:: Por CYNTHIA
SANTOS
Brincadeiras
entre crianças e adolescentes na fase escolar são
comuns. No entanto, a distinção entre o que é
ou não saudável para os alunos tem virado motivo
de preocupação de pais e educadores. O bullying,
fenômeno caracterizado por atitudes agressivas entre os
colegas, culminando em atos de humilhação e até
mesmo violência física, é conhecido mundialmente
como um dos principais vilões da educação.
Decorrente da palavra bully (“valentão”),
bullying é um termo inglês utilizado para descrever
atos de violência física ou psicológica, intencionais
e repetidos, praticados por um indivíduo ou grupo de indivíduos
com o objetivo de intimidar ou agredir alguém incapaz de
se defender.
Se não detectado pelos professores ou pais, o problema
pode levar ao desinteresse do aluno pelas atividades escolares
e, em casos extremos, acarretar em depressão, já
que as agressões verbais e físicas costumam ser
constantes e em geral destacam os pontos fracos da vítima,
como magreza, obesidade, ou outro aspecto da aparência que
o desagrade.
A escola deve estar sempre atenta às brincadeiras que acabam
se tornando agressivas ou violentas. Exemplo de que a preocupação
não é em vão é que este ano a Secretaria
da Educação do Estado de São Paulo distribuiu
cartilhas aos professores no início do ano letivo alertando
sobre o problema. Além disso, desde o início do
mês de abril, a organização não governamental
(ONG) Um Milhão de Amigos – Cidadania e Motivação
desenvolve um trabalho sobre o tema nas 25 escolas estaduais de
Indaiatuba.
O
problema é grave e merece atenção. É
o que informa a pedagoga e psicopedagoga Rosângela Silva,
diretora do Colégio Escala, que fala sobre o assunto na
entrevista a seguir:
Revista da Tribuna: O que
é bullying?
Rosângela: É o ato de colocar apelidos,
ofender, humilhar, discriminar, excluir, agredir, bater, quebrar
pertences. São atitudes intencionais e repetitivas. Se
for uma vez ou outra, não caracteriza bullying.
Revista da Tribuna: O problema é
uma novidade nas escolas?
Rosângela: Não. O bullying sempre existiu,
mas hoje os estímulos são maiores e a falta de contenção
dos pais fez o problema se agravar.
Revista da Tribuna: Como o fenômeno
ocorre?
Rosângela: Em geral acontece mais entre os meninos,
mas as meninas também não ficam muito atrás.
Os alunos ‘tramam’ formas de desestabilizar o colega,
destacando seus pontos negativos, geralmente se a criança
é muito magra, obesa, ou se tem alguma característica
que chame a atenção, como um dente muito para frente,
por exemplo. A criança que pratica o bullying não
olha para o outro, não é solidária.
Revista da Tribuna: Como a escola deve
agir frente ao problema?
Rosângela: A escola não pode deixar o problema
se avolumar, pois senão o ambiente fica insuportável.
Para evitar a falta de controle, deve ser feito um trabalho cotidiano,
para detectar o bullying logo no início.
Revista da Tribuna: Tendo detectado um
caso de bullying, qual é o papel da escola?
Rosângela: A escola deve chamar os pais do agressor
e da vítima, e relatar o problema. O correto é trabalhar
com o agressor, para suavizar seu comportamento e também
com a vítima, buscando fortalecê-la. A escola não
pode deixar passar nada sem tratamento. O correto é chamar
e ouvir as partes, porque às vezes o jovem não entende
o que está acontecendo.
Revista da Tribuna: Se a escola não
perceber o problema, que medidas os pais devem adotar?
Rosângela: O pai tem que procurar a escola e relatar
o que está acontecendo. Às vezes o aluno não
conta para o professor por medo, receio dos colegas.
Revista da Tribuna: O bullying tem idade
para acontecer?
Rosângela: Não. Entre crianças de
3 a 6 anos já é possível identificar atos
relacionados, ou pequenas mentiras. De 9 anos em diante o bullying
fica mais evidente, é uma fase em que o menino não
quer brincar com menina, por exemplo. Mas o auge ocorre entre
13 e 14 anos, porque começam os conflitos da adolescência.
Revista da Tribuna: Os pais têm
uma parcela de culpa nestes casos?
Rosângela: Atualmente alguns pais estão
perdidos, delegam muito a educação dos filhos para
a escola, mas também se sentem culpados por trabalharem
demais e acabam superprotegendo as crianças. Isso não
é bom nem para os mais frágeis nem para os mais
fortes, que ficam com a auto-estima muito elevada.
Revista da Tribuna: Existem casos em
que o aluno vítima de bullying necessita recorrer a psicólogos?
Rosângela: Sim. Às vezes nem a família
e nem a escola conseguem resolver o problema, então é
necessário fazer o encaminhamento para profissionais.
Revista da Tribuna: É difícil
para a escola identificar o problema?
Rosângela: Sim. O mais pesado são as questões
morais, que mexem com a autoestima. Este é o maior perigo
porque é uma questão velada, com provocações,
ameaças. Quando a agressão é verbal, muitas
vezes o agressor faz quando não tem nenhum adulto por perto.
Revista da Tribuna: As agressões
pela internet também se enquadram em bullying?
Rosângela: Quando ocorre pela internet é
o cyberbullying, que é deixar alguma mensagem vexatória
no Orkut, MSN, entre outros. Isso acaba virando problema da escola,
principalmente quando montam uma comunidade contra alguém,
ou reclamando de alguma aula. Às vezes o aluno briga na
escola e a briga se estende para a internet.
Características do bullying
O que é: todas as formas de atitudes agressivas,
intencionais e repetidas, que ocorrem sem motivação
evidente, adotadas por um ou mais estudantes contra outro(s),
causando dor e angústia, e executadas dentro de uma relação
desigual de poder.
Onde ocorre: é um problema
mundial, sendo encontrado em toda e qualquer escola, não
estando restrito a nenhum tipo específico de instituição:
primária ou secundária, pública ou privada,
rural ou urbana.
Autores: são, comumente, indivíduos que têm
pouca empatia. Frequentemente, pertencem a famílias desestruturadas,
nas quais há pouco relacionamento afetivo entre seus membros.
Alvos: pessoas ou grupos que são
prejudicados ou que sofrem as consequências dos comportamentos
de outros e que não dispõem de recursos, status
ou habilidade para reagir ou fazer cessar os atos danosos contra
si. São, geralmente, pouco sociáveis.
Testemunhas: representadas pela
grande maioria dos alunos, convivem com a violência e se
calam em razão do temor de se tornarem as “próximas
vítimas”. Apesar de não sofrerem as agressões
diretamente, muitas delas podem se sentir incomodadas com o que
veem e inseguras sobre o que fazer.
Consequências sobre o ambiente escolar:
quando não há intervenções
efetivas, o ambiente escolar torna-se totalmente contaminado.
Todas as crianças, sem exceção, são
afetadas negativamente, passando a experimentar sentimentos de
ansiedade e medo.
Consequências sobre os alvos: as
crianças que sofrem bullying, dependendo de suas características
individuais e de suas relações com os meios em que
vivem, em especial as famílias, poderão não
superar, parcial ou totalmente, os traumas sofridos na escola.
Poderão crescer com sentimentos negativos, especialmente
com baixa autoestima, tornando-se adultos com sérios problemas
de relacionamento. Poderão assumir, também, um comportamento
agressivo.
Consequências para os autores: aqueles
que praticam bullying contra seus colegas poderão levar
para a vida adulta o mesmo comportamento antisocial, adotando
atitudes agressivas no seio familiar (violência doméstica)
ou no ambiente de trabalho.
Fonte: Associação Brasileira
Multiprofissional de
Proteção à Infância e à Adolescência
(Abrapia)