A secretária acredita que Indaiatuba cresce de forma organizada.
“O Plano Diretor do Município vem sendo respeitado”,
diz. Ela destaca ainda as opções de lazer, de escolas,
de serviços. “Indaiatuba não deixa nada a
desejar para nenhuma cidade da região”, defende.
Outros atrativos da cidade apontados por Graziela são o
shopping que deverá ser inaugurado em 2010, além
de supermercados e lojas de grandes redes, que vêm se instalando
na cidade. “Indaiatuba está com um panorama muito
bom”, analisa.
Graziela enfatiza que a preocupação da administração
municipal é manter o padrão de vida de Indaiatuba.
Este ano, a Federação das Indústrias do Estado
do Rio de Janeiro (Firjan) divulgou que o Município ficou
em 1º lugar no quesito qualidade de vida entre todos os municípios
brasileiros. “Isso gera maior responsabilidade”, reconhece.
“O desenvolvimento urbano gera um déficit social
e temos mais demanda na saúde, em creches”, aponta.
“A administração municipal tenta fazer com
que Indaiatuba se desenvolva, mas sempre vai ter déficit.”
Graziela acredita que o índice Firjan - a avaliação
divulgada este ano é referente a 2005 - deve continuar
em patamar elevado nos próximos anos. “Visivelmente
só há melhoras”, diz. O mais importante, de
acordo com a secretária, é que o Firjan também
mede a empregabilidade nos municípios. “Isso é
bom, porque o índice de desemprego em Indaiatuba é
baixo e ajuda a melhorar a avaliação da cidade”,
explica.

A
expectativa da administração municipal é
que a área industrial continue em franco crescimento, apesar
da crise econômica mundial. “Ainda não sentimos
falta de interesse do setor, apesar da crise”, revela. “O
PAT (Posto de Atendimento ao Trabalhador) continua contratando
muito.” A procura por Indaiatuba continua grande, garante
a titular da Secretaria de Desenvolvimento. “Recebemos muitas
solicitações de informações sobre
a cidade via e-mail e por isso foi criado o Business Tour, um
projeto que visa apresentar os principais pontos da cidade para
futuros moradores e empresários”, argumenta.
Atenção
Para a secretária, além da responsabilidade em manter
a qualidade de vida, o Poder Público deve estar atento
para a questão do trânsito local. “Indaiatuba
não é mais a mesma de 20 anos atrás”,
reconhece. “Acredito que o grande passo seria melhorar o
sistema de transporte coletivo e investir em outros meios de transporte.”
Graziela cita a bicicleta como uma alternativa para “desafogar”
o fluxo de veículos na cidade. “Aqui as pessoas estão
deixando de andar de bicicleta, mas esta séria uma alternativa,
adotada em países da Europa, por exemplo.”
Outra característica positiva de Indaiatuba destacada pela
secretária de Desenvolvimento é a preocupação
com o meio ambiente. Graziela destaca o plantio de 50 mil árvores,
realizado em novembro, em uma área na Fazenda Pimenta.
Ela enumera ainda outros “feitos” de Indaiatuba na
área, como a construção da Estação
de Tratamento de Esgoto e premiações concedidas
por institutos voltados para o tema, como a certificação
obtida no ano passado, de município Parceiro da Paz e de
Sustentabilidade, honraria outorgada pela International Global
Water Coalition (IGWC). Mas reconhece que o Município ainda
precisa investir em pontos importantes, como a reciclagem do lixo.
“Deveria haver uma lei federal obrigando as cidades a reciclarem
o lixo”, opina.
“O projeto do Biodiesel Urbano também é excelente,
mas ainda encontramos dificuldades na coleta. Esta é uma
questão cultural. A questão do meio ambiente é
um trabalho de formiguinha, é questão de educação
ambiental e estamos, em nível nacional, engatinhando no
assunto.”
Memória
viva
de Indaiatuba
Indaiatuba
tem filhos “adotivos”, que aqui vieram morar e amam
o Município por diversos motivos. Mas tem também
aqueles filhos que aqui nasceram e não trocam a cidade
por nada. A convivência no mesmo local por muitos anos faz
com que estes ilustres moradores se tornem a memória viva
de Indaiatuba.
O aposentado José Pedro Antônio,
(foto) mais conhecido como Zé da Gaita, 70 anos, é
um dos moradores nascidos na cidade que mantém um amor
incondicional por Indaiatuba. A paixão é tanta que
Zé da Gaita possui diversos álbuns com fotografias
antigas da cidade. Como se não bastasse, escreve resumos
sobre a história da cidade ao lado das fotos e diz que
pretende escrever um livro sobre a cidade.
Zé da Gaita nasceu em Indaiatuba e durante um período
da infância morou na Rua Adhemar de Barros, uma das poucas
que compunham a área urbana. Mais tarde, mudou-se para
a Rua Bernardino de Campos. “Era uma rua de terra, que descia
para o Chafariz”, lembra. No final, onde hoje é o
Parque Ecológico, havia um buraco cheio de entulho. A diversão
das crianças na época era brincar com cavalinho
de pau feito de bambu ou carrinhos de madeira. O aposentado estudou
até o 4º ano (hoje 4ª série do ensino
fundamental) no então Grupo Escolar Randolfo Moreira Fernandes,
como quase todos da sua geração.
Indaiatuba demorou para mudar, segundo Zé da Gaita. “A
cidade era só as ruas centrais”, explica. “Terminava
no Cemitério da Candelária. Depois do cemitério
não tinha nem água e nem luz.” O Bairro Santa
Cruz também não tinha energia elétrica. A
cidade era dividida pela linha de trem. “Para lá
da linha era conhecido como ‘o outro lado’”,
ironiza.
A Indaiatuba de décadas atrás também contava
com poucas opções de lazer: um circo, um cinema
e a famosa paquera na Praça Prudente de Moraes. “Comecei
a sair só quando fiquei maior de idade”, revela.
“O ponto de encontro era a praça. Era um programa
para família, jovens e idosos, todo mundo ia para a praça
ver a banda tocar no coreto.”
Quando havia procissão, ninguém voltava para casa.
Os populares ficavam na Praça Prudente de Moraes e os jovens
aproveitavam para paquerar. Os homens ofereciam músicas
para as moças. Na época, a Prefeitura ficava no
centro da praça e o sistema de som na parte superior. “Na
década de 60 eu fazia ‘bico’ no serviço
de alto-falante”, relata.
Bicicletas
Outra diferença marcante é que Indaiatuba era dominada
pelas bicicletas. Ver carros transitando era raridade. Além
disso, a cidade era calma. Casos de violência eram apenas
histórias “distantes”. As pessoas tinham costume
de sentar na praça ou nas calçadas para conversar.
“Colocavam as cadeiras em frente à praça e
ficavam vendo o povo passar”, diz.
“O maior divertimento era o cinema”, diz. Zé
da Gaita conta que o primeiro cinema ficava na Rua 15 de Novembro,
era o Cine Recreio, na década de 30. Na década de
40, foi comprado por um padre e passou a se chamar Cine Santo
Antônio. “Naquela época só tinha cinema
mudo”, lembra.
Zé da Gaita acredita que a principal mudança ocorrida
em Indaiatuba foi a
industrialização. “Antes tinha umas cinco
indústrias na cidade”, comenta. Com ótima
memória, lembra-se de todas: Vilanova, que fabricava cabos
de guarda-chuva; Mazzoni, que produzia as varetas para os guarda-chuvas;
o cotonifício, que beneficiava algodão; Amil –
Artefatos de Madeira Indaiatuba Ltda. e a Fábrica de Cachimbos
Ranieri. “A sirene do cotonifício dava para ouvir
a 15 quilômetros de distância”, conta.
O local de trabalho determinava as chances de sucesso dos rapazes
no quesito “relacionamento amoroso”. “A primeira
coisa que as moças perguntavam era ‘onde você
trabalha?’”, explica. “Vagabundo já não
era bem visto. Os pais faziam os filhos trabalharem.” De
acordo com Zé da Gaita, as moças da época
de sua juventude preferiam os rapazes que trabalhavam em comércio.
“Se você falasse que trabalhava em indústria
elas já davam o fora”, garante.

1889 - Rua Bernardino de Campos (ao lado)

Cine Rex (abaixo), década de 50
Outra
curiosidade de antigamente é que o “veículo”
da funerária da cidade era uma carroça, que transportava
o caixão. O condutor da carroça usava roupa preta
e cartola. Os costumes eram bem diferentes. “Quando morria
alguém, a família pagava e um panfleto era distribuído
pela cidade inteira”, explica. “A carroça da
funerária levava o corpo até a igreja, para o padre
benzer.”
O aposentado conta que tem saudades da cidade calma de outrora,
quando podia sair sem receio de ser assaltado. “Hoje, para
ir até a esquina, você tem medo”, justifica.
Outra diferença é que antigamente, com a população
reduzida, todos se conheciam em Indaiatuba. “Hoje tem muita
gente que não conhecemos”, aponta.
Apesar das mudanças, Zé da Gaita revela que nunca
pensou em se mudar de Indaiatuba, nem mesmo para trabalhar. “Esta
é uma cidade boa para morar”, enfatiza. “Certa
vez tentaram me transferir para Pirassununga, mas eu não
quis ficar.”

Sede dos Correios e da Viação Bonavita
(final do quarteirão) na década de 1960

Fazenda Engenho D´Água
(atual sede da Faculdade Politécnica)
Quebra-cabeça
Outras
duas pessoas conhecidas dos indaiatubanos também se recordam
bem da Indaiatuba de tempos atrás. As aposentadas Anistarda
Clemente Caldeira, a Candelarinha, 83 anos (foto), e
sua prima Maria Benedita Bento Sebastião, a Tuta, 68 anos,
lembram-se de praticamente todos os imóveis que ocuparam
a área central de Indaiatuba quando eram jovens. Relatam
nomes e endereços como se estivessem montando um quebra-cabeça
da cidade.
Candelarinha conta que nasceu na Fazenda Sertão, onde foi
criada. Aos 12 anos, já trabalhava como empregada doméstica
e acabou indo morar em outras cidades, como Santos e São
Paulo. Depois de uma temporada ausente de Indaiatuba, voltou para
a cidade, indo morar na Fazenda das Pedras, “para lá
de Itaici”, como descreve.
Aos 17 anos passou a morar na área urbana, na Rua 9 de
Julho. Candelarinha diz que na época Indaiatuba “já
era mais ou menos desenvolvida. “Já tinha o Cotonifício”,
lembra. As ruas eram de terra e não havia água encanada.
Os habitantes pegavam água em torneiras instaladas em umas
das esquinas da Rua Candelária.
A cidade começou a progredir com a vinda da Yanmar, que
acabou “puxando” outras empresas para a cidade, como
a Ilma e a extinta Crovel. A partir daí, residências
e comércio também passaram a se instalar no bairro
Cidade Nova e bairros adjacentes.
Com boa memória, Tuta e Candelarinha se recordam de praticamente
todos os estabelecimentos comerciais e residências existentes
em Indaiatuba em sua juventude. O pai de Tuta tinha uma sapataria
na Rua 15 de Novembro. “Perto tinha a farmácia, a
loja do Feres, o alfaiate, o barbeiro e a padaria”, relata.
As duas ainda se recordam que, naquela época, o cinema
ficava na Rua 15 de Novembro, no mesmo quarteirão onde
hoje está instalado o HSBC.
As primas também comentam que o passeio pela praça
era a sensação dos finais de semana. “As mulheres
andavam do lado da calçada e os homens do lado de dentro
da praça”, contam. “Uns ofereciam músicas
para os outros, no alto-falante do seo Antonio Modanesi.”
Outra diversão era o baile que acontecia em um salão
na Rua 13 de Maio. “Vinha gente de trem de tudo quanto era
lugar”, revela Candelarinha.
Para as duas senhoras, Indaiatuba era melhor. “Ah, a Indaiatuba
do passado, meu Deus do céu!”, recorda-se Candelarinha.
Hoje, a violência as assusta. “Naquela época
as crianças brincavam na rua de roda, pega-pega, os adultos
ficavam sentados com cadeiras nas calçadas”, explicam.
“Hoje deu cinco e pouco da tarde você já tem
que trancar tudo. Eu já fui roubada aqui em plena área
central há uns seis anos”, enfatiza Candelarinha.
Ela lembra que quando era jovem havia um delegado em Indaiatuba
apelidado de “Gravatinha”, devido à utilização
incessante do acessório no pescoço. O delegado era
rígido e costumava “colocar ordem” nas ruas
da cidade. “Dava dez da noite ele passava e mandava todo
mundo entrar para casa”, narra. “Ele entrava até
no cinema para ver se não tinha ninguém se agarrando.”
O Indaiatuba Clube ficava no estacionamento existente na 15 de
Novembro, próximo à Caixa Econômica Federal.
Onde hoje estão os Correios e uma das lojas da Sapataria
São Vicente era um bar. As duas lamentam a retirada da
escola Randolfo da Praça D. Pedro II, no Centro. “É
uma judiação terem tirado a escola dali. Vi colocar
a pedra fundamental da escola”, comenta Candelarinha. “Agora
o Randolfo está sem casa”, completa Tuta.
As duas também lamentam a extinção do trem
da cidade. “Uma judiação, a gente ia para
São Paulo e fazia baldeação em Jundiaí”,
contam. Quem ia para Itu fazia baldeação no bairro
Itaici.
Candelarinha trabalhou como merendeira da Escola Randolfo durante
21 anos (1969 a 1990). Tuta era balconista (58 a 66) no Bazar
dos Expedicionários. Depois trabalhou em uma loja de móveis
e na Têxtil Judith de 1968 a 1976. Em 1983 prestou concurso
e se tornou inspetora da Escola Camilo Marques Paula, onde atuou
até 1985. Depois, de 1985 a 1992 trabalhou na Escola Geraldo
Enéas de Campos. Por fim, trabalhou por 12 anos como escriturária
do Cartório Eleitoral.
Preconceito
As primas citam uma diferença de costumes em relação
à atualidade: havia e-ventos sociais separados para
brancos e negros. “Negro não entrava em salão
de branco”, revela Tuta. “Mas quando eram nossos bailes
os brancos ficavam todos empoleirados na janela querendo espiar”,
reclama Candelarinha.
As duas também sentem falta das comemorações
de antigamente. A festa de São Benedito, por exemplo, é
lembrada com emoção. “Na época tinha
rei e rainha da festa. Uma banda ia buscar o rei e a rainha em
casa”, contam. “Também tinha pau-de- sebo.
Hoje não tem mais nada.”
Havia também em Indaiatuba uma “pista de aviação”,
um campinho onde desciam os teco-tecos. Era perto do Telhadão.
“Eu e minhas amigas íamos lá jogar futebol”,
revela Candelarinha.
Indaiatuba progrediu, o número de habitantes cresce a cada
ano, mas os idosos nascidos aqui conseguem, por meio de relatos,
manter viva a história da cidade. Que o Município
consiga manter o padrão de qualidade de vida, para que
outros de seus filhos indaiatubanos continuem contribuindo com
o desenvolvimento e preservação da história
local.
Breve histórico

Fazenda
Barroca Funda (Clube 9 de Julho)
O povoado de Indaiatuba foi primeiramente um dos bairros rurais
da Vila de Itu. O arraial aparece como Indayatiba nos registros
do censo de 1768. Esse arraial também é citado como
Cocaes, por causa dos seus campos de palmeiras Indaiá.
A história política de Indaiatuba inicia-se com
a ereção de sua capela curada, através da
doação de alguns imóveis feita por Pedro
Gonçalves Meira, em 1813. Por esse gesto, Pedro é
considerado o fundador de Indaiatuba. Ter sua capela curada possibilitou
ao pequeno bairro ser o centro civil local, uma vez que, puderam
ser feitos os batismos, casamentos e sepultamentos.
Em 9 de dezembro de 1830, Indaiatuba tornou-se, por decreto do
imperador, sede de uma das Freguesias da Vila de Itu, englobando
também os bairros de Itaici, Piraí, Mato Dentro
e Buru. Sua elevação à condição
de Vila ocorreu em 24 de março de 1859. Com esse novo estatuto
Indaiatuba ganha autonomia política em relação
a Itu, passando a ter sua própria Câmara.
Em torno da Matriz foram sendo construídas as residências
urbanas. Com o final do Império, as funções
públicas da Igreja desapareceram, e a cidade passou a contar
com dois centros: um religioso, no Largo da Matriz, e um civil,
no Largo da Cadeia, atualmente chamado de Praça Prudente
de Moraes. Nele se instalaram a Câmara, a Prefeitura e a
Cadeia, em um prédio no centro da praça, demolido
em 1962.
Em 1873 foram inauguradas as estações de trem de
Itaici e Pimenta, pontos da ferrovia que ligava Jundiaí
a Itu. A primeira estação na cidade foi construída
em 1880. O prédio principal dessa estação,
hoje Museu Ferroviário, foi inaugurado em 1911.
No Largo da Matriz funcionou também o primeiro grupo escolar
da cidade, no início do século 20. Esse Grupo passou
a chamar-se Randolfo Moreira Fernandes, em 1932, e em 1937 ganhou
um prédio na Praça D. Pedro II. A partir do final
do século 19 Indaiatuba recebeu muitos imigrantes da Suíça,
Alemanha, Itália, Espanha e, já no século
20, imigrantes do Japão. A partir da década de 1970,
o crescimento acelerou-se, baseado principalmente na expansão
da indústria.

Rua Bernardino de Campos com grande movimento de bicicletas na
década de 1980