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Vencendo barreiras e colecionando vitórias


Deficiente visual é exemplo de que a vida
continua após uma grave doença



:: Por CYNTHIA SANTOS

É comum presenciar pessoas reclamando das dificuldades encontradas ao longo da vida. Algumas sentem-se injustiçadas após sofrerem perdas materiais, outras reclamam diante de uma doença simples. Mas e quando a doença ou o trauma é grave o suficiente para alterar todo o curso de uma vida? Revoltar-se? Ou encarar o problema com coragem e dar a volta por cima? O atleta Helder Felipe Barretta Von Ah, 26 anos, escolheu a segunda opção e não deixou a perda de visão, há três anos, levar consigo o bom humor. Exemplo de superação e detentor de uma série de conquistas nos esportes este ano, Helder é o personagem escolhido pela Revista da Tribuna para uma homenagem a todas as pessoas portadoras de deficiências.

Helder é portador de glaucoma congênito e desde pequeno enfrentava problemas de visão. “Eu enxergava pouco, mas andava sozinho”, explica. “Na escola eu não enxergava a lousa, mas enxergava o caderno.” A possibilidade de ficar totalmente cego sempre existiu, mas o atleta diz que nunca acreditou que aconteceria tão cedo: ele perdeu a visão aos 23 anos. A cegueira total não foi repentina. Seis meses antes, Helder começou a ter perdas gradativas, ia para São Paulo dia sim, dia não, para se submeter a tratamentos, mas não conseguiu evitar que o glaucoma avançasse.

Em 2005, chegou a passar por algumas cirurgias para tentar reverter o quadro, mas em vão. A última operação foi no dia 6 de junho de 2006. “Voltei a enxergar um tempo, mas três meses depois minha visão piorou de vez”, lembra. “O médico disse que, caso eu resolva passar por uma nova cirurgia, posso recuperar a visão temporariamente, mas vai durar muito menos de três meses.”

Embora saiba que o quadro clínico é irreversível, Helder revela que ainda tem esperanças de um dia voltar a enxergar. “Nunca se sabe, né?”, comenta o atleta. A mesma fé é compartilhada pela mãe, Ana Lúcia Barretta. “Para Deus nada é impossível”, enfatiza. Apesar do problema que o atingiu muito cedo, Helder é uma pessoa que esbanja bom humor e diz que nunca se revoltou com sua condição. “Nunca fui menos feliz por isso”, revela.

O problema na visão trouxe mudanças de comportamento. Uma delas foi a disciplina em relação à prática de esportes. Helder, que já gostava de atividades físicas, passou a se dedicar com mais constância. “Antes eu fazia, mas não tinha disciplina, não levava muito a sério”, reconhece.

Treinamento
Depois de um tempo de recuperação das cirurgias e tratamentos, começou a praticar natação. Em janeiro de 2007, começou também a correr, junto com seu primo e guia Rafael Wolf. “Ele quase ‘acabou’ comigo, porque eu estava sem condicionamento físico, inchado por causa dos remédios”, conta. Helder pegou gosto pelos esportes e, desde que começou a competir, só tem trazido medalhas e alegrias para Indaiatuba, figurando com freqüência no noticiário esportivo. “Trouxe medalhas de todas as provas que participei”, revela. Além de Rafael, Helder tem como guia o colega Rubem Dorival Tomaselli, o Rubinho.

Modesto, o atleta diz que apenas no caso da natação se dedica com afinco, para vencer. “Daqui a quatro anos quero estar nas Paraolimpíadas”, planeja. “Na natação tem mais atletas competindo, porque é individual. No caso da corrida e do ciclismo, é preciso um guia, por isso, tem menos gente competindo e tenho mais chances de vencer”, observa.

Atualmente, Helder é disciplinado e tem uma rotina pesada de treinamentos. De segunda a sexta-feira acorda às 5 horas. Treina natação na Academia Taquaral das 6h às 9h. Em seguida, segue para mais uma hora de treino de musculação, no mesmo local. Às vezes, a saraivada de exercícios é repetida aos sábados. Além disso, Helder corre e pedala pelo menos quatro vezes por semana, no período noturno. “Correr é bom porque melhora o condicionamento físico”, argumenta. “Aí, de tanto correr, acabo participando das provas.”

Para treinar e participar de competições, ele conta com a ajuda de quatro guias. Todos correm ao seu lado, ligados por um cordão amarrado ao punho. “Quando um não pode ir comigo, outro vai”, diz. “Tenho que avisar sobre as provas com certa antecedência, para que eles possam se programar.”

Medalhas



Helder (à dir.) durante
prova de triatlo
realizada em Santos
dia 21 de setembro

Este ano, Helder vem colecionando vitórias nos esportes. Em março, conquistou o terceiro lugar na Meia-Maratona de São Paulo. Terminou a prova, de 21 quilômetros, com o tempo de 1:39’53”. Em abril, na primeira etapa regional do Circuito Loterias Caixa Brasil Paraolímpico, realizada em Curitiba (PR), ganhou nada menos que duas medalhas de ouro e quatro de prata. Em maio, trouxe para Indaiatuba uma medalha de prata e duas de bronze do Campeonato Brasileiro de Natação. As vitórias não param por aí: em junho, ficou em primeiro lugar na categoria deficientes visuais na Maratona Internacional de São Paulo. O atleta indaiatubano percorreu os 42 quilômetros da prova com o tempo de 4:19’01”. Em julho veio mais uma medalha nos Jogos Regionais de Rio Claro.

Em agosto, uma nova surpresa: participou pela primeira vez de uma prova de ciclismo, o Campeonato Brasileiro de Ciclismo Paraolímpico 2008, ficando em terceiro lugar. O último desafio de Helder foi uma prova de triatlo, disputada no dia 21 de setembro, em Santos. Ele ficou em 1º lugar na categoria deficiente visual, com o tempo de 1:29’03”.

Vida agitada
Devido às inúmeras conquistas e ao bem-estar proporcionado pela prática de exercícios, Helder atribui muito de sua alegria de viver ao esporte. “Sem esporte minha vida seria muito chata”, acredita. Além dos treinamentos, o atleta tem outras atividades: trabalha no Banco do Brasil há quatro anos, namora e sai pouco, devido à intensa rotina de exercícios. A namorada, Elisângela, carinhosamente chamada de Lika, conheceu há dois anos, graças a uma prima.

Ser deficiente visual, para ele, não representa restrições, mas, sim, uma lição de vida. “Com a deficiência aprendi a dar valor às pessoas”, reconhece. “Tenho que agradecer a todos que me ajudam: minha mãe, que faz minha ‘lancheira’, porque eu como o dia inteiro e levo comida para onde quer que eu vá; meu pai, que me leva e me busca na academia e no banco; eles vivem para mim.”

Além da família e dos amigos que o apóiam, Helder lembra que algumas empresas o incentivam. “Tanto o banco em que trabalho, como meus patrocinadores, treinadores e guias acreditam muito em mim”, conta. São patrocinadores do atleta Rafael Magazine, Sapataria São Vicente, Gran Tropical Center e Mundo Bola. Helder também recebe o apoio da Secretaria de Esportes e Lazer (Sesla) para o transporte.

Para aqueles que acreditam que limitações podem trazer infelicidade, Helder é a prova viva de que é possível driblar as dificuldades com muita garra. “Sou feliz do jeito que sou”, garante. “Independente do que as pessoas façam, seja certo ou não, o que importa é que elas estejam felizes. Não importa se você está gordo, ou não consegue enxergar, aproveite o momento.”

Familiares se
desdobram para ajudar

O apoio da família e dos amigos é fundamental para aqueles que têm alguma deficiência. Seja para auxiliar nos afazeres do cotidiano ou simplesmente para fazer companhia. No caso de Helder, companheiros não faltam. Além de sua namorada, que sempre o acompanha nas competições, o atleta conta com o apoio dos pais e amigos.

A mãe, Ana Lúcia Barretta, conta que ajuda o filho principalmente no preparo das refeições. “Acordo de madrugada com ele para arrumar o lanche que ela leva para a academia”, explica. “O Helder é muito regrado na alimentação.” Além de preparar a “lancheira” do atleta para que ela vá para a academia ou trabalho, Ana Lúcia também prepara seu prato nas refeições. A mãe confirma que o filho recebe atenção especial da família. “A hora que ele está em casa a atenção é só para ele”, reconhece.

Dentre as características mais marcantes do filho, Ana Lúcia cita o bom humor e o fato de estar sempre bem informado. E, claro, o orgulho que dá a cada prova de que sai vitorioso. “O Helder é um menino de ouro”, orgulha-se.

O primo e guia de corrida de Helder, Rafael Wolf, conta que os dois convivem desde pequenos e que sempre o ajuda em treinos e competições, mas tem bastante liberdade para dizer de quais pode ou não participar. “Nos finais de semana sempre treinamos juntos pela manhã e durante a semana, à noite, ele tem outros guias”, diz Rafael. “Ele sempre me avisa com muita antecedência das competições e eu encaro na boa, tenho total liberdade de falar em quais provas não poderei ir.”

Para Rafael, treinar e participar de competições com o primo não é nenhum sacrifício, ao contrário, os dois são grandes companheiros. “Gosto de correr e ele acaba me fazendo companhia”, reconhece. “Sempre corri de final de semana pela manhã, só que agora vou com ele.”

A cumplicidade entre os dois é tanta que a emoção quando Helder vence é a mesma para Rafael. “Parece chavão, mas a sensação de cruzar a linha de chegada com ele é indescrítivel”, narra. “Quando o pessoal que está vendo a prova percebe que ele é deficiente começa a aplaudir e a incentivar. É muito emocionante.”

Durante as provas, para que o primo tenha noção de quanto ainda precisa correr, Rafael faz algumas comparações com percursos de Indaiatuba. Em determinada prova, Helder estava cansado e seu guia, para incentivá-lo, explicou que só precisavam correr “até o chafariz”, numa referência ao trecho do Parque Ecológico de Indaiatuba. “Não temos nada combinado, mas ele precisa ter referência para continuar motivado na corrida e não perder velocidade, então, sempre que possível tento fazer essas analogias”, explica.

Alguns cuidados devem ser adotados quando correm pelo Parque Ecológico, já que a pista é irregular e por vezes animais andam em local proibido. “Na pista do Parque, que é destinada a pedestres, às vezes tem cavalos, bicicletas, aí acaba complicando um pouco”, conta Rafael. “Mas eu vou falando para ele o que está por vir, para ele não assustar.” A solidariedade também está sempre presente durante os treinos. “Os pedestres do Parque sempre que percebem que ele é deficiente até abrem caminho”, diz. “É bacana ver que querem ajudar.”

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