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:: Por Maria Cecília Pigatto *

Elfo, muito prazer

Quando eu era pequena, nunca me preocupei com pequenos detalhes domésticos. Acho que nenhuma criança se preocupa. Que eu me lembre nunca me
questionei sobre como o saquinho de lixo de banheiro sai cheio e volta vazio. É fantástico!


E as meias e as calcinhas então!? Incrível! Um dia a gaveta está quase vazia, e, no outro... tcham... tcham.... tcham.... elas voltaram e estão lá cheirosas e dobradinhas.
É chinelo e sapato que sai da sala e vai andando para a sapateira. É o copo de refrigerante que pula do sofá e vai para a pia. E o melhor é que ele se lava, se seca e dá um mortal para o armário!

Agora o mais incrível de todos, é ele, o essencial, o inigualável: papel higiênico. Alguém já reparou quantas vezes por dia ou por semana ele chega novinho no suporte do banheiro?

E quando se tem hóspedes então? E eu que pensava que tudo isso era feito num passe de mágicas, por alguém mais parecido com um Elfo do que com um ser humano. Mas, infelizmente, eu cresci e descobri que por trás de toda aquela linha de produção, havia uma pessoa. Alguém que fazia do lar uma verdadeira empresa.
E olha que tem lares por aí maiores que muitas empresas. Conheço gente que roda uma folha de pagamento por mês: é a empregada de todo dia, a diarista pra faxina pesada, o jardineiro, o moço que limpa a piscina, a babá. Eu estou longe de rodar uma folha de pagamento, mas tenho uma ajudante do lar, uma vez na semana. E sem ela eu não sobreviveria. Mas mesmo assim, a carga maior é minha mesmo.

Confesso que sou um pouco Amélia (entenda bem, eu disse “um pouco”). Quando eu era adolescente gostava de limpar meu quarto. Pegava panos limpos, dos melhores que tinha, e todos os produtos de limpeza que encontrava. Tirava tudo e limpava. Depois pegava todos os panos sujos, (sujava vários, pois usava um para cada espaço diferente), o rodo, a vassoura, o balde, todos os 15 produtos, e jogava tudo na lavanderia. Horas depois... plim!! O Elfo já tinha colocado os panos de molho, a vassoura já estava limpa escorrendo, o balde e o rodo já estavam guardados no armário.

É, agora vejo que a vida de um Elfo não era fácil. Não venço em trocar o lixo da pia da cozinha, o saquinho de lixo dos banheiros, repor o rolo de papel higiênico. Já cheguei a trocar seis rolos de papel num dia só!

Estou ficando até com câimbra de tanto encher o suporte de sabonete líquido do lavado! Água gelada? Todo mundo gosta, mas é “a Elfa” aqui que fica plantada segurando a garrafa até enchê-la no filtro. E quando sobra comida na geladeira? Ela vai ficar lá até se desintegrar? E o gelo? As pessoas acham o quê? Que atrás da geladeira tem uma nascente de água e o gelo brota?

Quero saber quem foi o infeliz que inventou essa história de Elfos. Agora eu estou frustrada. Que decepção! Tudo bem que Papai Noel e Coelhinho da Páscoa também não existem, mas isso eu descobri com 8 anos (na verdade foi bem antes). Agora, nessa altura do campeonato, quase beirando os 30, descobrir que Elfos não existem é sacanagem! Quisera eu poder continuar acreditando em duendes, pelo menos assim, deixaria tudo pra ele fazer.

Bom, agora tenho que ir porque o meu marido, que acabou de tomar banho, está lá molhado dentro do box berrando: “Amooooor... fala pro Elfo pegar uma toalha pra mim”.


*Maria Cecília Pigatto é funcionária pública, advogada e nas horas vagas escreve, lava, passa e cozinha | www.cissapigatto.blogspot.com

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