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Cidade que
cativa


Ao completar 178 anos, Município comemora desenvolvimento e qualidade de vida procurados
por muitos novos habitantes


:: Por CYNTHIA SANTOS

Indaiatuba comemora em dezembro 178 anos. De simples sede da Freguesia da Vila de Itu, em 1830, a cidade celebra este ano o título de primeira do País em qualidade de vida, segundo a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan). A qualidade de vida, aliás, é o principal atrativo do Município, que vem conquistando muitos novos moradores, principalmente aqueles que querem fugir do caos dos grandes centros urbanos. Já quem nasceu em Indaiatuba, ou não pensa em sair, ou se saiu está louco para retornar.

O crescimento demográfico de Indaiatuba demonstra o interesse que a cidade desperta em moradores de outros municípios. De acordo com a Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), de 2001 a 2008 o número de moradores em Indaiatuba passou de 151.149 para 183.981, um crescimento de 21,72%. A cidade, ganha, em média, 4 mil novos moradores todo ano. Para 2010, a expectativa é que a cidade atinja a marca de 193 mil habitantes.

Seja pela beleza, pela hospitalidade do povo, pe­la qualidade de vida, pela violência menor do que em outras regiões, a terra dos indaiás tem cativado famílias inteiras. Estas adotam a cidade como sua nova morada e mal querem saber do local de onde vieram, tamanha a paixão por Indaiatuba. Este é o caso de Elsiere Claire Baz Mondio, 42 anos, (foto) moradora no loteamento Vale das Laranjeiras.

Mudança
Elsiere nasceu em Curitiba (PR) e morou na cidade paranaense até outubro de 2006, quando mudou-se para Indaiatuba para acompanhar o marido, que já estava instalado na cidade há dois anos, a trabalho. “Sempre quis morar no interior”, revela, com o sotaque carregado. Elsiere ama a cidade, mas lembra que os problemas também existem, e por isso, está sempre reivindicando seus direitos. “Indaiatuba é muito conhecida lá fora pela qualidade de vida, mas isso também é ilusão”, considera.

Embora esteja na cidade há dois anos, a curitibana revela que ainda está em processo de adaptação. “É mais difícil conseguir mão-de-obra qualificada, fazer compras em shopping, falta educação”, observa. No entanto, os pontos positivos de Indaiatuba também são lembrados. “Aqui você ainda tem tranqüilidade e ar puro. Lugar perfeito não existe e acredito que Indaiatuba vá melhorar muito, em todos os quesitos”, comenta. A diferença entre vir a Indaiatuba a passeio e residir na cidade também é ressaltada por Elsiere, que freqüentou o Município durante dois anos, antes de vir para cá “de mala e cuia”. “É impressionante como a cidade mudou em dois anos”, analisa. “Quando comecei a vir pra cá, em 2004, havia muitas bicicletas. Quando me mudei para cá, dois anos depois, só tinha moto.”

Elsiere mora com o marido Enrico e o filho Grego’s, de 16 anos, no loteamento Vale das Laranjeiras. “Sempre preferi este tipo de ambiente, até os 18 anos morei em chácara, apesar de eu ser muito agitada”, reconhece. O filho também teve problemas para se adaptar e queria voltar a morar em Curitiba a todo custo. “Foi muito difícil, mas hoje ele está mais adaptado do que eu”, comemora. Elsiere lembra que, como a cidade era desconhecida, era difícil deixar o filho sair sozinho. “Quando chegamos em Indaiatuba eu o prendi, porque não conhecia ninguém”, lembra. Agora, o problema está sanado. “Ele adora Indaiatuba, se diverte muito, tem um monte de amigos. Aqui as pessoas são mais sociáveis do que em outros lugares”, analisa.

Foi a hospitalidade do povo indaiatubano, aliás, que cativou Elsiere. “O pessoal aqui da cidade é muito gente boa, puxam papo, conversam em qualquer lugar”, observa. O carisma da cidade é tão grande que a curitibana revela não sentir tanta falta da cidade natal. “Hoje posso dizer que 60% do tempo prefiro Indaiatuba”, explica. “Sinto falta da estrutura que Curitiba oferece, como mão-de-obra qualificada. Mas se recebesse convite para voltar para Curitiba, como já aconteceu, continuaria morando em Indaiatuba.”

 

Se dividir entre Indaiatuba
e São Paulo é muito comum



Camila (ao centro)
com os irmãos
Juliana e Gustavo

Além das pessoas que adotam Indaiatuba como cidade do coração, há também aquelas nascida aqui, mas que necessitam morar fora, seja devido ao trabalho ou aos estudos. O agito das grandes cidades atrai muitos “filhos” de Indaiatuba, mas eles revelam: a saudade da cidade natal é grande. Por isso, sempre que podem, vêm visitar a família e os amigos.

Indaiatuba tem inúmeros casos de habitantes que moram em São Paulo durante a semana e que voltam para a casa na sexta-feira à noite. A coordenadora de vendas Camila Ratti Pistoni, 29 anos, é uma das indaiatubanas que, por questões profissionais, reside na capital, mas volta todo final de semana para o aconchego da casa dos pais, Vera e Antonio.

Camila mora em São Paulo desde setembro de 2007. Mas esta não é sua primeira experiência longe de Indaiatuba. Entre 2003 e 2004, morou em Portugal. Nos dois casos, a saudade da família e dos amigos é grande. Prova disso é que desde que passou a residir na capital vem para Indaiatuba todo final de semana, exceto quando precisa trabalhar.

Para a coordenadora de vendas, a principal diferença entre morar em Indaiatuba e São Paulo é a qualidade de vida. “Sem dúvida a qualidade de vida que Indaiatuba oferece não encontro em uma cidade como São Paulo”, observa.

Quando está na capital, sente saudades principalmente da família. “Casa com cheiro de mãe e pai, dos meus bichos”, cita. Camila também sente falta de “fazer um social” com os amigos. “A rotina de trabalho de São Paulo e outros fatores como trânsito e distância entre o trabalho e minha casa não permitem encontrar os amigos com tanta freqüência”, justifica.

Fatores como a distância da família e dos amigos levam Camila a cogitar a possibilidade de voltar a morar em Indaiatuba, apesar do trabalho. No início de 2009, fará um teste com um dos ônibus fretados que fazem o trajeto entre Indaiatuba e São Paulo, a fim de passar mais tempo na casa dos pais e estar mais próxima dos amigos. “Tenho planos de voltar definitivamente para Indaiatuba dentro de cinco anos”, revela.

A capital paulista, entretanto, tem alguns atrativos não encontrados facilmente em Indaiatuba. Camila cita a ampla variedade de opções de cultura e lazer, como teatros, shows, exposições e restaurantes temáticos. “Em São Paulo temos supermercados, cafés e até lavanderias que funcionam 24 horas”, argumenta.

Amizades
Em São Paulo, a coordenadora de vendas acabou se aproximando de pessoas que estão na mesma situação, criando uma rede de contatos. “Estes amigos que de segunda a sexta ficam em São Paulo e no final de semana voltam para a casa dos pais acabam se tornando uma segunda família”, explica. “Procuramos nos encontrar ao menos uma vez na semana, ou na minha casa, ou na casa de alguma delas, ou saímos para comer algo, para colocar os assuntos em dia. Sinto também, que é muito difícil fazer novas amizades fora do ambiente de trabalho.”

Indústrias são
atrativo da cidade

A qualidade de vida, sem dúvida, é um chamariz para que Indaiatuba ganhe novos moradores. Mas o que impulsiona o desenvolvimento e traz mais habitantes para a cidade, movimentando a economia, são as indústrias. É o que garante a secretária municipal de Desenvolvimento, Graziela Milani Narezzi (foto).

Em Indaiatuba, é natural que um profissional que venha trabalhar na cidade acabe migrando com a família. “Aqui você encontra qualidade de vida, o que não tem em cidades maiores, que têm muito trânsito, violência”, observa. “Ainda temos a vantagem de estar próximo aos grandes centros”, diz. Para Graziela, as famílias escolhem morar em Indaiatuba para ficarem mais “seguras”.

A secretária acredita que Indaiatuba cresce de forma organizada. “O Plano Diretor do Município vem sendo respeitado”, diz. Ela destaca ainda as opções de lazer, de escolas, de serviços. “Indaiatuba não deixa nada a desejar para nenhuma cidade da região”, defende. Outros atrativos da cidade apontados por Graziela são o shopping que deverá ser inaugurado em 2010, além de supermercados e lojas de grandes redes, que vêm se instalando na cidade. “Indaiatuba está com um panorama muito bom”, analisa.

Graziela enfatiza que a preocupação da administração municipal é manter o padrão de vida de Indaiatuba. Este ano, a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) divulgou que o Município ficou em 1º lugar no quesito qualidade de vida entre todos os municípios brasileiros. “Isso gera maior responsabilidade”, reconhece. “O desenvolvimento urbano gera um déficit social e temos mais demanda na saúde, em creches”, aponta. “A administração municipal tenta fazer com que Indaiatuba se desenvolva, mas sempre vai ter déficit.”

Graziela acredita que o índice Firjan - a avaliação divulgada este ano é referente a 2005 - deve continuar em patamar elevado nos próximos anos. “Visivelmente só há melhoras”, diz. O mais importante, de acordo com a secretária, é que o Firjan também mede a empregabilidade nos municípios. “Isso é bom, porque o índice de desemprego em Indaiatuba é baixo e ajuda a melhorar a avaliação da cidade”, explica.


A expectativa da administração municipal é que a área industrial continue em franco crescimento, apesar da crise econômica mundial. “Ainda não sentimos falta de interesse do setor, apesar da crise”, revela. “O PAT (Posto de Atendimento ao Trabalhador) continua contratando muito.” A procura por Indaiatuba continua grande, garante a titular da Secretaria de Desenvolvimento. “Recebemos muitas solicitações de informações sobre a cidade via e-mail e por isso foi criado o Business Tour, um projeto que visa apresentar os principais pontos da cidade para futuros moradores e empresários”, argumenta.

Atenção
Para a secretária, além da responsabilidade em manter a qualidade de vida, o Poder Público deve estar atento para a questão do trânsito local. “Indaiatuba não é mais a mesma de 20 anos atrás”, reconhece. “Acredito que o grande passo seria melhorar o sistema de transporte coletivo e investir em outros meios de transporte.” Graziela cita a bicicleta como uma alternativa para “desafogar” o fluxo de veículos na cidade. “Aqui as pessoas estão deixando de andar de bicicleta, mas esta séria uma alternativa, adotada em países da Europa, por exemplo.”

Outra característica positiva de Indaiatuba destacada pela secretária de Desenvolvimento é a preocupação com o meio ambiente. Graziela destaca o plantio de 50 mil árvores, realizado em novembro, em uma área na Fazenda Pimenta. Ela enumera ainda outros “feitos” de Indaiatuba na área, como a construção da Estação de Tratamento de Esgoto e premiações concedidas por institutos voltados para o tema, como a certificação obtida no ano passado, de município Parceiro da Paz e de Sustentabilidade, honraria outorgada pela International Global Water Coalition (IGWC). Mas reconhece que o Município ainda precisa investir em pontos importantes, como a reciclagem do lixo.

“Deveria haver uma lei federal obrigando as cidades a reciclarem o lixo”, opina.
“O projeto do Biodiesel Urbano também é excelente, mas ainda encontramos dificuldades na coleta. Esta é uma questão cultural. A questão do meio ambiente é um trabalho de formiguinha, é questão de educação ambiental e estamos, em nível nacional, engatinhando no assunto.”


Memória viva
de Indaiatuba

Indaiatuba tem filhos “adotivos”, que aqui vieram morar e amam o Município por diversos motivos. Mas tem também aqueles filhos que aqui nasceram e não trocam a cidade por nada. A convivência no mesmo local por muitos anos faz com que estes ilustres moradores se tornem a memória viva de Indaiatuba.
O aposentado José Pedro Antônio, (foto) mais conhecido como Zé da Gaita, 70 anos, é um dos moradores nascidos na cidade que mantém um amor incondicional por Indaiatuba. A paixão é tanta que Zé da Gaita possui diversos álbuns com fotografias antigas da cidade. Como se não bastasse, escreve resumos sobre a história da cidade ao lado das fotos e diz que pretende escrever um livro sobre a cidade.

Zé da Gaita nasceu em Indaiatuba e durante um período da infância morou na Rua Adhemar de Barros, uma das poucas que compunham a área urbana. Mais tarde, mudou-se para a Rua Bernardino de Campos. “Era uma rua de terra, que descia para o Chafariz”, lembra. No final, onde hoje é o Parque Ecológico, havia um buraco cheio de entulho. A diversão das crianças na época era brincar com cavalinho de pau feito de bambu ou carrinhos de madeira. O aposentado estudou até o 4º ano (hoje 4ª série do ensino fundamental) no então Grupo Escolar Randolfo Moreira Fernandes, como quase todos da sua geração.

Indaiatuba demorou para mudar, segundo Zé da Gaita. “A cidade era só as ruas centrais”, explica. “Terminava no Cemitério da Candelária. Depois do cemitério não tinha nem água e nem luz.” O Bairro Santa Cruz também não tinha energia elétrica. A cidade era dividida pela linha de trem. “Para lá da linha era conhecido como ‘o outro lado’”, ironiza.

A Indaiatuba de décadas atrás também contava com poucas opções de lazer: um circo, um cinema e a famosa paquera na Praça Prudente de Moraes. “Comecei a sair só quando fiquei maior de idade”, revela. “O ponto de encontro era a praça. Era um programa para família, jovens e idosos, todo mundo ia para a praça ver a banda tocar no coreto.”

Quando havia procissão, ninguém voltava para casa. Os populares ficavam na Praça Prudente de Moraes e os jovens aproveitavam para paquerar. Os homens ofereciam músicas para as moças. Na época, a Prefeitura ficava no centro da praça e o sistema de som na parte superior. “Na década de 60 eu fazia ‘bico’ no serviço de alto-falante”, relata.

Bicicletas
Outra diferença marcante é que Indaiatuba era dominada pelas bicicletas. Ver carros transitando era raridade. Além disso, a cidade era calma. Casos de violência eram apenas histórias “distantes”. As pessoas tinham costume de sentar na praça ou nas calçadas para conversar. “Colocavam as cadeiras em frente à praça e ficavam vendo o povo passar”, diz.

“O maior divertimento era o cinema”, diz. Zé da Gaita conta que o primeiro cinema ficava na Rua 15 de Novembro, era o Cine Recreio, na década de 30. Na década de 40, foi comprado por um padre e passou a se chamar Cine Santo Antônio. “Naquela época só tinha cinema mudo”, lembra.

Zé da Gaita acredita que a principal mudança ocorrida em Indaiatuba foi a
industrialização. “Antes tinha umas cinco indústrias na cidade”, comenta. Com ótima memória, lembra-se de todas: Vilanova, que fabricava cabos de guarda-chuva; Mazzoni, que produzia as varetas para os guarda-chuvas; o cotonifício, que beneficiava algodão; Amil – Artefatos de Madeira Indaiatuba Ltda. e a Fábrica de Cachimbos Ranieri. “A sirene do cotonifício dava para ouvir a 15 quilômetros de distância”, conta.

O local de trabalho determinava as chances de sucesso dos rapazes no quesito “relacionamento amoroso”. “A primeira coisa que as moças perguntavam era ‘onde você trabalha?’”, explica. “Vagabundo já não era bem visto. Os pais faziam os filhos trabalharem.” De acordo com Zé da Gaita, as moças da época de sua juventude preferiam os rapazes que trabalhavam em comércio. “Se você falasse que trabalhava em indústria elas já davam o fora”, garante.



1889 - Rua Bernardino de Campos (ao lado)




Cine Rex (abaixo), década de 50

Outra curiosidade de antigamente é que o “veículo” da funerária da cidade era uma carroça, que transportava o caixão. O condutor da carroça usava roupa preta e cartola. Os costumes eram bem diferentes. “Quando morria alguém, a família pagava e um panfleto era distribuído pela cidade inteira”, explica. “A carroça da funerária levava o corpo até a igreja, para o padre benzer.”
O aposentado conta que tem saudades da cidade calma de outrora, quando podia sair sem receio de ser assaltado. “Hoje, para ir até a esquina, você tem medo”, justifica. Outra diferença é que antigamente, com a população reduzida, todos se conheciam em Indaiatuba. “Hoje tem muita gente que não conhecemos”, aponta.
Apesar das mudanças, Zé da Gaita revela que nunca pensou em se mudar de Indaiatuba, nem mesmo para trabalhar. “Esta é uma cidade boa para morar”, enfatiza. “Certa vez tentaram me transferir para Pirassununga, mas eu não quis ficar.”



Sede dos Correios e da Viação Bonavita
(final do quarteirão) na década de 1960



Fazenda Engenho D´Água
(atual sede da Faculdade Politécnica)

Quebra-cabeça
Outras duas pessoas conhecidas dos indaiatubanos também se recordam bem da Indaiatuba de tempos atrás. As aposentadas Anistarda Clemente Caldeira, a Candelarinha, 83 anos (foto), e sua prima Maria Benedita Bento Sebastião, a Tuta, 68 anos, lembram-se de praticamente todos os imóveis que ocuparam a área central de Indaiatuba quando eram jovens. Relatam nomes e endereços como se estivessem montando um quebra-cabeça da cidade.

Candelarinha conta que nasceu na Fazenda Sertão, onde foi criada. Aos 12 anos, já trabalhava como empregada doméstica e acabou indo morar em outras cidades, como Santos e São Paulo. Depois de uma temporada ausente de Indaiatuba, voltou para a cidade, indo morar na Fazenda das Pedras, “para lá de Itaici”, como descreve.

Aos 17 anos passou a morar na área urbana, na Rua 9 de Julho. Candelarinha diz que na época Indaiatuba “já era mais ou menos desenvolvida. “Já tinha o Cotonifício”, lembra. As ruas eram de terra e não havia água encanada. Os habitantes pegavam água em torneiras instaladas em umas das esquinas da Rua Candelária.

A cidade começou a progredir com a vinda da Yanmar, que acabou “puxando” outras empresas para a cidade, como a Ilma e a extinta Crovel. A partir daí, residências e comércio também passaram a se instalar no bairro Cidade Nova e bairros adjacentes.

Com boa memória, Tuta e Candelarinha se recordam de praticamente todos os estabelecimentos comerciais e residências existentes em Indaiatuba em sua juventude. O pai de Tuta tinha uma sapataria na Rua 15 de Novembro. “Perto tinha a farmácia, a loja do Feres, o alfaiate, o barbeiro e a padaria”, relata. As duas ainda se recordam que, naquela época, o cinema ficava na Rua 15 de Novembro, no mesmo quarteirão onde hoje está instalado o HSBC.

As primas também comentam que o passeio pela praça era a sensação dos finais de semana. “As mulheres andavam do lado da calçada e os homens do lado de dentro da praça”, contam. “Uns ofereciam músicas para os outros, no alto-falante do seo Antonio Modanesi.” Outra diversão era o baile que acontecia em um salão na Rua 13 de Maio. “Vinha gente de trem de tudo quanto era lugar”, revela Candelarinha.

Para as duas senhoras, Indaiatuba era melhor. “Ah, a Indaiatuba do passado, meu Deus do céu!”, recorda-se Candelarinha. Hoje, a violência as assusta. “Naquela época as crianças brincavam na rua de roda, pega-pega, os adultos ficavam sentados com cadeiras nas calçadas”, explicam. “Hoje deu cinco e pouco da tarde você já tem que trancar tudo. Eu já fui roubada aqui em plena área central há uns seis anos”, enfatiza Candelarinha. Ela lembra que quando era jovem havia um delegado em Indaiatuba apelidado de “Gravatinha”, devido à utilização incessante do acessório no pescoço. O delegado era rígido e costumava “colocar ordem” nas ruas da cidade. “Dava dez da noite ele passava e mandava todo mundo entrar para casa”, narra. “Ele entrava até no cinema para ver se não tinha ninguém se agarrando.”

O Indaiatuba Clube ficava no estacionamento existente na 15 de Novembro, próximo à Caixa Econômica Federal. Onde hoje estão os Correios e uma das lojas da Sapataria São Vicente era um bar. As duas lamentam a retirada da escola Randolfo da Praça D. Pedro II, no Centro. “É uma judiação terem tirado a escola dali. Vi colocar a pedra fundamental da escola”, comenta Candelarinha. “Agora o Randolfo está sem casa”, completa Tuta.

As duas também lamentam a extinção do trem da cidade. “Uma judiação, a gente ia para São Paulo e fazia baldeação em Jundiaí”, contam. Quem ia para Itu fazia baldeação no bairro Itaici.

Candelarinha trabalhou como merendeira da Escola Randolfo durante 21 anos (1969 a 1990). Tuta era balconista (58 a 66) no Bazar dos Expedicionários. Depois trabalhou em uma loja de móveis e na Têxtil Judith de 1968 a 1976. Em 1983 prestou concurso e se tornou inspetora da Escola Camilo Marques Paula, onde atuou até 1985. Depois, de 1985 a 1992 trabalhou na Escola Geraldo Enéas de Campos. Por fim, trabalhou por 12 anos como escriturária do Cartório Eleitoral.

Preconceito
As primas citam uma diferença de costumes em relação à atualidade: havia e­-ventos sociais separados para brancos e negros. “Negro não entrava em salão de branco”, revela Tuta. “Mas quando eram nossos bailes os brancos ficavam todos empoleirados na janela querendo espiar”, reclama Candelarinha.
As duas também sentem falta das comemorações de antigamente. A festa de São Benedito, por exemplo, é lembrada com emoção. “Na época tinha rei e rainha da festa. Uma banda ia buscar o rei e a rainha em casa”, contam. “Também tinha pau-de- sebo. Hoje não tem mais nada.”

Havia também em Indaiatuba uma “pista de aviação”, um campinho onde desciam os teco-tecos. Era perto do Telhadão. “Eu e minhas amigas íamos lá jogar futebol”, revela Candelarinha.

Indaiatuba progrediu, o número de habitantes cresce a cada ano, mas os idosos nascidos aqui conseguem, por meio de relatos, manter viva a história da cidade. Que o Município consiga manter o padrão de qualidade de vida, para que outros de seus filhos indaiatubanos continuem contribuindo com o desenvolvimento e preservação da história local.


Breve histórico



Fazenda Barroca Funda (Clube 9 de Julho)


O povoado de Indaiatuba foi primeiramente um dos bairros rurais da Vila de Itu. O arraial aparece como Indayatiba nos registros do censo de 1768. Esse arraial também é citado como Cocaes, por causa dos seus campos de palmeiras Indaiá. A história política de Indaiatuba inicia-se com a ereção de sua capela curada, através da doação de alguns imóveis feita por Pedro Gonçalves Meira, em 1813. Por esse gesto, Pedro é considerado o fundador de Indaiatuba. Ter sua capela curada possibilitou ao pequeno bairro ser o centro civil local, uma vez que, puderam ser feitos os batismos, casamentos e sepultamentos.

Em 9 de dezembro de 1830, Indaiatuba tornou-se, por decreto do imperador, sede de uma das Freguesias da Vila de Itu, englobando também os bairros de Itaici, Piraí, Mato Dentro e Buru. Sua elevação à condição de Vila ocorreu em 24 de março de 1859. Com esse novo estatuto Indaiatuba ganha autonomia política em relação a Itu, passando a ter sua própria Câmara.

Em torno da Matriz foram sendo construídas as residências urbanas. Com o final do Império, as funções públicas da Igreja desapareceram, e a cidade passou a contar com dois centros: um religioso, no Largo da Matriz, e um civil, no Largo da Cadeia, atualmente chamado de Praça Prudente de Moraes. Nele se instalaram a Câmara, a Prefeitura e a Cadeia, em um prédio no centro da praça, demolido em 1962.

Em 1873 foram inauguradas as estações de trem de Itaici e Pimenta, pontos da ferrovia que ligava Jundiaí a Itu. A primeira estação na cidade foi construída em 1880. O prédio principal dessa estação, hoje Museu Ferroviário, foi inaugurado em 1911.

No Largo da Matriz funcionou também o primeiro grupo escolar da cidade, no início do século 20. Esse Grupo passou a chamar-se Randolfo Moreira Fernandes, em 1932, e em 1937 ganhou um prédio na Praça D. Pedro II. A partir do final do século 19 Indaiatuba recebeu muitos imigrantes da Suíça, Alemanha, Itália, Espanha e, já no século 20, imigrantes do Japão. A partir da década de 1970, o crescimento acelerou-se, baseado principalmente na expansão da indústria.



Rua Bernardino de Campos com grande movimento de bicicletas na década de 1980

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